Peça: Últimos Remorsos Antes do Esquecimento, foto 1

Cia carioca encena em São Paulo Últimos Remorsos Antes do Esquecimento

De em outubro 16, 2013

Peça: Últimos Remorsos Antes do Esquecimento, foto 1

José Karini e Letícia Isnard em cena da peça que faz parte do repertório da Cia

Só depois de 17 anos — e dezesseis espetáculos na carreira — que a Cia carioca Os dezequilibrados traz a São Paulo uma mostra de seu repertório. Revezando A Serpente, de Nelson Rodrigues, e Últimos Remorsos Antes do Esquecimento do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce, o grupo, dirigido por Ivan Sugahara, se apresenta no CIT-Ecum até o dia 3 de novembro.
A trama de Lagarce se passa nos dias atuais, mas remonta a história de um triângulo amoroso que ocorreu na juventude dos personagens, quando Hélène (Cristina Flores), Paul (Remo Trajano) e Pierre (José Karini) compraram uma casa de campo. Hoje cada um vivendo sua vida separadamente (já casados e com filhos), marcam um encontro na casa para resolverem o que fazer com o imóvel. Mas é óbvio que o que menos se discute é sobre a divisão patrimonial: velhas mágoas, ressentimentos, traições é que vêm à tona.

Peça: Últimos Remorsos Antes do Esquecimento, foto 2

Cristina Flores é Hélène, que viveu um triângulo amoroso na juventude

Num palco vazio, preenchido somente com algumas cadeiras, os seis personagens entram e de forma fragmentada a história começa a ser contada. O espectador precisa de um tempo inicial para entender quem é quem na trama; aos poucos percebe-se que os três amigos da adolescência hoje pouco se falam e há anos não se encontram. Hélène, que chega acompanhada do marido Antoine (Saulo Rodrigues) e da filha Lise (Nara Parolini) é a primeira a entrar em atrito com Pierre, que permaneceu morando na casa. Paul, que trouxe para a reunião a sua mulher Anne, vivida por Letícia Isnard, procura apaziguar os amigos, mas também se exalta com ambos.
O que realmente motivou o encontro dos três amigos é a situação financeira precária de todos: as despesas com a casa, que precisa de manutenção, e a vontade de auferir algum dinheiro daquele imóvel fez com que eles voltassem a se ver. No entanto, o que menos é discutido são as medidas práticas a serem tomadas; o passado vem à tona e, entre uma discussão e outra, sorrateiramente Hélène beija primeiro Pierre e depois Paul, sem que um não veja o beijo do outro. Mas os ressentimentos são mais fortes e não há hipótese de reconciliação, como fica evidente pelo título da peça.
Um recurso utilizado, o português falado em cena é o de Portugal, é defendido pelo diretor como uma forma de se evidenciar as “fissuras do modelo realista”:

 

“O estilo de linguagem reforça a estranheza do texto e o jogo teatral estabelecido pelo despojamento cenográfico”, argumenta Ivan Sugahara, que assina ainda a trilha sonora e a cenografia.

 

 

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Letícia ao lado de Remo Trajano, seu marido na trama; ao fundo, Karini

 

Não conhecia Os dezequilibrados e tive uma bela surpresa: o grupo é coeso e em cena os atores estão em perfeita sintonia. Com um texto corrosivo e que provoca estranheza — confesso que a fala dos personagens me angustiou no início, pois o estilo lisboeta de linguagem traz um excesso de formalismo para as situações — faz com que o público reflita e analise as relações afetivas dos dias atuais.

Fotos: Dalton Valério


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