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Aqui Jaz Henry: visão sobre a existência humana de um recém-falecido

De em junho 29, 2018

Peça: Aqui Jaz Henry, foto 1

Renato Wiemer, protagonista da peça de Daniel MacIvor, assina também a tradução e trilha

Conhecido no Brasil graças às montagens de suas peças (In On It e À Primeira Vista, ambas dirigidas por Henrique Diaz), o ator, dramaturgo, diretor e roteirista canadense Daniel MacIvor tem mais um de seus espetáculos montados no país. Depois de uma pequena temporada no ano passado, o monólogo Aqui Jaz Henry está novamente em cartaz, agora no Teatro Eva Herz, sob o comando de Renato Wiemer, responsável também pela concepção, tradução e trilha sonora do espetáculo.

A trama traz o relato de Henry sobre sua vida. O inusitado é que ele já está morto e desta forma passa a limpo todos os momentos de sua existência. Mas o personagem questiona o que é verdade e o que é mentira, incitando o espectador a refletir sobre o sentido da vida e da morte.

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Wiemer é dirigido por Kika Freire

 

Impossível não associar a proposta do dramaturgo canadense com o clássico romance de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, que também já ganhou versão para os palcos. No entanto, se Machado deixa claro desde a primeira palavra que o protagonista está morto e vai relatar a sua última existência, MacIvor apresenta Henry como se fosse um palestrante diante de uma plateia; ele  faz indagações sobre a existência humana, começa a contar sobre sua vida, desde o nascimento, sua relação com o pai (vítima de alcoolismo) e a mãe (uma mulher fútil e submissa), sua vivência escolar, sua homossexualidade, até sua vida profissional e afetiva. Exatamente quando está em plena sintonia coma plateia — ele quebra a quarta parede desde o início e induz a participação dos espectadores— é que revela a sua real situação: está morto e revendo sua existência. Entretanto, Henry conta o mesmo fato com versões distintas, questionando o que é verdade.

“Toda percepção da finitude pode ser ilusória. Os caminhos, se bem traçados, provocam desdobramentos. Se a mentira pudesse ser verdade e a verdade pudesse ser mentira, ampliaríamos possibilidades, não permitindo uma perspectiva hermética. Nesta lógica, o uso de memórias desnudas e desejos consequentes permeia nossa história de modo que ela se abra para além de um velório, de um enterro, de um fim”, filosofa a diretora da peça Kika Freire.

O teatro de MacIvor envolve o espectador, graças aos jogos dramáticos que ele propõe. Por também ser ator — escreveu vários monólogos para ele mesmo atuar —, suas peças revelam o domínio que tem sobre a concepção cênica e o espectador precisa ficar atento às mudanças e reviravoltas do enredo.

 

“MacIvor tem uma maneira especial de escrita, uma dramaturgia não linear, dissonante, mas que faz todo o sentido. Nesta peça, Henry fala e se relaciona o tempo todo com a plateia; o espetáculo transporta o espectador para dentro da narrativa”, afirma Renato Wiemer.

 

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Ator em grande performance

 

Além da dramaturgia envolvente, a sensível performance do ator é que dá força e vitalidade ao espetáculo. Destaque ainda para o visagismo de Leopoldo Pacheco e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros. Da trilha sonora, assinada pelo ator, a última canção entoada pela saudosa Elis Regina remete o público à temática da peça. Como aperitivo, fique com o pot-pourri da cantora, que inclui Meio Termo (Lourenço Baeta/ Cacaso) e Corpos (Ivan Lins/ Victor Martins.
 

 

 

 

 

Roteiro:
Here Lies Henry
. Texto: Daniel MacIvor. Dramaturgia: Daniel Brooks. Tradução: Renato Wiemer. Direção: Kika Freire. Idealização, concepção e atuação: Renato Wiemer. Iluminação: Paulo Cesar Medeiros. Figurino: Claudio Tovar. Cenário: Teca Fichinski. Trilha sonora: Renato Wiemer. Visagismo: Leopoldo Pacheco. Fotografia Patricia Ribeiro. Projeto Gráfico: Karin Palhano. Direção de produção: Joana D’aguiar. Realização: Wiemer Produções e Sopro Escritório de Cultura.
Serviço:
Teatro Eva Herz (168 lugares), Livraria Cultura, Conj. Nacional, Av. Paulista, 2.073, tel. 11 3170-4059. Horários: sábado às 21h e domingo 19h. Ingressos: R$60 e R$30. Bilheteria: terça a sábado das 14h às 21h; domingo das 12h às 19h. Duração: 65 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 29 de julho.

 


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