Peça: Boca de Ouro, foto 1

Boca de Ouro: tragicomédia de Nelson Rodrigues por Gabriel Villela

De em agosto 17, 2017

Peça: Boca de Ouro, foto 1

Elenco: Cacá Toledo, Jonatan Harold, Mariana Elisabetsky, Malvino Salvador, Leonardo Ventura, Cláudio Fontana, Chico Carvalho, Lavínia Pannunzio e Mel Lisboa

A tragicomédia carioca de Nelson Rodrigues, Boca de Ouro, sobre a vida do temido bicheiro da zona norte da cidade do Rio de Janeiro, ganhou ares de uma grande gafieira pelas mãos do diretor mineiro Gabriel Villela, que assina ainda a criativa cenografia e os belos figurinos do espetáculo, que acabou de estrear no Tucarena.
Villela que já havia encenado outras duas peças de Nelson Rodrigues — A Falecida/1994 e Vestido de Noiva/2010 —, desta vez utiliza canções dos anos 1950 (muitas do repertório de Dalva de Oliveira) para ajudar na narrativa sobre a trajetória do famoso bicheiro carioca que obrigou o dentista a trocar sua arcada dentária por dentes de ouro. Malvino Salvador, que vive o contraventor, divide o palco com mais nove atores, entre eles Lavínia Pannunzio, Mel Lisboa, Cláudio Fontana e Chico Carvalho.

Peça: Boca de Ouro, foto 2

Boca (Malvino) e duas de suas amantes (Mel e Chico)

O clima de gafieira é instaurado desde a primeira cena, quando o elenco entra cantando, como num cordão carnavalesco, e em seguida todos sentam ao redor das pequenas mesas do salão. O marco na vida do bicheiro é logo encenado: no consultório dentário, ele obriga o dentista a trocar seus dentes por outros de ouro.
A trama gira em torno da trajetória do bicheiro, mas parte de sua morte. O repórter Caveirinha, vivido por Chico Carvalho, é convocado a fazer uma grande reportagem sobre ele e revolve procurar Dona Guigui, interpretada por Lavínia Pannunzio, amante do Boca. Sem saber que o ex já estava morto, ela começa a contar um dos crimes atribuídos a ele, o assassinato do casal Celeste e Leleco (Mel Lisboa e Cláudio Fontana). No entanto, Guigui relata três diferentes versões sobre o ex-amante, a última depois de saber que ele havia morrido.

“Boca de Ouro é um personagem forjado pela perspectiva de Guigui, sua ex-amante. À medida que ela narra diferentes versões de um suposto crime cometido por ele, as características do bicheiro se transformam. Ele pode ser um Drácula de Madureira ou um Imperador Asteca. Nosso trabalho foi deixar o jogo teatral se instalar nessa gafieira mítica, onde Boca foi parido numa pia de banheiro”, explica Gabriel Villela.

 

Com um figurino que vai se transformando no decorrer da narrativa — de tons escuros no início para um glamouroso painel de cores nos trajes dos personagens no decorrer da trama— e com recursos cenográficos de extrema criatividade (por exemplo, o elenco usa dedal metálico nos dedos que tem várias funções, inclusive a de imitar antigas máquinas de escrever das redações de jornal), o diretor encanta e envolve a plateia do início ao fim do espetáculo.
Um dos grandes trunfos da montagem é, sem dúvida, o uso de músicas, que complementam e elucidam passagens da vida do bicheiro; é o caso das românticas Lencinho branco (Juan dos Filberto e Gabino Penaloza) e Noite do meu bem (Dolores Duran), além da canção de Aldir Blanc e João Bosco, De frente pro crime, que é uma verdadeira crônica policial. Com o pianista e arranjador Jonatan Harold em cena e de Mariana Elisabetsky como crooner, os números musicais ganham ainda mais força. A sintonia em cena dos 10 atores, entretanto, é o que destaca da linda montagem de Villela. Ressalto ainda a caracterização de Lavínia para glamourosa Guigi e a composição de Chico Carvalho para a grã-fina Maria Luísa (a plateia vai ao delírio em algumas de suas intervenções). Mesmo retratando um personagem datado da obra rodriguiana (um bicheiro dos anos 1950), Villela criou um espetáculo envolvente e que conversa com o momento atual. Sem dúvida um dos grandes destaques da produção teatral deste ano.

Peça: Boca de Ouro, foto 3

Figurino e cenário são assinados pelo diretor

Roteiro:
Boca de Ouro
. Texto: Nelson Rodrigues. Direção, cenografia e figurinos: Gabriel Villela. Elenco: Malvino Salvador, Lavínia Pannunzio, Mel Lisboa, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Leonardo Ventura, Cacá Toledo, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold e Guilherme Bueno. Iluminação: Wagner Freire. Direção musical e preparação vocal: Babaya. Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Monica. Pianista: Jonatan Harold. Fotografia: João Caldas Fº. Produção executiva: Luiz Alex Tasso. Direção de produção: Claudio Fontana.
Serviço:
Teatro Tucarena (300 lugares), Rua Monte Alegre, 1024, tel. 11 3670-8453. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h30. Ingressos: R$ 50 (sex), R$ 50 e R$ 70 (sáb e dom). Duração: 100 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 29 de outubro.

 


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