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Jacques e Seu Amo: Roberto Lage dirige única peça de Milan Kundera


Peça: Jacques e Seu Amo, foto 1

Hugo Possolo interpreta o criado Jacques e Edgar Bustamante o seu amo na peça de Milan Kundera

Dez anos antes de lançar seu romance mais famoso — A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreveu em 1971 sua única peça, a comédia Jacques e Seu Amo, que acaba de estrear no CCBB-SP, sob direção de Roberto Lage. O autor baseou-se no romance do filósofo francês Denis Diderot Jacques, Le Fataliste para contar a aventura do criado Jacques, vivido por Hugo Possolo, e seu amo (Edgar Bustamante), que viajam a esmo pelo mundo e contam suas experiências amorosas. O criado faz um relato detalhado de como perdeu sua virgindade — teve um caso com a namorada do amigo (Angelo Brandini), ao passo que seu amo diz como foi traído por seu melhor amigo (vivido por Ando Camargo). As duas histórias são bem parecidas, ambas envolvendo traição e atitudes hipócritas dos protagonistas.
Com cenário de Kleber Montanheiro (poucos elementos em madeira representando as construções), cada história se passa num canto do palco. No meio do caminho, amo e criado encontram uma taberneira tagarela (Renata Zhaneta), que não sossega até contar outra história, a de uma Duquesa, que sendo preterida por um nobre (Felipe Ramos), resolve se vingar e não descansa até casá-lo com uma prostituta, interpretada por Greta Antoine.

Peça: Jacques e Seu Amo, foto 2

Elenco: Edgar, Felipe Ramos, Renata Zhaneta, Ando Camargo, Greta Antoine, Angelo Brandini e Hugo

Além das três histórias serem contadas com bom humor e alternadamente, o espectador entra neste jogo narrativo de presente e passado e na brincadeira proposta por Kundera, que em diversas passagens faz com que o ator saia do personagem e critique o próprio autor. A crítica pode ser entendida também como se fosse dirigida ao Criador e à própria humanidade.

 

“Gosto muito da dramaturgia desta peça, da reflexão sobre o comportamento hipócrita do homem na sociedade. Em tempos modernos é delicioso trabalhar com um texto politicamente incorreto, um texto humanamente e naturalmente incorreto”, comenta Roberto Lage.

 

Primeira montagem no Brasil, Jacques e Seu Amo se destaca pela produção requintada, a minuciosa pesquisa da moda francesa do século XVIII para a confecção dos figurinos (Fabio Namatame), a iluminação de Wagner Freire (o truque de luz e som para criar a cadeia é sensacional), além da atuação contagiante e cúmplice de Hugo Possolo e Edgar Bustamante. Único senão: assisti na estreia e o espetáculo necessita de um período de ajuste; senti o final um pouco arrastado. No entanto, Possolo com sua veia cômica de palhaço ganha a plateia desde a primeira cena e o público se diverte.

 

Fotos: João Caldas

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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2 Comentários para “Jacques e Seu Amo: Roberto Lage dirige única peça de Milan Kundera”

  1. Nanete Neves Says:

    Gostei tanto, mas tanto de ler e depois assistir “A insustentável leveza do ser”, e sou tão fã do Kundera que preciso assistir a este espetáculo. E agora, depois desse teu post, isso tem que ser já… Obrigada por nos orientar sempre nas melhores escolhas culturais.

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