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As Criadas: versão do grupo Tapa para o clássico do maldito Jean Genet


Peça: As Criadas, foto 1

Clara Carvalho e Denise Weinberg dão vida as irmãs Clara e Solange da peça do dramaturgo francês

Um autor que em suas obras retrata com extrema fidelidade e poesia o lado marginal e podre da sociedade — conheceu a prisão ainda moço, saindo e voltando dela várias vezes —, Jean Genet invariavelmente é revisitado e encenado em todo o mundo. E a temporada teatral paulistana está com duas montagens do dramaturgo francês. Depois do sucesso em 2014, Genet- o poeta ladrão, texto de Zen Salles e direção de Sergio Ferrara sobre a vida e obra do autor, voltou a ser apresentado, agora no Teatro Nair Bello, até 12 de fevereiro.
A outra montagem de Genet na cidade, no Teatro Aliança Francesa, é a versão do grupo Tapa para As Criadas, que faz parte de um projeto do grupo que inclui ainda no primeiro semestre mais uma produção sobre o autor, Esplêndidos.
Considerada clássica, tendo sido encenada com variadas leituras, a montagem de As Criadas do diretor Eduardo Tolentino enfatiza o lado psicológico daquelas duas irmãs — Clara vivida por Clara Carvalho e Solange interpretada por Denise Weinberg —, que trabalham para uma mulher rica e poderosa, papel de Emilia Rey. Num jogo de poder que envolve rancor, raiva, inveja, admiração, submissão, amor e ódio, as duas planejam a morte da patroa.

Peça: As Criadas, foto 2

Denise e Clara voltam a trabalhar juntas no grupo que ajudaram a criar, o Tapa

O cenário escolhido pelo diretor é o interior do quarto da madame, onde estão seus suntuosos vestidos, suas joias, perucas, maquiagem. Clara e Solange aproveitam a ausência da patroa para trocar de papel com ela e usam seus pertences, como crianças que usam os vestidos da mãe quando ela não está. Mas em nenhum momento o conflito de classes, o ódio e o rancor desaparecem das falas e atitudes das empregadas. A cena inicial, no entanto, em que há a troca de papéis (Clara apresenta-se como a dona da casa e sua irmã é a mais submissa dos serviçais) cria um ruído com a plateia: o espectador percebe que ambas são criadas só depois de vários diálogos entre elas. Estabelecido o jogo cênico novamente, as personagens continuam com a artimanha de se passar pela madame e sendo servida pela outra, além de articularem a morte da patroa, preparando um chá com veneno. A chegada triunfal da patroa restabelece os verdadeiros papéis sociais, com a arrogância e prepotência de um lado e a submissão e a subserviência do outro. Como o plano de assassinato não vinga e a patroa volta a sair, o sentimento de desespero e revolta se intensifica entre as criadas.

Peça: As Criadas, foto 3

Emilia Rey interpreta a patroa

Vencedoras de diversos prêmios em suas carreiras, Denise e Clara têm a chance mais uma vez em As Criadas de mostrarem o quanto são talentosas e brilhantes atrizes. O cuidado e a delicadeza na produção, marca do grupo Tapa, também devem ser ressaltados nesta montagem. Recriada a parceria entre Aliança Francesa e o grupo — o Tapa foi residente artístico do teatro durante 16 anos, de 1986 a 2002 —, o público pode ter certeza que novas e instigantes produções virão deste reencontro.

Fotos: Ronaldo Gutierrez

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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4 Comentários para “As Criadas: versão do grupo Tapa para o clássico do maldito Jean Genet”

  1. Imad Says:

    Bela resenha, como sempre, que me fez recordar aquela noite em que tivemos o prazer de assistir a grandes atuações, inspiradas em rico texto. Obrigado pelo convite e por nos brindar com essa indicação.

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  2. Zen Salles Says:

    Ótimo que o mestre Genet seja visto e revisto pelas novas gerações, com a sua temática das sombras, sempre jogando luz nos nossos desejos mais ocultos. “As Criadas” é uma das peças dele que mais curto. Clara e Denise sempre ótimas, engrandecendo cada palavra da poesia cortante de Genet. A cena de Denise na escada e Clara naquele modelão interminável… Dois momentos da peça que vc baba de puro êxtase. E ainda tem a nossa que cumpre sua derradeira temporada, com Gelli, Nicolas, Rogério, Gabrielle e todo aquele elenco sensacional que se desnuda completamente em cena, sem perfumaria, do jeito que Genet sempre se mostrou em seus textos. Viva Genet. E parabéns sempre, Mellone. Curto demais esse teu Favo aqui, sempre trazendo as delícias teatrais feito na nossa cena. Vida longa, querido!!!

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    • Maurício Mellone Says:

      Zen, querido!
      Fico muito feliz com seu comentário e participação aqui no Favo.
      Concordo com vc sobre o espetáculo do Tolentino: as cenas citadas por
      vc são belíssimas mesmo e marcam a reviravolta da trama. Denise e Clara
      arrasam!!!!
      Já sobre sua peça (Genet o poeta ladrão), os elogios são grandiosos também.
      O universo marginal e POÉTICO do maldito Genet está ricamente representado no palco.
      Novamente parabéns a vc e toda a talentosa equipe!
      E muito obrigado pela força e pelo incentivo! Procuro com o Favo
      trazer um breve painel do que esta pulsante cidade nos proporciona!
      bjs, amigo!

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