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Caros Ouvintes: comédia de Otávio Martins retrata o fim da radionovela


Peça: Caros Ouvintes, foto 1

Elenco, da esquerda para a direita: Agnes Zuliani, Rodrigo Lopez, Alexandre Slaviero, Alex Gruli, Amanda Acosta, Petrônio Gontijo, Eduardo Semerjian e Natália Rodrigues

O palco do grande auditório do MASP se transforma no estúdio de uma antiga emissora de rádio. É neste cenário (assinado por Marco Lima) que a comédia Caros Ouvintes, escrita e dirigida por Otávio Martins, se desenrola: tendo como pano de fundo o conturbado momento político por que passava o Brasil — o golpe militar de 1964 —, a emissora, uma das últimas que produzia radionovela, naquele dia irá transmitir o último capítulo de Espelhos da Paixão.
Além do fim da novela, o clima é tenso devido ao desaparecimento do galã (que na noite anterior participara de uma reunião no sindicato da categoria) e com o futuro de todos, já que a telenovela estava em ascensão e o mercado de trabalho, em ebulição.

Para que o público entre no clima das transmissões radiofônicas, ao vivo e com plateia como ocorria no Brasil nas primeiras décadas do século XX, Caros Ouvintes inicia com a cantora Leonor Praxedes, vivida por Amanda Acosta, apresentando um número musical. Após os aplausos, ela sai e Vicente, o diretor da novela interpretado por Petrônio Gontijo, entra para preparar o estúdio; a seu lado está Eurico (Alex Gruli), sonoplasta e seu braço direito. Aos poucos os demais artistas chegam: o locutor Wilson (Rodrigo Lopez), o ex-galã Péricles Gonçalves (Eduardo Semerjian) e a veterana atriz Ermelinda Penteado (Agnes Zuliani). Todos estão apreensivos com a demora do galã, que pode ter desaparecido após sua participação na assembleia do sindicato.

Peça: Caros Ouvintes, foto 2

Espetáculo escrito e dirigido por Otávio Martins

A tensão aumenta no estúdio com as interferências na produção do publicitário Vespúcio (Alexandre Slaviero) e com a decisão da atriz Conceição Neves (Natállia Rodrigues) de se transferir para a TV. A transmissão do último capítulo tem início e o público percebe o desenrolar de duas tramas: o enredo de Espelhos da Paixão e o drama dos radioatores e técnicos, que se sentem ameaçados com a reviravolta no mercado de trabalho e a tumultuada situação política do país, na época.
No criativo programa da peça, que reproduz uma revista de celebridade, Otávio Martins confessa sua preocupação na hora de escrever:

 

“Encaixar o modus operandi de uma rádio com os fatos históricos estava me impedindo de escrever. Daí veio a opção de não estabelecer um ano específico da ação e abrir mão dos fatos cronológicos em nome da liberdade poética de contar a trajetória dos personagens. O que me move, mais que o retrato fiel, são os homens que viveram esse período entre risos e lágrimas, conquistas e perdas”, argumenta o autor.

 

Caros Ouvintes acaba de estrear e, ao contrário de grande parte dos espetáculos em cartaz, tem temporada extensa, até o final do ano. Difícil destacar o trabalho de interpretação, o elenco está coeso e em perfeita sintonia. Porém, me chamou a atenção a atuação de Rodrigo Lopez que dá várias facetas ao personagem — além do locutor hiperprofissional, mostra-se apavorado com o sumiço do namorado, o galã, e com o fim da radionovela. Alex Gruli (um ás na sonoplastia), Petrônio Gontijo e Eduardo Semerjian também emocionam com suas atuações. Quero ressaltar o trabalho de Otávio Martins: todos já conhecem seu talento como diretor (Divórcio) e ator (brilhante em Córtex), mas desta vez ele mostra sua competência como dramaturgo; seu texto é bem articulado, envolve e prende o espectador, que vai construindo o painel das tramas propostas no enredo. A peça tem todos os ingredientes para se tornar um grande sucesso.

 

Fotografia: Priscila Prade

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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2 Comentários para “Caros Ouvintes: comédia de Otávio Martins retrata o fim da radionovela”

  1. MIRIA PESSANHA Says:

    Fui e SUPER RECOMENDO, uma história emocionante, divertida e reflexiva!
    O texto , direção, atuações, produção, cenário, som,enfim tudo em perfeita harmonia, daqueles trabalhos pra assistir,e de novo, de novo… IMPERDÍVEL SP!!

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