Brincando com Fogo: Strindberg questiona o casamento tradicional

De em março 7, 2012

Adilson Azevedo, Elvis Shelton, Flavio Barollo, Briza Menezes e Patrícia Castilho estão na comédia de Strindberg

Hoje em que se discute o modelo romântico de casamento, a montagem da Cia Mamba de Artes para a peça inédita no Brasil de August Strindberg, Bincando com Fogo, em cartaz na Caixa Cênica do Sesc Pompéia, é mais do que bem-vinda.
Mesmo tendo sido escrita em 1891, a peça é atual justamente por colocar em cheque o casamento tradicional, muito conhecido e praticado por todos nós até hoje. Na montagem dirigida por Nelson Baskerville o público é surpreendido logo ao entrar: ao invés de uma sala comum de exibição, as pessoas se deparam com uma tenda inflável, em que os atores estão preparados para o início de uma cerimônia de casamento, e são em seguida conduzidas a se sentar nos dois lados da tenda. Somos ao mesmo tempo espectadores de teatro e convidados do casamento.
Depois do terceiro sinal — dado por microfone por um dos atores na tenda —, a cerimônia do casamento tem início, desde a entrada da noiva, os rituais do enlace até os cumprimentos, a festa e a consequente ressaca. Detalhe: todas estas cenas acontecem dentro da tenda inflável, somente com uma trilha sonora, sem qualquer fala. Tudo muito ágil e impactante.

Briza e Barollo: seus personagens se apaixonam, causando conflto familiar

O tédio daquele casal de férias na casa de praia dos pais (interpretados por Adilson Azevedo) só vem à tona depois das cenas iniciais. Para agitar a relação já desgastada, Kut (Elvis Shelton) e Kristin (Briza Menezes) convidam Axel (Flavio Barollo) e Adélia (Patrícia Castilho) para literalmente se divertirem a quatro. O objetivo é que o desejo entre o casal fosse reavivado, porém a receita do bolo desanda. Kristin se apaixona pelo amigo do casal e é punida pela traição; já o marido permanece com as duas mulheres, reafirmando o padrão machista da época de Strindberg e, diga-se a verdade, o padrão machista vigente até hoje!
O diretor confessa que, pela solução dada pelo autor sueco, resolveu interferir:

“Mesmo não tendo mudado muita coisa até hoje, resolvemos rever esta posição. Como a traição masculina é aceita e a feminina condena, fiz uso de dois finais: o do Strindberg, e no outro, inventei. A mulher dá o troco no marido”, diz Baskerville.

 

O destaque da montagem é justamente a inusitada tenda inflável, instalação criada pelo grupo Casa da Lapa. Além da direção, Nelson Baskerville é o responsável pela iluminação e trilha sonora do espetáculo. E justamente por se envolver em todo o processo de produção — na premiadíssima Luís Antonio Gabriela e na recente Os Sete Gatinhos —, fico com uma dúvida. Será que os espetáculos de Baskerville não começam a ter uma concepção cênica única, mesmo com autores, épocas e temáticas tão díspares e complexas? Saí de Brincando com Fogo com esta impressão.

Fotos: Ligia Jardim


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