Antonio Fagundes vive pintor Mark Rothko em Vermelho

De em abril 13, 2012

Antonio e Bruno Fagundes na pele dos pintores Rothko e seu assistente Ken

Numa coprodução do ator Antonio Fagundes e do diretor Jorge Takla, a montagem de Vermelho, texto do roteirista e dramaturgo norte-americano John Logan, além de inaugurar o belíssimo Teatro GEO, com 627 lugares, dentro do Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, é encenada pela primeira vez no Brasil. A peça estreou em 2009 em Londres e no ano seguinte arrebatou diversos prêmios na Broadway/Nova York, inclusive o de melhor espetáculo.
A trama (traduzida por Rachel Ripani) gira em torno do duelo de gerações entre o consagrado pintor russo (naturalizado norte-americano) Mark Rothko e seu assistente Ken. Mais do que a entrega de bastão do artista mais velho para o iniciante, a peça discute a relação do mercado com a obra de arte, além das diferentes visões de mundo, ideologia e modo de encarar a vida entre os dois personagens. A montagem brasileira traz um elemento a mais: como no palco Rothko e Ken são interpretados por pai e filho, o duelo de gerações fica ainda mais evidente para a plateia.
Mark Rothko suicidou-se em 1970, aos 67 anos; no entanto a peça é um recorte de apenas dois anos na vida do artista plástico: tudo se passa entre 1958 e 59 quando ele estava em seu ateliê de Nova York produzindo a série de murais para o restaurante Four Seasons, no Edifício Seagram, encomenda feita a ele por uma quantia recorde para a época. Para auxiliar neste trabalho, ele contrata o assistente Ken e é deste encontro que surge uma relação no mínimo inusitada. Se no início o rapaz se mostra inexperiente e submisso à arrogância e ironia do mestre, com o passar do tempo Ken amadurece e passa a questionar com fortes e seguros argumentos a postura de veterano pintor.

Fagundes num dos embates do mestre com o principiante

A grande atração de Vermelho é justamente esta relação criada entre os dois artistas: em embates calorosos Rothko tenta passar ao jovem pintor toda sua experiência profissional e de vida; entretanto é o rapaz que, ao final, consegue por em xeque o consagrado artista.
Jorge Takla, além de dirigir, assina a cenografia e divide a iluminação com Ney Bonfante: ambos os elementos (luz e cenário) são essenciais para a concepção cênica da trama. O cenário reproduz o ateliê de grandes dimensões Rothko em Nova York, que possuía uma iluminação específica:
Vermelho é uma obra exigente que, como Rothko, nos leva a criar um clima de luzes delicadas, um ambiente suave para valorizar as obras e deixá-las pulsantes e vivas. Aliás, a luz foi um dos desafios da montagem, pois Rothko dizia que uma obra vive por simbiose, precisa do olhar empático do observador e, por isso, ele tinha que protegê-la, controlando a luz, a altura em que ela está exposta, a distância do observador; senão a obra poderia morrer desprotegida”, conta o diretor.
Vermelho é um espetáculo que prende a atenção do público principalmente pela simbiose criada entre os dois personagens: em diálogos profundos, às vezes até cortantes, mas também de muita emoção, os atores são exigidos no grau máximo. E aí é que a montagem ganha maior dimensão: falar do talento e carisma de Antonio Fagundes não acrescenta muito. No entanto, o ator surpreende na composição do velho e neurastênico pintor: o figurino de Fábio Namatame (calças sociais com cinto colocado acima da barriga) contribui muito para deixar o ator obeso e ao mesmo tempo prepotente, marca de Rothko.

Bruno dá o tom perfeito do jovem que amadurece e questiona o mestre

E Bruno Fagundes, pela primeira vez contracenando com o pai no palco, é outra grande surpresa: traz os holofotes para si na composição do jovem pintor que sai de uma postura ingênua para se mostrar ao final um promissor artista plástico. Nos diálogos finais, vemos dois atores de extrema grandeza e talento.

Fotos: João Caldas


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