Peça: Alma Despejada, foto 1

Alma Despejada: solo de Irene Ravache incita à reflexão sobre a vida

De em setembro 19, 2019

Peça: Alma Despejada,  foto 1

Para completar seus 75 anos, Irene Ravache vive a protagonista da peça de Andréa Bassitt

Não é spoiler (revelação de uma informação crucial de uma obra), já que tudo é revelado na primeira cena. Na peça de Andréa Bassitt, Alma Despejada, que acaba de estrear no Teatro Porto Seguro, Irene Ravache vive Teresa, uma mulher de 70 e poucos anos que revisita sua casa, que fora vendida e será reformada, e passa a dividir com os espectadores todos os momentos vividos ali. Detalhe: ele já morreu! Com humor e delicadeza, a montagem dirigida por Elias Andreato, por meio dos fatos pessoais relatados pela personagem, incita o público a refletir sobre a vida e a morte.

 

“Andréa Bassitt exercita sua memória como artista e mergulha num turbilhão de palavras. Seu texto fala do país e de nossas lembranças mais delicadas. E isso, mais do que nunca, se faz necessário”, afirma Elias Andreato.

 

Peça: Alma Despejada, foto 2

Logo no início a personagem confessa que já morreu

Num cenário que demonstra uma casa que está sendo desmontada, Teresa, uma professora aposentada de classe média, olha tudo com carinho, emoção e sem apego, diz que está aprendendo a se desapegar de tudo. Ela conta que sempre viveu ali naquela casa e que esta será sua última visita. E sem rodeios conta que já morreu. É assim, desta forma direta, que a personagem começa a relatar à plateia sua condição atual e imediatamente deixa que a memória a leve para os momentos que desfrutou ali. Teresa faz um verdadeiro inventário de sua existência, relembrando desde os momentos alegres vividos ao lado de Roberto, seu marido, e do casal de filhos, além de amigos queridos, como Dora, sua amiga de infância, e Neide, que trabalhou para ela por mais de 30 anos. Mas também vem à tona o período difícil, em que o marido revela sua participação em negócios escusos da política do país e vai preso.

 

Com um texto ágil e requintado, que leva o espectador do riso de uma piada inteligente às lágrimas, Irene tem pleno domínio cênico e, segundo o diretor, é “soberana no seu ofício, tem o poder de criar personagens preenchidos de leveza, humor e densidade”. Outro atrativo da peça de Bassitt: a autora mostra seu amor à palavra, a personagem se diz amante das palavras, tanto dos significados como das sonoridades delas (‘hipocrisia, parece sinfonia’, e a atriz pronuncia a palavra regendo como se estivesse à frente de uma orquestra).

 

 

Alma Despejada, foto 3

O diretor Elias Andreato

 

 

“Essa mulher é apresentada diante de sua própria vida, e, a partir dessa visualização, ela encontra o entendimento da sua existência. É como se precisássemos abandonar a matéria para sermos conscientes de nós mesmos. Na peça, lidamos com a memória, como a personagem, sem medo de enfrentar nossos demônios e nossos momentos sonhados”, revela Elias Andreato.

 

 

 

 

Peça: Alma Despejada, foto 4

Irene e plateia: sintonia perfeita

 

 

 

Além da dramaturgia envolvente e da direção sensível que só valoriza a performance da atriz, Alma Despejada se destaca ainda pelo cenário e figurino assinados por Fabio Namatame, pela iluminação de Hiram Ravache (filho da atriz)  e pela trilha sonora de George Freire e Daniel Grajew, que contribuem para a condução da narrativa. Mas tudo se concretiza graças à interpretação de Irene Ravache: com seu talento e carisma, a atriz constrói com a plateia uma incrível sintonia, há uma verdadeira empatia entre ela e os espectadores. Um espetáculo reflexivo e ao mesmo tempo leve, que emociona. Imperdível! Somente quartas e quintas.

 

 

Roteiro:
Alma Despejada
Texto: Andréa Bassitt. Direção: Elias Andreato. Elenco: Irene Ravache. Cenário e figurino: Fabio Namatame. Iluminação: Hiram Ravache. Trilha sonora: George Freire e Daniel Grajew. Fotografia: João Caldas Filho. Produção: Oasis Empreendimentos Artísticos Ltda.
Serviço:
Teatro Porto Seguro (496 lugares), Al. Barão de Piracicaba, 740, tel. 11 3226.7300. Horários: quarta e quinta às 21h (dias 9, 10, 30 e 31/10 não haverá sessão). Ingressos: R$ 70 e R$ 60. Bilheteria: de terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h. Serviço de Vans: transporte gratuito da estação Luz até o teatro. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 28 de novembro.

Uba
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