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E aíPode?


Já faz um tempinho que venho pensando sobre como a gente está usando as novas tecnologias de comunicação pessoal, os celulares, que quando chegaram eram verdadeiros tijolos, quadradões e pesados. Hoje são levíssimos, das mais variadas cores e com mil e uma utilidades, parodiando o slogan da famosa esponja de aço. O que menos esses aparelhinhos hoje fazem são ligações telefônicas, já que praticamente substituem computadores avançados, com tantas funções e habilitações! São os iPhones, Smartphones e por aí vai.
No entanto, acho que o celular — em Portugal esses aparelhinhos são chamados de telemóvel — foi criado com o intuito de ajudar na comunicação entre as pessoas, aproximando-as. Será que acontece isso mesmo hoje em dia? Será que esta tecnologia sofisticada de comunicação não está deixando cada vez mais as pessoas longe umas das outras, isoladas?
Como observador e usuário comedido desses aparelhinhos (vou chamá-los assim a partir de agora), venho captando cenas no mínimo estranhas. Senão vejamos. Na mesa do restaurante ou de um bar, casal senta-se, cada um com o seu aparelhinho. Não seria o momento oportuno para colocar a conversa em dia, haver afetividade e troca íntima entre duas pessoas que se amam? Pois é, mas o que se percebe são duas pessoas que mal se olham, pouco se falam, mas estão com os olhos fixos no visor de seus aparelhinhos, quando não falam com outra pessoa por meio do tal aparelhinho! Às vezes este mesmo aparelhinho serve como subterfúgio para evitar o contato com o cônjuge.
Quer mais uma cena absurda? Casal em sala de espetáculo (pode ser cinema, teatro ou casa de show). Novamente pergunto: não seria o momento ideal para desfrutarem juntos do produto cultural a que foram assistir? Ou até aproveitarem os minutinhos antes do início para namorarem? Mas de novo o que se vê são dois seres fazendo “trocas” com a máquina! Nestas ocasiões há ainda outro inconveniente: muitas vezes o casal desavisado não deixa o aparelhinho no modo silencioso (em caso de tocar, só o usuário ouvirá). E pior: invariavelmente um deles continua usando o aparelhinho mesmo depois do início do espetáculo (ou filme) e se irrita quando os demais espectadores reclamam. Nessas horas, lembro-me muito do livro “na medida certa da boa educação”, de Jerson Dotti e Zedu Lima: como eles muito bem dizem, de forma bem-humorada, é pura falta de educação.
Mais uma cena que beira ao surreal: pequena comemoração de aniversário num bar e a mesa repleta de amigos. Silêncio sepulcral até o momento em que um dos convidados grita: “estamos no aniversário do Ricardo!”. Só assim para que os outros amigos do aniversariante se toquem que não é a hora para usar os tais aparelhinhos!
Quer mais um contra-senso? Almoço em família, com mãe, pai, filhos, noras, genros e amigos. Novamente o silêncio impera e como só a matriarca e um dos filhos não estão com os aparelhinhos, eles trocam olhares cúmplices, riem e não há o que fazer para tamanha falta de consideração e desrespeito!


Melhor parar por aqui, os exemplos são intermináveis. Só não posso deixar de comentar que os aparelhinhos também eliminaram qualquer chance de privacidade. Ou as pessoas não se importam mais de falar (nos aparelhinhos) as maiores intimidades de suas vidas, seja no ônibus, no táxi, no metrô, no avião, no elevador, em banheiro público, na sala de espera de consultório, no supermercado, na praia lotada, na loja de departamento, seja onde for, esteja quem estiver ao seu lado! Ficam indiferentes, parece que as demais pessoas são invisíveis.
Sei que pode estar parecendo que sou velho (não nego, já passei dos cinquentinha!), ultrapassado, ranzinza e conservador. Mas não é isto. Sei da importância da tecnologia para a evolução da Humanidade. O Homem do século XXI não vive sem a informática. Não se pode negar o benefício que a tecnologia nos proporciona; o conforto, a agilidade e praticidade do nosso cotidiano são frutos do avanço tecnológico.
O que precisamos avaliar é sobre o uso adequado da tecnologia. No fundo a máquina foi criada para nos servir e não para nos escravizar. Se hoje, com o corre-corre da vida moderna, a gente se sente só — “eu tava só, sozinho/ mais solitário que um paulistano”, como canta Zeca Baleiro—, a tecnologia e os tais aparelhinhos (além do celular, os tablets e notebooks incluídos) ao invés de aproximar estão afastando e isolando ainda mais as pessoas. Isto quer dizer que há um uso desvirtuado da máquina.

Interferência de rua do artista francês Invader

Será que os aparelhinhos de comunicação não precisariam ser usados para suprir as lacunas provocadas pelo crescimento desenfreado da sociedade moderna? Será que não deveríamos usá-los para nos aproximar, para romper um dos males dos nossos dias, a falta de afeto e vínculo afetivo?
E aíPosso pedir um favor? Vamos usar o celular, o smartphone, o iPhone e tablets com bom senso?
Boa educação nunca sai de moda!


6 Comentários para “E aíPode?”

  1. Nanete Neves Says:

    Bela crônica. Também me faço essas perguntas sempre, inconformada com o que a tecnologia está promovendo: você fica perto (teoricamente) de quem está longe, e longe (de fato) de quem está perto. Não me conformo e tento, do meu jeito, me rebelar. Quando estou com amigos (ou amores), o aparelhinho fica na bolsa.

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  2. Waldir Says:

    Oi Maurício,
    Em um outro no post, naquele feicibuqui onde o que menos tem é “face”, eu te dei os parabéns pelo blog, pelo fato de manter um blog. Agora estou admirado com o conteúdo do seu blog; volume e qualidade! Uau! Parabéns é pouco!

    Muito bom esse texto dos aparelhinhos, resisti o quanto pude até ter o meu primeiro, há 4 anos. (fui resistente, não? me diziam teimoso, mas… isso é uma outra história) Concordo com você que o uso abusivo dos aparelhinhos afastam as pessoas e interferem nas comunicações. Há alguns anos a gente marcava um encontro com semanas de antecedência e ia, sem confirmar; hoje você confirma DEZ vezes e, pode acontecer, de seu amigo receber uma chamada, a 40 minutos do seu encontro, com um convite super-hiper-hype, irrecusável, e seu encontro vai para o beleléu.

    Mais um aparelhinho que também está nos aparelhinhos; câmera fotográfica. Ummm… Cena 3, interna, noite. Aniversário da Fulana; casa iluminada, boa comida, 30 pessoas. VINTE E NOVE com câmera fotográfica na mão. Tem noção do que é isso, Maurício? A festa da pose. Todo mundo o tempo todo, fazendo pose (a mesma!). Depois da primeira hora eu comecei a fugir. Missão impossível, aonde se ia, lá estava um grupo se unindo, rindo forçadamente e te puxando para aparecer na nonagésima oitava foto. Surreal. Já não se fazem mais festas como antigamente… (rs!)

    É isso, Mauzz, depois conversamos melhor. Parabéns por este belo trabalho!!
    Grande abraço,
    Waldir

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    • Maurício Mellone Says:

      Waldir:
      Que bom q vc gostou do blog: venha sempre me visitar, vou adorar!”
      Sobre os aparelhinhos, realmente é preciso saber usá-los e não
      ficar “escravos” deles.
      E vc tocou noutro aparelhinho infernal hoje em dia: as câmeras digitais
      (e celulares tb fotografam)! Em cerimônia de casamento o mais importante
      são as poses para fotos. Ritual que marca a união de duas pessoas que se
      amam, bom isto é secundário, melhor registrar o ritual do que vivenciá-lo!
      Coisas da “mudernidade” rsrsr
      abr e até a próxima visita!

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  3. José Eduardo Pereira Lima Says:

    Antes de mais nada, agradeço o Maurício por citar o livro “Na Medida Certa da Boa Educação”, que escrevi com meu amigo Jerson Dotti.
    No dia que li sua crônica, recebi pela internet um vídeo em que aparece um grupo de simpáticas vaquinhas pastando. Entra em cena, um músico com um instrumento de sopro, que começa a solar para elas um número de jazz conhecido (“When the saints go marching in”). As meigas leiteiras param de pastar e começam a prestar atenção, quando chegam mais músicos com outros instrumentos, completando a banda e prosseguindo com a apresentação. As vaquinhas se juntam, deixam de pastar e, sem nenhum mugido paralelo, olham admiradas e educadamente o grupo de músicos. Quando eles terminam de executar a música, elas balançam satisfeitas suas caudas como se estivessem aplaudindo.
    Pensei tanto nos personagens anônimos que o Maurício cita, exibindo nas diversas situações um comportamento totalmente oposto ao do reino animal.

    Zedu Lima

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    • Maurício Mellone Says:

      Zedu:
      Também assisti a esse vídeo das vaquinhas ouvintes de música.
      Que bom seria se os demais ouvintes/espectadores (de duas pernas)
      fosssem tão educados quanto às outras ouvintes, de quatro pernas!
      Bjs e obrigado pela força!

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