Filme: Gabeira, foto 1

Gabeira: documentário de Moacyr Góes retrata a vida do jornalista

De em dezembro 5, 2017

Filme: Gabeira, foto 1

Fernando Gabeira concede longa entrevista sobre sua vida e sua careira

Num período pré-eleitoral como o de agora e em que o país vive uma das maiores crises de sua história — econômica, política e moral —, o documentário de Moacyr Góes, Gabeira, pode ajudar na reflexão sobre a realidade brasileira contemporânea, já que faz um perfil do jornalista, escritor e político Fernando Gabeira, uma figura de extrema importância graças a sua intensa militância e engajamento nas questões políticas do Brasil desde os anos 1950.
A estrutura central do filme é com uma extensa entrevista com o mineiro de Juiz de Fora, Fernando Gabeira, em que ele relembra momentos cruciais de sua vida pessoal e de sua carreira como jornalista e político. A narrativa é ainda recheada de depoimentos de personalidades próximas a ele ou que estiveram presentes em sua trajetória, como o economista Armínio Fraga, a jornalista Leda Nagle, sua prima, os escritores Affonso Romano de Sant’Anna, Ferreira Gullar e Agnaldo Silva, o jornalista Nelson Motta, o compositor Caetano Veloso e as filhas dele, Tami e Maya.

Filme: Gabeira, foto 2

O diretor Moacyr Góes ao lado do jornalista e político

Num formato tradicional (depoimentos intercalados com imagens referentes às falas), o documentário de Moacyr Góes, responsável também pelo roteiro, começa com os relatos sobre o garoto rebelde em Juiz de Fora/MG, que foi expulso de vários colégios até se transferir para o Rio de Janeiro com a firme proposta de trabalhar no maior jornal da época, Jornal do Brasil/JB. Seu sucesso na carreia jornalística foi galopante — depois de trabalhar no Rio, Gabeira retorna a Minas Gerais e logo assume funções de direção dos principais jornais mineiros. De volta ao Rio e agora no JB, ele se engaja na movimentação política pré-ditadura militar e se integra ao MR8, grupo de guerrilha. A participação de Gabeira no sequestro, em 1969, do embaixador norte-americano Charles Elbrick é relatada com detalhes, assim como sua vida na clandestinidade, sua prisão e depois seu período de nove anos no exílio, onde viveu em vários países, como Argélia, Chile, Cuba e Suécia. Com a volta ao país graças à anistia em 1979, Gabeira chama a atenção da opinião pública graças as suas ideias em prol da ecologia, das minorias (mulher, negros e homossexuais) e de causas sociais relevantes. Sua vida política como deputado (exerceu quatro mandatos na Câmara Federal), além de suas candidaturas à presidência/1989, à prefeitura carioca/2008 e ao governo do Rio/2010 também são amplamente analisadas no filme pelo próprio Gabeira.

Filme: Gabeira, foto 3

Ele faz uma profunda autocrítica

 

 

E aí está o mérito do documentário: mais do que enumerar seus feitos na política nacional, Gabeira faz um verdadeiro mea culpa, tanto de sua militância nos anos 1960 em que defendia a ditadura do proletariado (em detrimento da democracia), como de sua  proximidade e efetiva participação nos partidos de esquerda — ele deixa o PT por discordar de suas práticas antes do escândalo do mensalão. Gabeira faz uma autocrítica de sua atuação política partidária e critica postulados do pensamento da esquerda de uma maneira geral, o que é raro em políticos tradicionais.
Senti falta no filme de comentários sobre a produção literária de Gabeira, livros que fizeram sucesso e sintetizam o ideário dele, como O que é isso companheiro/1979, Crepúsculo do macho/1980, Entradas e bandeiras/1981, Goiânia, rua 57 /1987, A maconha /2000, entre outros. Mesmo com esta lacuna, o filme é imprescindível neste momento em que estamos prestes a eleger novo presidente da república e que as investigações sobre escândalos de corrupção estão a pleno vapor. Gabeira, como sempre, não se exime e faz ponderações que podem ajudar a reflexão sobre o futuro iminente do Brasil.

 

 

 

 

 

Fotos: divulgação


2 Comentários

Dinah Sales de Oliveira

dezembro 7, 2017 @ 16:10

Resposta

Maurício,
Não vi o filme, mas não sei se me animo a conferir o documentário… parei de ‘seguir’ os feitos e posições do Gabeira há algum tempo e me lembro de ter estranhado muito alguns posicionamentos dele mais recentes. Na época da faculdade era quase obrigatório ter e ler os livros dele (além de fazer parte da história política da época, escrevia lindamente e sempre foi muito claro quanto as suas posições políticas) , mas fui me distanciando do personagem e do Gabeira real.
Se eu for ao cinema pra fazer esse ‘revival’ e saber o que ele pensa nos dias atuais, comento com vc.

beijo

Maurício Mellone

dezembro 8, 2017 @ 11:13

Resposta

Dinah,
tb acompanhei os primeiros livros do Gabeira, assim q voltou do
exílio. Continuo admirando a postura dele e a coragem de fazer
uma revisão crítica de seu pensamento e suas convicções políticas.
No filme ele reafirma o erro cometido quando participou do movimento
de luta armada (ou sua reflexão crítica sobre o pensamento dele e da esquerda
na época). Mas tb atrás o ‘mea culpa’ de sua trajetória mais recente.
Vale pela reflexão, o espectador concordando ou não com ele.
Obrigado pela visita
bjs

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