Peça: Fim de Partida, foto 1

Fim de Partida: universo pessimista e sem esperança de Samuel Beckett

De em junho 20, 2016

Peça: Fim de Partida, foto 1

Rubens Caribé e Eric Lenate vivem Clov e Hann da peça do dramaturgo irlandês

Mais uma vez vale a máxima de que os clássicos são sempre atuais, eternos. Num mundo mergulhado em guerras, com êxodo de mais de 65 milhões de pessoas fugindo de seus países (em função de conflitos e da miséria) e com a intolerância, o fanatismo e todo tipo de preconceito grassando pela sociedade contemporânea nada melhor do que Samuel Beckett, um dos escritores mais importantes do século XX e considerado pelos críticos como um ícone do teatro do absurdo, para ajudar a reflexão sobre nosso cotidiano e a instigar a reavaliação de valores e princípios.
Em Fim de Partida, em cartaz no SESC Pinheiros , o espectador se depara com quatro personagens enclausurados num abrigo, vivendo dentro  de latões, num ambiente escuro e lúgubre em que questionam a condição humana e o sentido da vida.

 

“A peça fala sobre conflitos humanos e enquanto a gente tiver problemas éticos, de valores e comportamentais apresentados nesse texto Beckett será atual. Ele constrói seu texto com uma arquitetura linguística tão fantástica, que essa estrutura não envelhece jamais”, argumenta Eric Lenate.

Peça: Fim de Partida, foto 2

L.P. Daniel executa ao vivo sua trilha sonora

 

Além das condições inóspitas, os personagens estão praticamente enlatados e inertes: Hann (Lenate) é um artista fracassado, está cego e preso a uma cadeira de rodas; seu  ajudante Clov, vivido por Rubens Caribé, sofre de uma doença que o impede de sentar e Nagg e Nell (Ricardo Grasson, Miriam Rinaldi), pais de Hann, também são mutilados e vivem dentro de latões. Estão à míngua, exclusos, sem luz, sem alimento, sem esperança, sem poesia, sem vida. A eles resta o questionamento da existência humana. Fiel ao universo de Beckett, a montagem provoca o espectador, deixando-o também enclausurado e reflexivo diante daquela realidade tão crua e cruel. No programa da peça, o diretor diz que o dramaturgo nos alerta para o absurdo que somos nós:

 

“Sem oferecer respostas nem atenuantes diante de nossa catástrofe, Beckett transforma seus personagens em ruínas, construindo em suas peças a expressão mais fiel de um mundo no qual restaria apenas esperar por Godot, pela morte ou pelo fim da partida. Talvez por isso ele permaneça atual, já que suas obras continuam exigindo que os espectadores tomem consciência da catástrofe, do mundo nos dias de hoje”, diz o diretor.

 

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Ricardo Grasson e Miriam Rinaldi são os pais de Hann

Assim como o dramaturgo irlandês, a proposta cênica também radicaliza: o espetáculo termina e a plateia se sente órfã, já que os atores não voltam para agradecer os aplausos finais ( o estranhamento, intencional, é uma realidade, saí incomodado com a crueza da dramaturgia de Beckett). Destaque para a iluminação (Aline Santini), o figurino (Rosângela Ribeiro), cenário e adereços (assinados pelo diretor), que sustentam a proposta cênica claustrofóbica e opressiva da montagem. A narrativa se complementa com a trilha, criada e executada ao vivo por L.P. Daniel. A coesão e a sintonia dos atores em cena também devem ser ressaltadas, com destaque para a atuação de Rubens Caribé e Eric Lenate. Espetáculo de impacto, provocador e reflexivo, que permanece em cartaz até 02 de julho.

 

 

Fotos: Leekyung Kim


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