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Com Nanini, peça de Jô Bilac reverencia vida e obra de Oscar Wilde

De em janeiro 23, 2015

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Marco Nanini interpreta um fã de Oscar Wilde que é preso após quebrar a barreira de vidro do túmulo do ídolo

Um olhar sensível e analítico para a vida e obra do escritor irlandês Oscar Wilde, sem pretender fazer uma biografia. Este o mote central do espetáculo Beije Minha Lápide, que acaba de estrear no SESC Consolação, Teatro Anchieta, em curta temporada. Um projeto que une a maturidade e experiência do grande ator Marco Nanini com a garra da jovem e talentosa Cia. Teatro Independente, que vem de premiados e prestigiados trabalhos, como Cachorro, Rebu e Cucaracha.
Com direção de Bel Garcia e texto inédito de Jô Bilac, Nanini — que divide o palco com Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings — interpreta Bala, um personagem que é fã ardoroso de Wilde e ao mesmo tempo tem uma vida análoga ao escritor. Ao tentar beijar a lápide de seu ídolo, Bala quebra a barreira de vidro que isola o túmulo de Oscar Wilde no famoso cemitério de Paris, Père Lachaise, e é confinado numa cela de vidro. Assim como Wilde, Bala também escreve enquanto está preso e seus textos são uma referência direta à obra e aos personagens do irlandês.

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Júlia Marini, Paulo Verlings e Carolina Pismel dividem o palco com Nanini

O espetáculo tem início com a cela de vidro em destaque — praticamente único elemento do cenário, assinado por Daniela Thomas — e a filha de Bala, interpretada por Júlia, que trabalha como guia no cemitério Père Lachaise, dá instruções a um grupo de como se localizar entre os inúmeros túmulos das personalidades ali enterradas. Corte e, quando voltam as luzes, Bala já está confinado e discorre sobre sua situação e a injustiça por que passa. Do lado de fora da cela de vidro só o guarda (Verlings), que trava com o preso uma inusitada relação, em que há um misto de admiração, repulsa, atração, distância e carinho entre os dois. A quarta personagem, vivida por Carolina, é a advogada que precisa usar de todos os argumentos para convencer Bala a deixá-la trabalhar em sua defesa. Com o decorrer da trama o espectador percebe que a advogada foi contratada pela filha de Bala e que elas mantêm uma forte e íntima amizade.

 

“O vidro ironiza de forma bem cruel a sensação de confinamento pela qual Wilde passou injustamente, ao ser condenado por sodomia. O texto tem muitas analogias com a vida e a obra de Oscar Wilde, com algumas citações explícitas e outras que se refletem nas falas e nas histórias das personagens criadas por Jô Bilac”, explica Marco Nanini.

 
Beije Minha Lápide, que já cumpriu temporada de sucesso no Rio, com indicações a vários prêmios, também deve repetir o êxito em São Paulo. Além de fazer uma homenagem a Wilde, que morreu aos 46 anos em 1900, a montagem ressalta como os anseios e ideais do escritor ainda são tão atuais, vide as incontáveis manifestações de intolerância, homofobia e injustiça que pululam pelo mundo, todos os dias! O que me chamou muito a atenção é como o texto — criado por Bilac depois de um processo de discussão entre elenco e direção — não é uma obra fechada com destinos predeterminados; as indagações são levantadas, as histórias delineadas, mas o publico é provocado a refletir e construir a história.

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Nanini vive personagem que tem vida análoga a Oscar Wilde

Com a iluminação (Beto Bruel), a projeção de vídeo (Julio Parente e Raquel André) e a trilha sonora (Rafael Rocha) muito bem articuladas, a direção de Bel Garcia cria um clima impactante que deixa o espectador plugado a tudo o que ocorre no palco. A sintonia em cena entre Julia e Carolina (já consagrada em Cucarracha) e a atuação precisa de Verlings, que imprime verdade à dúbia personalidade daquele guarda, engrandecem ainda mais a montagem. E a interpretação de Nanini mais uma vez revela que estamos diante de um dos maiores atores de sua geração. Fiquei impressionado com a cena em que a projeção do vídeo se justapõe à fala do personagem na cela: vemos a versatilidade e as inúmeras nuances de interpretação do ator.
A temporada paulistana de Beije Minha Lápide é curta, só até 1º de março; portanto corra e não deixe de assistir.

 

Fotos: Cabéra


4 Comentários

Ed Paiva

fevereiro 5, 2015 @ 07:50

Resposta

Olá Maurício!
Acompanho seu blog com interesse pois sempre oferece ótimas sugestões culturais. Sobre “Beije Minha Lápide”, gostei do texto de Jô Bilac. Gostaria de ler a peça para acompanhar com mais atenção e tempo a sequência de falas dos personagens. Marco Nanini é fantástico em cena e a concepção do cenário, com as projeções nas paredes de vidro que formam a cela, poderiam ser consideradas uma obra de arte à parte.

Maurício Mellone

fevereiro 5, 2015 @ 09:44

Resposta

Ed,
td bem?
O Jô é um talento jovem que nos encanta, um dramaturgo que
sempre surpreende. Acompanho a carreira dele de perto
e percebo que temas já discutidos em outras peças
aqui em ‘Beije…’ são aprofundados (em que vínculo de tempo
acontece as cenas entre o prisioneiro e o guarda?
Em ‘Cucaracha’ ele já desenvolvia esta técnica com a paciente e
a enfermeira).
Concordo com vc sobre a cenografia da Daniela Thomas, verdadeira
obra de arte.
Obrigado por sua visita, a primeira de 2015! Que sejam muitas!
bjs, querido!

sergio

janeiro 23, 2015 @ 11:39

Resposta

Bela matéria Maurício!

Maurício Mellone

janeiro 26, 2015 @ 15:02

Resposta

Bruno,
que bom q vc gostou do que escrevi
(mesmo vc discordando da minha opinião….) rsrs
Obrigado pela visita
bjs

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