Daquele Instante em Diante, um retrato de todas as cores de Itamar Assumpção

De em julho 21, 2011

Cartaz promocional do documentário de Rogério Velloso

Somos convidados a tomar um café, na cozinha, e prosear. Com esse mote tão característico do modo de vida do homem e pai de família Itamar Assumpção que o documentário de Rogério Velloso, Daquele Instante em Diante, faz um retrato digno e fiel da carreira e vida desse artista singular da música brasileira.
Se há um artista que não abre mão de seus princípios, não faz concessões, mesmo que isso possa trazer dificuldades e empecilhos à carreira, estamos falando de Itamar Assumpção, nascido na cidade paulista de Tietê, que estudou e se casou no Paraná e veio para São Paulo no final dos anos 70. Aqui ao lado de Arrigo Barnabé revolucionou o panorama musical nos anos 80.

Em 110 minutos, o filme faz a radiografia de Itamar Assumpção por intermédio dos depoimentos de amigos, familiares e artistas que conviveram com ele durante seus 53 anos de vida. No entanto, podemos conhecer mais desse músico e compositor sensível, criativo, irreverente e provocador por meio de seu próprio depoimento, com as entrevistas e cenas de arquivo em que ele solta a língua e fala tudo o que sente e pensa. E como vivi de perto o boom da chamada Vanguarda Paulista — em que Arrigo e a banda Sabor de Veneno e Itamar com a sua banda Isca de Polícia eram os protagonistas, ao lado de grupos como Rumo, Premê, Língua de Trapo e Luni—, fiquei emocionado com o documentário graças às imagens dos shows que agitavam a cidade de São Paulo nos anos 80. Em algumas cenas, tive a nítida impressão de que estava na platéia daquele show!
Daquele Instante em Diante
é sem dúvida um tributo a Itamar Assumpção. Os que estiveram ao lado dele, como Suzana Salles, Luís Chagas, Paulinho Le Petit (integrantes da Isca de Polícia), Arrigo Barnabé, a poeta Alice Ruiz, Luiz Tatit, Tata Fernandes, além da mulher e das filhas, conseguem montar o quebra-cabeça que foi a carreira e vida de Itamar. Genial e, por isso mesmo, controvertido e radical, ele sofreu muito num momento em que produzir música de forma independente no Brasil era nadar contra a maré, dar murro em ponta de faca. E, claro, ele saiu machucado dessa invernada.

Itamar num dos depoimentos do filme: óculos extravagantes eram sua marca

“Eu ando tão dodói
Mas tão dodói
Que quando ando dói
Quando não ando dói
Meu corpo todo dói…”

Luiz Tatit, num momento do filme, define muito bem Itamar: para ele vida e obra, criação e criador nunca estiveram tão intrinsecamente ligados como em Itamar Assumpção. Dodói, Itamar já bem debilitado com as dores do câncer que o vitimou, ditou por telefone a letra para Luiz, que musicou imediatamente. Mas essa simbiose (criador/criatura, obra/vida) existiu em toda a sua carreira, desde Nego Dito:

“… tenho o sangue quente
não uso pente meu cabelo é ruim
fui nascido em Tietê
pra provar pra quem quiser ver e
comprovar…”

O documentário de Rogério Velloso faz uma homenagem e ao mesmo tempo é um registro histórico importante da produção musical de Itamar, que chega a dizer numa das entrevistas do filme: “Daqui a 50 anos minha obra vai existir?”. Velloso contribui para a perpetuação dessa obra. Já filha Anelis emocionada fala que o filme cumpre outra tarefa, a de matar a saudade do pai. E mata a saudade para todos nós!


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6 Comentários

Mario Viana

julho 22, 2011 @ 12:08

Resposta

Vou aqui confessar uma heresia. Nunca fui muito fã do Itamar, não, achava o cara meio antipático – pinimba minha, claro. Gosto do primeiro LP, inclusive dessa música que o Zedu cita.
Fui ver o filme, disposto até a rever meu ponto de vista sobre o Itamar.
Em parte, ok, o filme me iluminou. Mas, como documentário, achei repetitivo. São vários depoimentos falando a mesma coisa, podia ser mais instigante e menos laudatório.
Uma pessoa da produção me contou que havia cenas muito legais dos shows, que não entraram no filme, pra poder caber os depoimentos repetitivos… Pena.
Mesmo assim, é um filme que vale a pena ver, até pra entender o que foi a chamada Vanguarda Paulistana.

Maurício Mellone

julho 22, 2011 @ 17:30

Resposta

Mário:
Numa parte do filme, alguém diz o que vc sentia pelo Itamar: ou a pessoa gostava e o amava, ou o despresava.
Acho que vc não era tão refratário a ele, tanto que foi conferir o resgate da obra dele que Rogério Velloso nos proporciona.
Cenas dos shows, tb gostaria de assistir! Mas vibrei com algumas delas!
bjs

José Edvardo Pereira Lima

julho 21, 2011 @ 18:09

Resposta

Maurício,
excelente sua resenha sobre o documentário que resgata Itamar Assumpção. Assim como você, também fui uma isca recorrente dos anzóis revolucionários da Vanguarda Paulistana. Em março de 1982, comprei o vinil (para quem não sabe, é o pai grandão do cd) “beleléu leléu eu”, com a banda Isca de Polícia, que eu não tirava do toca-discos. Havia um encarte, a reprodução do título de eleitor do Itamar, sem a foto, atravessado por uma navalhada; do outro lado, as letras das músicas. A minha preferida era “fico louco’, que tem a cara do autor e remete à temática do documentário: “fico louco, faço cara de mau / falo o que me vem na cabeça / não digo que com tudo isso eu fique legal / espero que você não se esqueça

Maurício Mellone

julho 22, 2011 @ 10:07

Resposta

Zedu:
Para escrever a resenha, não resisti e fui atrás dos LPs! Ouvi algumas músicas inclusive e o encarte q vc
menciona é ótimo mesmo (o título de eleitor dele).
Não deixe de assistir ao documentário: o Rogério Velloso foi sensível o bastante para retratar o Itamar com todas as
cores mesmo! Emocionante e um tributo ao genial Assumpção!
Obrigado pela constância por aqui e principalmente por sua colaboração!
bjs

Roger

julho 21, 2011 @ 14:53

Resposta

Maurício, fiquei emocionado com seu texto. Bom demais ver o trabalho tocando dessa forma as pessoas e servindo para reverberar Itamar em seus milhões de fragmentos. Obrigadíssimo. E um grande abraço.

Rogerio Velloso

Maurício Mellone

julho 22, 2011 @ 10:11

Resposta

Rogério:
Muito obrigado dizemos todos nós, espectadores e fãs do grande Itamar! Seu trabalho é lindo e o resgate
da obra desse gênio da canção brasileira é importantíssimo para a nossa história (dizem q o Brasil não tem
história, mas seu documentário desmente esse mito!)
abr

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