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A Vida Segundo Zulmiro Lim, conto de Mario Garrone


Mario Garrone, autor do romance O Homem Infeliz

Dezembro, mês do “entra e sai, sobe e desce, um formigueiro humano, um tal de o mundo quase se acabar cheio de embrulho”. É neste clima que se desenrola a trama do conto A Vida Segundo Zulmiro Lim, de Mario Garrone. Um personagem que é preciso atenção redobrada para compreendê-lo, tanto que o narrador confessa: “Só tive pesadelo depois da conversa. Ele lá falando feito em transe e eu ouvindo com assombro, conversa nenhuma entre nós dois”.
Nada mais apropriado do que ler este conto às vésperas do Natal: leia com atenção, reflita e deixe seu comentário. Tenho certeza que as opiniões serão as mais diversas. Mario, novamente obrigado pela confiança em publicar sua obra, inédita, aqui no
Favo do Mellone.

A Vida Segundo Zulmiro Lim

A bondade e a ausência de soberba é o que Deus quer e espera. A velha ladainha de que não se faça de ruim ao próximo o que de pavoroso não se desejaria vindo contra si de alguém de alma torpe. Que amemos uns aos outros e que a mão direita nunca saiba o que a esquerda teve a digníssima gentileza. Tudo muito bonito, mas inócuo! Na retidão total dos princípios vai-se aonde? Sendo lindamente probo, qual será seu fim?

Cidade Comunicadora, do artista plástico Osmar Beneson

Um desconforto me bateu ouvindo ali na lata o que nunca alguém ousou. Nunca antes ninguém na minha frente com essa lábia fria. Nenhuma vergonha mínima em dizer que o mundo mente o tempo todo, é tudo enganação, engodo, discurso vazio e vão. Que quem se comove está frito, o rolo compressor com muitíssimo prazer vem passando e esmaga todo sonho ingênuo. Para se ter o luxo (e ele faz questão de ter!), para se ter o bom conforto, o aprazível, esquece a bondade, afasta esse negócio de Deus. Dezembro, aliás, não tem nada a ver com amor. Dezembro sempre prosperou porque é o que é. Um dia, provavelmente, ele também se renda à hipocrisia geral e diga que aí, se não fosse Jesus, se não fosse a misericórdia divina, se não fosse a fé na santa Edwiges. Hoje não. Não há lugar, inclusive porque depois do advento do Darwin.
Se eu sabia do Darwin. Se eu sei do cientista, do tal que. Sei lá se eu sei, se eu quero saber desse homem. Inteligentíssimo o Zulmiro assim tão novo, um privilégio de cabeça, nunca precisou estudar em casa depois da aula. Era prestar atenção e pronto, estava assegurada a nota alta, é o que a Lilica sempre contou com orgulho. Mas só tive pesadelo depois da conversa.
Ele lá falando feito em transe e eu ouvindo com assombro, conversa nenhuma entre nós dois.  Dizer eu o que a um jovem preparado de vocabulário vasto? Um retratinho tão duro do mundo, uma visão despudorada de toda triste vilania que sempre assolou e nunca deixou de dar todas as cartas.
Que o amor inviabiliza, retém, com ele não se sai de onde se está. Enquanto você ama o próximo (se por acaso você der de amar), o outro
empreende e voa. Vai nessa de distribuir todos os lucros entre os que te ajudaram, os simples e os humildezinhos que suaram por ti, e sucesso
nenhum na sua horta. Você só se ferra e afunda e ninguém te salva nem te joga a boia.
O que a vida tem de melhor ele quer. E terá. O primeiro milhão antes dos trinta. Tem tino o Zulmiro, tem meta, não quer ver a vida passar em branco, não está aqui para deixar o dinheiro ir só em direção às mãos dos outros. Pode não ter nada ainda, mas tem tudo traçado. Em hipótese nenhuma está para brincadeira o moço.
Que o amor cerceia, empata. Quem ama com o coração não deslancha, não desbrava, não desabrocha para a vida. Estou te falando. Fiquei besta.
Assim na maior cara dura. O primeiro milhão antes dos trinta. Até aí eu vou ser contra? Folgo em saber que muito diferente do pai, um homem sem ação nem desejo, um zé-ninguém que só dificultou a vida da mulher e dos filhos.
Não sei se Balzac, mas alguém falou que no início de toda fortuna há um crime. Dinheiro em abundância não vem da virtude. Mas ser virtuoso leva a que neste mundo de trevas? O que Zulmiro não teve na infância nem tem agora terá. O importante é focar bem focado e ir em frente sem medo.
Deus quer que um ame o outro como a si? Vai nessa e se fode. O outro avança, você fica. O que a vida tem de melhor ele quer e só a ambição possibilita. Não convém colocar amor no meio, que amor paralisa, atropela.

Ilustração sobre a teoria de Darwin da evolução humana

Não apronte nada contra o outro, seja justo e bom, a cada um o que é de cada um, e você não vai a parte alguma, como o pai dele não foi. Esquece esse negócio de Deus, inclusive porque segundo Darwin.
Zulmiro caga para dezembro (caga!). Dezembro é o mês do amor desde quando? É preciso ser muito cínico para vir com essa quando todo mundo sabe o que dezembro é. Um entra e sai, um sobe e desce, um vai e vem, um formigueiro humano, um tal de o mundo quase se acabar cheio de embrulho. Que uma coisa é de tirar o chapéu nesse cinismo todo de dezembro com tanta luz e estrelinha e coral na frente do shopping. Jesus em parte alguma o mês inteiro e mesmo assim que outra noite no ano igual à da ceia, as ruas sem ninguém, carro nenhum na praça, que outra noite todo mundo dentro das casas, até ateu e ateia, fazendo a mesma coisa por causa do aniversário do mesmo morto, ainda que neguinho nenhum saiba nem queira saber por que justamente naquela noite todo mundo precisa estar junto para fazer a mesmíssima coisa pela lembrança do nascimento do morto de que ninguém se lembra e a quem ninguém dá pelota?  Deixa o falecidinho na cruz (isso mesmo, na cruz!, está me ouvindo?). Por que do peru, da farofa, do vinho, do lombo e Jesus impedido de entrar, no sereno, um penetra na festa que nunca foi dele?  Ninguém quer Jesus. Jesus atrapalharia o jantar, a bebedeira de sidra e cerveja e champanhe e a abertura frenética dos pacotinhos. A Igreja não quer o Cristo. Nenhum papa entende Jesus, se bem que depois do advento do Darwin, sabia?                                                                                                               Ele é que não vai ser como o pai e o irmão. O Deodato que dê aula para o resto da vida nos confins do Jardim Bagdá e fique à míngua, ganhando salário merreca, ensinando o que ninguém aprende, ouvindo insulto e sendo esculachado pela corja de delinquente que sai da escola tão analfabeta como entrou.
O negócio é ter estratégia, mirar com precisão, e sai da frente! Sem determinação e ousadia não se sai do lugar, não se atinge objetivo nenhum. A Igreja, por exemplo, está aí até hoje, bem ou mal, porque tem estratégia de marketing, não brinca em serviço, sabe defender seu espaço, segurar a malta infeliz. A Igreja sabe que o que Darwin falou não consola ninguém e não interessa para a massa. Apenas assusta e desequilibra. Não há cristão que queira lá saber coisa nenhuma sobre nós e os macacos. Deus nenhum no começo nem no fim? Isso é lenda, a verdade é aquela de Adão, de Noé, do Espírito Santo, dos milagres da multiplicação e da ressurreição do morto. A virtude e a correção não teriam mantido a Igreja em pé. Vai ver a história toda, os podres, conheça a vida de putaria (putaria, olha só!) do papa Alexandre VI que comia até a filha Lucrecia, a bandalheira que foi, a bandalheira que é, as Cruzadas, a Inquisição. Que papa condenou a escravidão dos negros quando os negros morriam destruídos nos troncos? Pedofilia é pinto (pinto!).
Inteligentíssimo e preparado o Zulmiro. Mas sem respeito nenhum por nada, uma boca sem trava. Dá até medo de ouvir, arrepia. Incomoda ver um rapaz sem censura na língua, um desassombro danado, um furor que.
Detesta o nome que tem. Onde o pai e a mãe com a cabeça? Que pensou em mudar no cartório, mas desistiu para não magoar demais a Lilica. Pelo
pai, que está morto, ele trocava, mesmo se fosse vivo, não estava nem aí para pai fracassado e medíocre. Nome feio, horrível, jeca, mas nome feio nenhum, está me ouvindo?, vai atrapalhar seu caminho de glória. Tanto empresário com nome horroroso de pobre. Trocar o nome para quê? O pai
cheio da grana do amigo tem um nome pior e ninguém nem lembra mais que é brega. É enriquecer e tudo fica bonito, charmoso. Quem riu do nome dele na escola não vai chegar perto de onde ele em pouquíssimo tempo, anota aí, anota.
Amicíssimo do filho do empresário cujo nome. Amizade é tudo, é preciso escolher a dedo, se aproximar de quem conta, de quem pode
oferecer alguma coisa que preste. Amizade é negócio, tudo é negócio no mundo. Se você não entender que nada na vida é à toa, que os relacionamentos podem definir todo o rumo, você empaca no brejo e nem Cristo. Ele e o filho do empresário de nome jeca, é só esperar para ver, vão abrir um troço e o troço vai crescer que nem bolo. O que é, Zulmiro não disse, é segredo, mas já está tudo traçado. Amizade é o luxo, o fermento. Amigão do filho mais novo do bilionário. O outro entra com a grana do pai e ele com a cachola cheia de ideia. O futuro promete. Ser amigo de gente chinfrim não é com ele.

Ilustração sobre a teoria evolucionista

Se você quer empreender alguma coisa a sério neste mundo, esquece tudo de bocó que o senso comum te disse. Não dê ouvidos ao que se diz, mas não se faz porque não é para ser feito. Que há uma cratera, um enorme vão entre a conversinha mole do amai-vos uns aos outros e a vida real nos bancos, nas empresas prósperas, nos conglomerados, nos gabinetes, nas prefeituras, nos palácios dos governos. Vai nessa de levar em conta os ensinamentos de Jesus e verá onde se acaba, se é que Jesus um dia disse, se é que o Darwin. Que se até mesmo a Igreja sempre ignorou o que o crucificado teve a audácia, se é que teve alguma, não vai ser ele que vai dar pelota, marcando passo justo agora que, finalmente, o Brasil e os outros países do Bric.
Determinação é o que conta. Se o cara tem talento e coragem e sabe fazer a coisa do jeito que o mundo quer que se faça, ninguém mais segura. É mirar com objetividade e arrojo e saber liderar o projeto no qual se acredita e se percebe todo o potencial e, nem vem que não tem, o sucesso
está lá, a grana aparece, todo mundo te olha com inveja, quer ser você. Se bem que também tem aqueles que vão falar mal, sempre tem os coitados que nunca vão conseguir bosta nenhuma no mundo, deixa para lá, essa gente não conta. Não se deve perder tempo com quem fracassou.
Zulmiro não repetirá a vida insossa do pai. Quer distância de tudo o que lembre coisinha medíocre, pasmaceira, monotonia. Vidinha de merda com ele, não. Se o irmão, o Deodato, nome melhor que o dele, sim, e daí?,nome a gente não tem culpa de ter, a ideia escrota é do pai, a mãe é que tem a péssima ideia de jerico de escolher o nome idiota que nunca deveria escolher para o filho (filho que vai ouvir brincadeira imbecil na escola por isso. Na escola está cheio de coisa imbecil. O que tem de coisa imbecil na escola e no mundo, meu chapa!). É, se o Deodato vai morrer dando aula no Jardim Bagdá, recebendo um tiro na testa de um aluno que não sabe escrever nem contar dois mais três e não gostou de ouvir o que ouviu do professor em pé na frente da lousa segurando o giz, ele, Zulmiro, sente muito, o Deodato é irmão, mas cada um que escolha a vida que quer, um irmão pode ser, sim, completamente diferente do outro, até parecer que foi criado na casa do lado oposto da curva, que nasceu numa outra cidade, parido por outra mulher num país diferente, parentesco nenhum entre os dois, está me ouvindo? Cada um é cada um e se há quem se contente com pouco, ele está fora, está longe desse mundo que não sai do lugar. Vidinha precária com ele, não. Ele quer usufruir, fazer parte, participar, ser coisa na vida. É só esperar para ver se ele chega lá ou não chega. Quem é que dá ao outro o que dá para si? Sai fora!

Pois se eu estou te falando. Ele diz o que quer e nem se incomoda que a gente ouça. O Zulmiro não brinca em serviço, tem um objetivo e persegue, e ninguém que lhe apareça na frente para tentar impedir. Empecilho nenhum será suficiente para que a coisa não ande como tem que andar. Se o carinha põe na cabeça que o sucesso está lá, quem vai impedir?  A amizade com o filho caçula do bilionário não vai ficar nisso de comer na mansão com talhares de prata e se bronzear na piscina tomando uísque do bom. Ele não ia ficar amigo e deixar a oportunidade escapar, vira essa boca para lá. Ideia ele tem, a cabeça é boa, inteligente, sagaz, nunca precisou estudar em casa, sabia?
Que uma mão sempre saiba o que a outra. A mão que faz sempre tem que deixar tudo às claras. O que é para se espalhar é para se espalhar, para ser visto por todos. Vai contar para outro essa história de ao próximo como a si. Quem vai nessa não anda, vê o outro passar e ele fica. Só o outro ultrapassa e ele senta, e a vida, de repente, já foi, e daí, meu amigo, não adianta chorar. Quem quiser se deixar enganar que acredite. Tem quem acredita em cada coisa absurda no mundo. O que tem de igreja na praça, meu filho. É um tal de pastor contra padre, padre contra pastor, uma história de Deus que não bate com a outra história de Deus. É um tal de macumba, de mesa branca, tanta pomba-gira e gente que baixa no corpo de outro e diz que ainda está vivo depois de estar morto, o preto véio no terreiro falando tudo errado pela boca de quem fez até pós no estrangeiro, e fulaninha fazendo despacho na esquina com galinha e pedindo toda a desgraça do mundo para aquela sirigaita que teve o topete. É patuá, é Mãe Menininha, é a multidão acenando emocionada para o papa nas ruas de tantos países e voltando para casa e fazendo tudo ao contrário do que o velho pontífice insiste e quer (sexo só entre marido e mulher, olha lá, e nada de separar e casar, massa ignara e surda!). Tanta novena, tanta promessa, tanto despacho na curva e o coitado do Darwin, desde mil oitocentos e tanto, falando sozinho com as paredes.

Mario Garrone

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