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Diálogos Impertinentes: série de mini-histórias de Mario Garrone


Conto: Diálogos Impertinentes, foto 1

Depois de enviar diversos contos inéditos para serem publicados com exclusividade aqui no Favo, o jornalista e escritor Mario Garrone acaba de me entregar uma série de mini-histórias, os Diálogos Impertinentes, que, além de concisos, trazem em si histórias acabadas e com personagens muito bem delineados. Como o próprio título já esclarece, estes diálogos provocam certo incômodo, pois tocam em temas tabus ou que as pessoas têm dificuldade de ligar, como sexo, moral, religião, adultério, homossexualidade, machismo, preconceitos racial, sexual e de gênero.
O estilo já bem demonstrado nos contos — como por exemplo as omissões de alguns termos que ficam subentendidos —  também está presente nestas pequenas histórias, mas o humor e a ironia também ficam aqui realçados. Boa leitura e, se puder, deixe comentário sobre estes impertinentes e criativos diálogos.

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 2

Diálogos Impertinentes

 

Adelaidinha – Eu vi o papai beijando um homem!

Mãe –  Adelaidinha!

Adelaidinha –  Preto!

Mãe – Maria Adelaidinha!

Adelaidinha –  Na boca! Papai beijava na boca do homem

preto!

Mãe – Maria Adelaidinha da Graça!

Adelaidinha – De língua! Papai beijava de língua a boca

grande do homem preto!

 

*

A – Todo mundo caga, vó?

B – Isso é coisa quê?!

A – A merda nojenta sai do cu de todo mundo?

B – Passa a sopa.

A – A senhora caga?

C – Se não cagasse, morria entupida.

A – O papa tem cu e caga sentado?

B – Não! O papa não! Ele não!

C – Mesmo todos os santinhos quando eram vivos e comiam.

Deus não aliviou para ninguém, não, moleque. Até Maria, que

era virgem e escapou de engravidar como as outras, ninguém

nunca disse que não. Tem coisa na Bíblia que diz que Deus

também poupou a Virgem Maria de obrar depois da comida?

 

*

 

A – Por que sexo não é coisa de criança?

B – Salve rainha, mãe de misericórdia!

A – Deus é imoral e impróprio para menores?

B – Vida doçura, esperança nossa!

A – Ou não foi Ele sozinho que criou o esquema todo de o

homem precisar enfiar o pau duro no buraco da mulher,

gozar dentro e vir depois todo o resto, a criança imunda

saindo entre as pernonas abertas e suadas da mãe que grita

feito porco enquanto pari?

 

*

 

A – Se não fosse Deus eu estava frita.

B – Exagero!

 

*

 

A – Quem mais me ouve?

B – Quer dizer que eu e nada.

A – É diferente.

B – Eu não sirvo, não ouço, estou morto?

 

*

 

A – Deus é mais.

B – E o que que muda com Ele? Ele te ouve e você aí a mesmi-

nha de sempre todo mês estourando o cartão, dando cano nas

contas e saindo direto com homem casado.
*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 3

 

 

A – Estou acabada, está vendo? E eu ainda só tenho trinta.

B – Te dava cinquenta. Tão moça e aparentando tão mais!

A – Depois de casar com homem grosso e parir três, foi só

cruz. Cruz e caldeirinha!

 

 

 

*

A – Se a vida pudesse ser eu sempre aqui sentado em paz

olhando o rio…

B – Cansava.

 

*

 

A – Se ninguém se mata nem mexe um pau por mim quando eu

estou sozinha no mundo despencando no abismo, por que se

metem e me esculhambam toda se estou feliz com a minha

mina do lado?

B – O mundo seria muito melhor sem gente.

 

*
A – Agora inventaram que Deus não é mais um velho sábio e

amoroso que a todos ouve, é uma energia, uma luz, um ser que

emana, um vento, um raio, uma inteligência superior

incorpórea, imaterial, fugidia, para todo o sempre impalpável,

invisível, impenetrável, arredia.

B – Abstrato demais!

C – Esse Deus não me serve para nada!

B – Me devolvam o Deus antigo de sempre que me consolava

do porre que é acordar todo dia e continuar a ser a mesma!

 

*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 4
Filho – Deus é contra branco com preta?

Mãe –  Abaixa essa voz já!

Filho – Escreveram na Bíblia?

Mãe –  Olha o tom, atrevido!

Filho – No velho testamento ou no novo?

Mãe –  Tanta mocinha branca para quê?

 

*

 

A – Eu quero o vestido mais caro da loja, meu bem. O mais. Faço questão. Nada menos que o mais. Compreendeu, querida?

B – Errou de loja. Aqui não é pro seu bico.

A – Quem foi que te disse?

B – Só se roubou!

A – E seria eu, amor, a primeirinha aqui no famoso antro do consumo, da gastança, do excesso, da ostentação e do luxo?

Pega logo o vestido mais caro ou eu chamo a polícia, faço um escândalo, te ponho na cadeia. Só porque eu sou negrinha pensa que pode?

 

*
A  - O amor não devia ser cruel com a gente.

B –  O amor é padrasto.

A – Se eu quero um homem, se estou a fim de um, nem olhar para mim o  bandido. Se um homem me quer, não sai do meu pé, nunca o sujeitinho de quem eu não tiro os olhos da cara.

C – Amar e ser amado, pois sim. Vai nessa. Comigo é que nunca na vida.

B – A pessoa espera um tempo, procura, vai atrás, batalha. Quando vê que o amor correspondido não vem, é lenda, se conforma e casa.

 

*
A – O deputado ficou de me arranjar coisa grande na Assembleia. Garantiu que consegue.

B – Olha lá que depois ele cobra. Vai querer te comer.

A – Que me coma! Um tipão como eu gosto: peludo, cafajeste, com barriga, quase careca, suarento. E casado!

*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 5
A – Quando eu soube o que era sexo, duvidei de Deus. Como crer no Deus glorioso e uno depois disso, depois de saber a maneira como os homens e as mulheres fazem as coisas todas na cama, a forma com que se concebem os bebês. Nascermos do que nos avilta e nos nivela a todos os bichos!

B – Não tens mais um pinguinho de fé no divino que seja?

A – Deus nenhum, se houvesse, nos faria tão sujos!

 

 

*
A – Constrangedor demais confessar com um padre.

B – Nem diga. Eu quase não durmo na noite da véspera.

C – Deveriam abolir, ultrapassou, caducou, foi-se o tempo.

D – Gosto que o padre saiba de tudo. Eu me abro toda para ele. Ele está lá para isso, para ouvir os pecados do mundo.

E – Eu vou lá contar pra tiozão de batina babão o que eu faço com a língua que é minha e com a bunda que eu dou?

A, B, C, D — !!!!

 

*
A – Desde menina essa cara medonha que me condena ao escárnio, ao suplício, à crueldade infantil, adolescente e adulta.

B – Nem tanto ao mar…

A – Se não é o espelho cruel que mostra, são os outros todos que dizem, sempre me disseram aos risos:

Os outros todos – Mas tu és feia, hein, horrorosa?

B – Nem oito nem oitenta!

A – À merda você, que a cara não é sua. Se Deus é mesmo bom…

B — Ele é!

A — … E me deu essa cara deformada que só me prejudica e me fode, me conta aí mais uma!

B – Só Deus salva!

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 6

 

*
A – Talvez um dia, com esforço e dedicação, eu consiga amar uma mulher, ir para a cama, beijar na boca, sair de mãos dadas na rua.

B – O que que é isso?!

A – Sim, talvez um dia eu consiga.

B – Com tanto homem!

A – E homem gosta de mulher desde quando, Baduína?

 

*

 

I – Você já desejou um homem, Antenor?

A – Que pergunta idiota, Idalina.

I – Já?

A – …

I – Nem um assim de corpo bonito, sarado, barriga

tanquinho, peitoral definido, bíceps grande?

A – Claro que não.

I – Nem eu.

 

*
A – Cu eu não dou!

B – Faz bem você.

A – Quem dá cu é homem. Quer comer, tem aos montes!

B – …

A – E ele lá querendo me obrigar: Vai, não custa nada, putinha

fresca e mimada do caralho!

A – Vira de costas e fica de quatro!, assim começou.

B  — Cafajeste!

A – Me senti tão perdida e sozinha na cama. Quis ver Deus e não vi.

B – …

A — Vai, não empata!, ele quase em cima de mim.

B – Ordinário!

A – Nadinha do que eu tinha imaginado na infância. Me olhar na cara que é bom, só fissurado na bunda.

*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto7

 

 

 

A – Sempre soube que gostava de homem. Sempre. Apesar de homem ser o que é, tão grosseiro, tão qualquer coisa de ruim.

B – Com mulher nem pensar, querido? Não acha graça nenhuma?

A – Por isso comi o pão amassado e bolorento do diabo. Cadê Deus nesse tempo comigo?

 

 

 

 *

A – Ela sempre foi mimada.

B – Mimadíssima!

C – Casou virgem.

D – Acho bonito que ainda hoje exista uma noiva que não tenha dado.

C – Não dar antes, vá lá. Mas se manter virgem diante do

marido?! O homem tem seus direitos!

D – Nem ao marido então?!

A – Pureza demais prejudica a cabeça!

B – Virtude tem conta. Pudicícia assim é desvio! Nem Deus aprova.

C – Disse que Jesus não deixou. Jesus, ora veja, apareceu na hora e impediu a concretização do ato indecente. Nega-se ao coito!

 

*
A – Anular o casamento?

B – Não sei se é o caso.

C – Depende do papa.

A – Será que procede?

C – Qual o motivo alegado pelo marido? Ela se nega ao ato libidinoso?

B – Não chega a tanto. Ela se recusa a tirar a camisola e o sutiã e só faz se não tiver nenhuma réstia de luz no ambiente. A calcinha ela tira.

 
*
A – Pois é o que eu te digo. A vida é bandida. Se de alguma maneira ajuda, antes destrói. A Aids matou sem dó, não matou? Eliminou uma porrada, fez um rapa no mundo!

B – …

A – Não percebe?

B – Não, não percebo.

A – Quando na história falaram tanto de nós tão às claras? Quando o espaço todo que deram? Quando tamanha visibilidade? Quando as tevês e os jornais, as revistas? Sem a doença que matou meio mundo, estaríamos ainda lá atrás, estaríamos.

 

*
A – Ninguém precisa saber, ele dizia para mim toda vez que me tocava os peitinhos, a xoxota e a bunda

B – Se eu soubesse!

A – Só nós dois, entendeu? Em hipótese nenhuma, ameaçava. O que eu podia? Tão menina e boba!

B –  Matava o seu pai.

 

*
A – Papai me disse que nunca vai me deixar sair sozinha com um rapaz.

B – Sei. Como se ele pudesse! Como se dependesse dele deixar!

A – Que os homens não prestam.

B – Vá lá.

A  – E que vai cuidar de mim com amor e carinho para sempre.

 


*

 

A – Fedia muito?

B – Nunca pensei que um anão fedesse tanto depois de morrer!

A – Não fosse a catinga solta no prédio, ele lá trancado sozinho e enforcadinho no arame até quando?

 

*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 8

 

A – Papai matou mamãe de desgosto. Ela só xinga e chora.

B – Naturalíssimo. O que mais senão isso?

C – O marido trair a mulher com um homem é um troço

tremendo. Preferir um homem à mulher?!

D – Você viu o tal com quem o seu pai fez coisa indecente? É

bonito?

B – Que importância tem se é bonito?! Justificaria se fosse?

A – É negro!

B – Como se já não fosse o bastante!

 


*

A – Eu sempre quis ser bom. Sempre.

B – Que obsessão, santo Deus! Que troço sem graça!

A – É feio ser bom, mãe? Hein, é feio?

B  – Bondade não enche barriga, já disse.

C –  E não dá camisa a ninguém neste mundo.

 

*
A – Deus não ama as mulheres. Nunca nos amou. Nunca!

B – Mas como é?

A – Me acompanha. Se Maria deu à luz virgem é porque para Deus o sexo é inadequado, sujo, indigno, não é coisa para mãe de Cristinho nenhum.

B – Bem…

A –  Porque não somos Maria, porque somos nada, nadinha, coube a nós ser obrigadas a fazer com um homem a sujeira que as putas fazem com todos.

 

*

 

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 9

 

A – Quantas pessoas nós somos durante a vida? Eu olho para você e não vejo o menino, não vejo. Em que momento morreu aquela criança adorável que eu amava e que me amava? Não sobrou nada da doçura, nada. Um estranho para mim que nem fala comigo.

B –Acabada, feia e gorda, a senhora pensa que é a mesma que um dia foi miss?

 

 

 

*

 

A – O mundo é horrível por nossa causa.

B – Quando nasci já tinha desandado.

A – Nós é que fazemos do mundo um lugar horroroso.

B – Quanta guerra antes de eu aparecer no planeta.

C – Já encontrei a coisa num pé.

A – Cada um de nós coloca um tijolo

 

*

 

A – É uma afronta escandalosa para todas as famílias. Um péssimo exemplo para as crianças. Vocês andando aí nas calçadas quase sem roupa esculhambam, achincalham, emporcalham tudo. E a polícia que não age!

B – Além da mulherzinha do sujeito não dar o que eu dou, eu ainda faço mais, simpatia: eu como o marido da fofa. Porque, se a dona não sabe, é quase tudo casado e eles gostam de dar. Vai saber se o seu maridão já não veio comigo. Entendeu agora, santa, por que eles vêm atrás e a gente não sai daqui nem fodendo?

 

*

 

A – Ninguém nunca diz: seja mulher!

B – Nunca ouvi.

C – Não se usa.

B – Pra quê?

A – Mas quantas vezes papai no meu pé: seja homem, caralho!

C – Grande bosta ser homem! Falasse na cara pra ele.

 

*

 

A – Algum pecadilho, filho? Purifique-se.

B — …

A – Acordo todo dia de pau duro.

B — …

A – E toda tarde eu cago.

B – Por favor!

A – Eu tento ser limpo, padre. Mas tudo é sujo.

 

*

 

A – Você pode falar o que quiser, mas a gente vai ter sempre que limpar banheiro fedido.

B – Limpar eu limpo que eu estou aqui para isso. Mas olha se tem cabimento. Pode ser filho de senador, mas é porco ou não é? Cada palavrão, cada desenho. Nem no puteiro tem isso.

A – No banheiro das moças é igual, a Farina me disse. Filha de banqueiro, de promotor e escrevendo imundície na porta.

B – Que deixem a merda boiando para a gente ver, para humilhar nossa cara, isso eu nem ligo mais, já estou acostumado. Mas merda lambuzada na porta, isso não, eu não limpo. Pode chamar quem for. Não faz parte do serviço. Tudo tem conta. Estudantada rica nojenta, e a gente é obrigado a limpar excremento? Quem desenhou essa caralhada com merda nas portas que limpe com as mãos ou com a língua.

A – A gente é limpador de banheiro!

B – Então você acha que se o pessoal começar a cagar pelo chão e jogar bosta no teto?

 

*

 

A – Deus é tão bom!

B – Alice!

A – Bom, sim. Tão bom comigo.

B – Silêncio, mulher!

A – Deus é bom, Benedito!

B – Cala a boca!

A – Eu dou graças a Deus, sim senhor. Você também devia.

B – Não fala mais nada.

A – Deus é misericordioso!

B – Fecha essa boca!

A – Sua filha está viva, Benê. Quer que eu fique triste porque a Sissi escapou? Qualquer mãe ficaria feliz como eu. Agradeça a Deus, Benê.

B – Morreu todo mundo, Alice!

A – Ela não.

 

*

 

A – Todo mundo morre?

B – Morre.

A – Eu vou morrer?

B – Num dia bem lá na frente. Demora.

A – Não queria que a vovó.

B – Tanta coisa que eu não quis.

A – Por que a gente morre?

B – Por que Deus mata tudo o que vive.

A – Vovô disse que não adianta rezar que Deus não ouve. Que cada um só fala com ninguém quando se ajoelha.

B – Ainda a soltar merda pela boca aquele traste?!

C – Ainda com voz audível o velho broxa com câncer?

A – Que nem morrendo nós vemos Deus porque Deus não gosta de gente, vai querer para sempre distância de nós.

 

*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 10

 

A – Coitada da Vânia.

B – O que houve?

A – O Abdias. Ela foi avisada, isso foi.

B – Sobre o quê?

A – Coisinhas esquisitas já havia.

B – Que coisinhas?

A – Não sei pormenores, mas alguns viram, presenciaram. A Vânia nem aí. Casou por amor. Disse que amava o Abdias.

B – É fácil amar um homem bonito.

A – Tanta coisa para se pensar antes de haver igreja, padre. O amor, é claro, conta. Mas.

B – Adultério? É isso? Traiu em tão poucos meses?

A – Antes houvesse amante.

B – Nossa!

A – Quando a cabeça desanda, não há amor quê.

B – Pareciam tão felizes os dois.

A – Pareciam.

B – Engano nosso?

A – O Abdias, imagina!

B – Um casal tão bonito!

A – Quer ser o que nenhum homem nunca. Tudo começou com o sexo. Depois descambou.

B – Bonito o Abdias, sempre achei.

A – Beleza não salva. Diz que sexo é sujo, indigno, coisa de bicho.

B – De certa forma…

A – Há um mês se nega a praticar o ato íntimo. Passou a achar abominável o gozo.

B – Em certo sentido…

A – Não acha correto o que marido e mulher fazem. Se a Virgem Maria pariu Jesus como pariu é porque Deus não vê com bons olhos. Há quatro dias também não defeca. Se recusa. Acha imundo e não quer mais sentar o traseiro no vaso.

 

*

 

A – Deus não erra!

B – Como é que não erra?! Erra sim. Errou! O sexo é um erro!

A – Não mistura Deus com sexo. Não mete Deus nisso, não

mete.

B – Como não mete?! Eu sei que hoje até tem jeito de a mulher

engravidar sem se submeter, mas o homem precisa fazer mesmo

assim a nojeira de bater punheta com revista pornô na frente

para sair o esperma do pinto para o médico enfiar. Por qualquer

ângulo que se olhe, degrada a mulher, vulgariza, avilta. Claro que

eu mesma já tive que me sujeitar a homem de pau duro querendo

me comer, mas agora sou contra, não admito mais, me recuso

ao papel degradante imposto por Deus de ter um homem

gemendo em cima de mim e dizendo besteira imunda, querendo

cada dia mais outra coisa, um sem-fim de outra coisa, que ao

homem nunca basta o chamado papai e mamãe, que por si só,

para mim, já enjoa, não presta.

 

*

 

A – A ideia de uma filha minha nas mãos de um sujeito que só tem sexo na cabeça não me entra, não, não me entra. Cria-se a filha na decência e dentro dos princípios para no fim vir um rapaz qualquer e fazer dela uma puta: Vem aqui e abre as pernas! Fica de quatro! Me chupa, delícia!

B – E tem outro jeito para que a vida siga, compadre? Que alternativa Deus dá?

*

Conto: Diálogos Impertinentes, foto 11

 

A – Estudar demais dá nisso.

B – Pensa que é o quê, a bichinha escrota?!

A – A pessoa acaba sabendo o que não devia, o que não convém, fica revoltada, questiona até a igreja.

B – Se em vez de tanto estudo, namorasse, fosse a baile funk, comesse as meninas, aprontasse, tomasse um porre, voltasse para casa carregado.

A – Diz que a história da igreja do papa é uma vergonha que só vendo. Que ele não entende como, depois de tudo o que houve de medonho e escandaloso, o Vaticano ainda está lá em pé funcionando.

B – Se em vez de estudar feito um depravado para no fim vir dizer um monte de bosta da santa igreja católica, fosse menos afrescalhado e fizesse jus ao privilégio de ter nascido homem!

 

 

*

 

A – Deus não é bom, não. Nunca foi.

B – Sei. Vá à merda!

A – Vocês têm é medo de encarar.

B – Que se foda! Mete o medo todinho no teu cu e deixa Deus fora disso.

A – Medo de encarar o abismo que é existir um Deus pouquíssimo complacente. Há crueldade em Deus.

B – A crueldade está na porra da sua cabeça entupida de bosta. E sai da minha frente, caralho, que eu estou atrasada para a missa!

 

 

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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2 Comentários para “Diálogos Impertinentes: série de mini-histórias de Mario Garrone”

  1. Marcelo Brettas Says:

    Dia desses encontrei o Garrone na fila de um desses espetáculos da vida e ele me dizia que achava que as pessoas não haviam gostado muito de seus Diálogos Impertinentes. Só agora pude conhecê-los e os achei deliciosamente pertinentes. O Mario tem um estilo próprio e marcante, sempre contundente, direto e elegante! Como ele mesmo diz em um dos diálogos: “Quantas pessoas nós somos durante a vida?”. Adorei e recomendo!

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    • Maurício Mellone Says:

      Marcelo,
      tb adorei os diálogos impertinentes do Garrone
      (não são histórias completas?)
      Tomara q ele consiga logo dar continuidade ao
      projeto do livro; esses diálogos merecem estar la!
      bjs e obrigado por sua constante presença por aqui

      responder

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