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Córtex: só duas semanas para assistir um destaque do ano nos palcos


Peça Cortex, com Otavio Martins 1

Otávio Martins no solo Córtex em que vive um homem desesperado com o sumiço da mulher

Há muito um espetáculo teatral não me emociona tanto. Córtex, de Franz Keppler, dirigido por Nelson Baskerville e em final de temporada no Teatro Eva Herz, fisga o espectador desde o início. O personagem — vivido com vigor e emoção por Otávio Martins — começa a peça com a informação dura e impactante: diz que sua mulher desapareceu e de maneira misteriosa, já que não tem explicação alguma para tal sumiço. A plateia é envolvida de imediato neste clima de dúvida e incertezas: quem é aquele homem que se mostra ao mesmo tempo calmo e desesperado? O que realmente aconteceu com aquele personagem? Qual a versão mais próxima da verdade?
No centro do palco, aquele homem começa numa profusão de ideias, relatando situações desconexas e sem sequência temporal, como se o espectador pudesse estar dentro de seu cérebro. Aqui vale um parêntese para relembrar a definição de córtex: camada periférica do cérebro, sede das funções nervosas elaboradas e das representações simbólicas; desempenha funções complexas como memória, atenção, consciência, percepção, pensamento e linguagem.

Peça Cortex com Otavio Martins 2

Quem desapareceu? A mulher ou o homem?

Desta forma, o personagem conta sobre o desaparecimento da mulher para a autoridade policial (até como uma forma de defesa já que passa a ser o principal suspeito pelo desaparecimento) ao mesmo tempo em que relata com carinho sua relação amorosa, os tempos de convivência diária com a mulher e a dedicação e cumplicidade que um tinha para com o outro.

 

“Procurei fazer uma narrativa que invade o cérebro do personagem. É como se estivéssemos lá dentro, vendo suas memórias, suas imagens, muitas vezes oníricas e fantásticas, além de suas percepções do mundo e da vida. Isso tudo é ressaltado pela direção do Nelson e pelas projeções em vídeo que, na realidade, são projeções da mente desse personagem, com imagens extremamente fantasiosas”, explica Franz Keppler.

As contradições do relato assim como os momentos íntimos do casal vêm à tona e a plateia passa a ser cúmplice daquele homem. Houve ou não um pacto entre os cônjuges? Quem realmente desapareceu, a mulher ou foi ele? Qual a verdadeira circunstância vivida por aquele casal?
As diversas vozes e versões do fato são o que mais cativa no texto de Keppler. No entanto, o maior destaque de Córtex é a perfeita sintonia entre texto, direção e interpretação para o pleno resultado cênico. O enredo articulado é muito bem desenvolvido graças às soluções da direção, que com a ajuda do cenário e a projeção do vídeo contribuem para a compreensão da história, que é contada com maestria pelo ator.

 

“Franz, Otávio e eu estivemos juntos o tempo inteiro. Além disso, a equipe criativa acompanhou os ensaios desde o início. Todos trabalharam e criaram juntos, o tempo todo”, afirma Baskerville.

Peça Cortex, direção de Nelson Baskerville

Nelson Baskerville dirige e assina a cenografia do espetáculo


Numa proposta cênica contundente como esta, o final só poderia ser mesmo surpreendente: o espectador não sai com uma resposta ou uma definição sobre o espetáculo. Precisa articular as versões e tirar a própria conclusão.
Difícil destacar algum elemento: além dos já citados (autor, diretor que responde pelo cenário e o ator), o figurino de Marichilene Artisevskis, a luz de Wagner Freire e a trilha de Ricardo Severo funcionam como elementos constituintes da trama central. Sem dúvida, um dos grandes espetáculos do ano!

 Fotos: Otavio Dias

 

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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4 Comentários para “Córtex: só duas semanas para assistir um destaque do ano nos palcos”

  1. sandra mascarenhas da Silva Says:

    Nenhuma palavra e suficientemente apropriada para descrever esta obra de arte comparando com as artes plasticas:a expressividade de Turner a sutileza e o primor de Constable os misterios e o impeto de Dalvador Dali o capricho de leonardo da Vinci a sensualidade das obras de Botocelli.Mas o talento fica por conta da maestria de Franz Keppler otavio Martins e Nelson Basquervile

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  2. Mario Viana Says:

    É mesmo uma conjunção astral abençoada, a deste espetáculo. Tudo da melhor qualidade.

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