Peça: Incêndios, foto 1

Incêndios: Marieta Severo conduz eletrizante tragédia contemporânea

De em outubro 16, 2014

Peça: Incêndios, foto 1

Marieta Severo dá vida a árabe Nawal na peça do libanês Wajdi Mouawad

Depois de temporada premiada no Rio, está em cartaz no Teatro FAAP até dezembro a peça Incêndios, de Wajdi Mouawad, um libanês de 46 anos que desde a década de 1980 mora no Canadá e pela primeira vez é encenado no Brasil.
E os paulistas que raramente podem apreciar Marieta Severo nos palcos, agora têm o privilégio de conferir este que já é um marco em sua carreira. Marieta encarna a árabe Nawal, que em sua saga de décadas tenta resgatar sua dignidade e deixa como legado aos filhos gêmeos Simon e Jeanne, interpretados por Felipe de Carolis e Keli Freitas, a missão de desvendar a origem da família.

Peça: Incêndios, foto 2

Keli Freitas e Felipe de Carolis interpretam os filhos gêmeos de Nawal

O espectador é fisgado para dentro daquela história trágica desde a primeira cena, em que Jeanne sobe ao palco vindo da plateia à procura da pessoa que poderá ajudá-la a elucidar os mistérios deixados pela mãe em duas cartas, uma endereçada a ela e a outra ao irmão. A trama não é apresentada de maneira linear: de um lado, Nawal relata de forma cronológica toda sua trajetória de vida, desde sua relação amorosa na adolescência, seu drama de ter sido obrigada a entregar seu filho primogênito, até a luta para aprender a ler e escrever, seu ingresso na guerra, os martírios de que foi submetida e a resolução de se calar até a morte.
No outro extremo, depois de lido o testamento deixado por Nawal e de posse das cartas, os gêmeos precisam cumprir a missão: Jeanne deve levar uma carta ao pai que eles pensavam estar morto e Simon deve entregar outra carta ao irmão mais velho, que eles desconheciam. Neste percurso, eles fazem o caminho inverso da mãe, do presente à origem de suas vidas.

“A peça não tem qualquer limitação de espaço e tempo. Mesmo situando os personagens e ações em contexto real, a peça não localiza geograficamente a ação, apenas sabemos que se trata de Ocidente e Oriente, as cidades têm nomes inventados e datas de fatos históricos são modificadas. As cenas vão e voltam ao longo de 50 anos, às vezes se interpenetram, se misturam, dialogam’, esclarece o diretor Aderbal Freire-Filho.

 

Com um mínimo de cenário, assinado por Fernando Mello da Costa, — apenas alguns elementos montados a cada cena —, o diretor usa da iluminação para delimitar espaços e tempos narrativos e do figurino destoante (marrom para os personagens do passado e cinza para os do presente) para narrar a trágica saga de Nawal por mais de cinco décadas. Com a história contada numa agilidade impressionante e com o desfecho surpreendente, o público nem sente o tempo passar (são duas horas de espetáculo); pelo contrário, não se ouve um único ruído durante a encenação, somente alguns suspiros e o choro contido de grande parte da plateia.
No programa da peça, o dramaturgo Wajdi Mouawad, que também é ator, diretor e produtor, é enfático ao definir sua trama:

“A peça é a história de três histórias que procuram seus primórdios, de três destinos que buscam suas origens em uma tentativa de solucionar a equação de suas existências”.

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Elenco de oito atores em perfeita sintonia

Se no mundo Incêndios já arrebatou diversos prêmios, a montagem brasileira não fica atrás: no prêmio APTR do Rio a peça recebeu quatro troféus (atriz para Marieta Severo, atriz coadjuvante para Kelzy Ecard, cenário e espetáculo) e melhor direção no Prêmio Shell. Com a entusiasmada recepção dos paulistanos, aqui a peça também será premiada, com todos os méritos.
De antemão, considero a montagem carioca um dos mais significativos e contundentes espetáculos de 2014. A sintonia e a coesão do elenco também devem ser ressaltadas e Marieta Severo, com sua sensibilidade e perfeito domínio em cena, dá vida a uma das grandes mulheres da dramaturgia contemporânea. Não é por acaso que ela dedica este trabalho a Zuzu Angel, que morreu tentando descobrir o paradeiro do filho, assassinado durante a ditadura militar brasileira.
Literalmente um espetáculo imperdível!

Fotos: Leonardo Aversa


4 Comentários

Rico

outubro 20, 2014 @ 16:04

Resposta

Obrigado pela dica! Muito boa a peça, EMOCIONANTE eu diria, aqui você a resume muito bem 🙂
Adorei!
Bjo

Maurício Mellone

outubro 21, 2014 @ 10:38

Resposta

Rico,
que ótimo receber seu retorno!
Vc assistiu a peça e também se encantou
com ‘Incêndios’.
Obrigado pela visita, volte sempre!
bjs

Bruno

outubro 16, 2014 @ 14:24

Resposta

Você relatou e analizou o espetáculo de forma exemplar. Parabéns Mauricio! Não te ho dúvidas que está peça ira ganhar vários prémios. E o seu trabalho de nos manter informados tb merece prêmio! Obrigado

Maurício Mellone

outubro 17, 2014 @ 14:19

Resposta

Bruno,
Fico muito contente q vc tenha gostado do que escrevi sobre ‘Incêndios’:
muito do que expus na resenha já havíamos comentado após sairmdo do teatro!
Obrigado pelos elogios e pela participação constante por aqui!
bjs

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