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Desmesura: reflexão sobre estigmas que a sociedade mantém sobre AIDS


Peça: Desmesura, foto 1

Elenco, da esquerda para a direita: Paulo Arcuri, Luiz Gustavo Jahjah e Ronaldo Serruya

Passados mais de 30 anos do início da epidemia de AIDS que dizimou milhares de pessoas e que ser portador do vírus HIV significava sentença iminente de morte, a realidade hoje é outra. A medicina e a ciência evoluíram com relação ao combate à doença, tanto que já dispomos de medicação que propicia uma vida digna aos soropositivos. No entanto, o estigma em relação à doença e principalmente aos soropositivos permanece.
O que o novo espetáculo do grupo Teatro Kunyn, Desmesura, em cartaz no CCSP , propõe é exatamente um novo olhar para a soropositividade nos dias de hoje. Tendo como inspiração a vida do artista argentino Raul Taborda Damonte, o Copi, que faleceu em 1987, vítima de AIDS, a peça joga um feixe de luz sobre esta questão:

“O que precisamos urgentemente saber agora é que falar de HIV hoje significa falar de vida, construir narrativas de vida, repletas de todos os signos que estão em consonância com a vida”, argumenta Ronaldo Serruya. 

Peça: Desmesura, foto 2

Plateia participa respondendo a uma pergunta

Numa montagem despojada, o Teatro Kunyn propõe uma interatividade com a pequena plateia de 50 pessoas. Antes de entrar no espaço cênico criado pela própria companhia — um quadrado de 4X4 m, com 60 cm de altura e com um buraco no meio por onde os atores entram e saem —, os espectadores recebem uma bolinha de ping pong; já em seus lugares, todos leem uma pergunta projetada na parede e precisam responder depositando as bolinhas em três frascos que ficam diante dos três atores — Ronaldo Serrya, Luiz Gustavo Jahjah e Paulo Arcuri —, que estão nus e mudos até então. Só depois de revelado o resultado da questão é que a peça se inicia.
A trama tem como base a vida de Copi, um artista múltiplo, que foi dramaturgo, desenhista, ator e performer. No enredo ele está na véspera do dia de sua morte e tem delírios: fala de sua infância, do contato com sua avó (uma transgressora que o influenciou muito), de sua intensa e prazerosa vida amorosa e de sua arte. Ele não tem noção se está em 1987 ou em 2017.

 

“Copi autoficcionalizava o tempo inteiro. Suas obras são uma mistura de ficção e realidade, por isso optamos em trazer para o palco o encontro dele com seus delírios. Ou seriam lembranças?”, indaga o diretor Luiz Fernando Marques.

 

Peça: Desmesura, foto 3

Serruya vive Copi, artista que inspirou a peça, e Arcuri, a avó

A montagem causa impacto — o final é comovente e de extrema beleza cênica — e a plateia ao entrar em contato com os delírios e verdades de Copi é incitada a refletir sobre questões atuais e próximas de todos, como o estigma ainda presente ligado a AIDS, a transexualidade, a morte e a vida. Além de cenário e iluminação como elementos intrínsecos à narrativa, o grande destaque do espetáculo é a entrega em cena dos atores; enquanto Serrya incorpora a excentricidade de Copi, Arcuri e Jahjah se dividem em vários personagens, todos vividos com muita verdade. Sem dúvida mais um trabalho contundente do Teatro Kunyn, envolto numa pesquisa robusta e numa árdua preparação. Não perca, a temporada se estende até início de junho.

Roteiro:
Desmesura. Criação: Teatro Kunyn. Direção: Luiz Fernando Marques. Dramaturgia: Ronaldo Serruya. Elenco: Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya. Direção de arte e figurino: Yumi Sakate. Dramaturgue: Renata Pimentel. Iluminação: Wagner Antônio. Cenografia: Luiz Fernando Marques e Yumi Sakate. Designer gráfico: Jonatas Marques. Fotografia: Alê Mandu. Direção de produção: Fernando Gimenes.  Produção: Teatro Kunyn e Mofo Produção Cultural.

Serviço:

Centro Cultural São Paulo, anexo da sala Adoniran Barbosa (50 lugares), Rua Vergueiro, 1000, tel. 11 3397-4002. Horários: sexta e sábado às 21 h e domingo às 20 h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10.  Bilheteria: de terça a sábado das 13h às 21h30 e domingo das 13h às 20h30. Vendas: tel. 4003-1212 ou www.ingressorapido.com.br   e www.centrocultural.sp.gov.br. Duração: 60 min. Classificação: 18 anos. Temporada: até 11 de junho.

 

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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