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Mais um conto inédito de Mario Garrone: Oswaldinho morto


Escritor Mario Garrone, foto 1

Escritor Mario Garrone publica mais um conto no Favo

Autor dos romances Pequeno Relato Sobre o Caos e O Homem Infeliz, o escritor e jornalista Mario Garrone acaba de me presentear com outro conto inédito. Assim como tem feito nos últimos tempos — publica seus contos de primeira mão aqui no blog —, Mario escreveu Oswaldinho morto recentemente e os leitores do Favo do Mellone terão a honra de serem os primeiros a conhecer esta história, recheada de mistério e humanidade. Se em outros contos havia dúvidas sobre o crime ou sobre as circunstâncias do fato narrado, desta vez Garrone já no título informa sobre a morte do personagem central. O inusitado do conto é justamente saber como Oswaldinho perdeu a vida e que condições provocaram sua morte. Conhecer o ambiente em que ele vivia e saber um pouco das pessoas que faziam parte do cotidiano de Oswaldinho é que ajudam a decifrar o mistério da história.
Mario, muito obrigado pela confiança depositada no
Favo e aos leitores, boa diversão! Se puderem, deixem comentário.

Conto de Mario Garrone, foto 2

Oswaldinho morto

Justamente na hora do enterro, o corpo prestes a ser posto na cova, irrompeu a baderna. Durante o velório quase vazio já havia quem soltasse rojão e berrasse na rua, mas quando o cortejo começou no cemitério é que o frege tomou conta de vez. Era homem e era mulher gritando Brasil, corneta, buzina, todo tipo de som estridente, nenhum silêncio respeitoso mais foi possível no momento maior da dor, o corpo sendo encaminhado para a cova, a Graça chorando amparada, o Bento com cara de quem foi destruído junto com o filho e o grito horroroso da Ondina Raquel.
Num dia está tudo bem (ou parece), no outro dia o desastre, o abismo, a sensação de que todo esforço foi em vão, se era para acabar como acabou, que não tivesse havido o começo e o depois, a morte no fim e a algazarra na hora em que o Oswaldinho ia ser posto para sempre sozinho lá embaixo da terra.
O jogo terminou e a partir daí ninguém segurou mais a massa. Era um tal de gente sã sendo louca, demente, todo mundo na rua, criança imitando o gesto doido da mãe e do pai, cachorrada latindo, percussão de panela, frigideira, bateria e samba no pé nos botecos.
Se tem gente sofrendo na hora do jogo, ninguém sabe nem quer saber e se souber esquece, apaga. Cada um só quer rir quando a coisa acontece do jeito que era para ser e Oswaldinho nenhum sendo enterrado iria silenciar a fuzarca que se formou assim que o juiz apitou e a festa se espalhou pelos bairros.
Dizem que a Graça e o Bento deviam saber que a morte rondava, estava ali insistente, viável, a um passo. Era ter sensibilidade e saber que o Oswaldinho não tinha futuro nenhum. Isso dizem, não sei. O fato é que os dois não viram que tão ali do seu lado alguém pedia silenciosamente socorro, uma ajuda, mãezinha me acode, paizinho me salva de todas as garras do mal.

Conto de Mario Garrone, foto 2

Um escarcéu dos diabos, pagode nas esquinas da periferia e do centro, mulheres rebolando na frente dos bares, homens berrando nas janelas, um festival de cerveja e pinga e confete e a Ondina Raquel incomodada que só com tamanho tropel na horinha em que se deu início ao cortejo e quase ninguém estava lá dando adeus.
Desde cedinho um sol inclemente, céu azul sem resquício de nuvem, nenhum indício de dor na cidade, nenhuma tempestade à vista nem sinal de garoa triste. E o pior tinha acontecido para eles dentro de casa. O cenário estava todo armado para a festa que viria a partir do momento em que o juiz desse tudo por terminado e a vitória contagiaria crianças e velhos. Negros, brancos e pardos unidos de um jeito que só assim.
Hoje se está vivo, amanhã cai-se morto. E nem precisa doença. Sem moléstia nenhuma também tudo acaba. Mas, se o menino tem treze anos e a saúde está boa, ninguém vai pôr na cabeça que morrer é para todos e a qualquer hora.
O Oswaldinho era feio. E mancava. Se havia amor a ele dentro de casa, e muitos garantem que sim, da rua em diante era a guerra. A escola pode ser um lugar perigoso e implacável. Tudo o que destoa incomoda e o Oswaldinho era franzino, tinha uma perna mais curta e um rosto cujos traços não combinavam entre si, não formavam um todo harmônico, simétrico.
A filha da Samira viu várias vezes o Oswaldinho sendo pego para Cristo (isso ela conta só agora que é tarde), mas aquilo não era com ela, o que ela podia fazer? Cada um com a sua vida e na vida de todo mundo já tem seu caroço maior e os pequenos e a filha da Samira mal conhecia o menino, sabia quem era, onde morava, mas daí a se meter em vespeiro. Os moleques iam azucrinar a paciência dela e ela ia acabar tendo a mesma sina e o mesmo inferno. E o Oswaldinho, de mais a mais, no fim das contas, nunca foi o único a ser humilhado. O que tem de gente penando nos colégios! Lá se aprende desde cedo que é cada um por si neste mundo, quem não se vira se ferra, sucumbe. O mundo é de quem enfrenta a bandalha e vai.
Um velório quase sem gente. Nos dedos das mãos se contavam as cabeças. Uma tarde infeliz de festa e bagunça, a tristeza da Graça e do Bento, a alegria invasiva se alastrando pelas ruas em volta do cemitério, o som de pagode ordinário solto no ar e a Ondina Raquel dando indícios de que iria surtar rapidinho ali perto da cova.
Um arrepio tomou conta do corpo da Adalgisa. O azar de ter visto, uma visão pavorosa. O radinho de pilha tocava sertanejo direto. Ela sempre chegava e saía e ninguém nunca na casa, a Graça confiava na Adalgisa, a Adalgisa era dez. Limpava o que tinha de limpar, ouvindo os sucessos, passava toda a roupa e vazava. Das poucas pessoas que se deram ao trabalho de ir ao enterro, Adalgisa era uma. E chorava!
Seu Castilho chamou a polícia. Amparou a Adalgisa ao ouvir os gritos e o choro no portão da casa, foi até a garagem, viu o que tinha de ver e achou que era o caso. Ligou para o DP e com a vinda dos tiras quem passava parava, a vizinhança toda na rua querendo saber como é que era o negócio, quem tinha atirado e matado, quem tinha morrido do quê, em qual circunstância. Gente curiosa e intrometida formando rodinhas na calçada e prevendo o fim definitivo dos tempos, a desintegração total da família, o Apocalipse do jeitinho que está na Bíblia. Uma montoeira absurda de parasita dando palpite na frente da casa, e ao enterro quem foi?
Quase a Adalgisa não viu o corpo. A garagem no fundo da casa não era lugar que ela entrasse. Um sexto sentido qualquer a fez ir ou foi porque uma hora se vai e se vê o que não se devia, o que entra nos olhos com dor e não sai. Ou custa muito a sair.

Conto de Mario Garrone, foto 3

O juiz apitou e o cortejo começou. Uma coisa tão triste, o som ensurdecedor de rojão, de buzina, corneta, batuque, cachorrada latindo e a Ondina Raquel a um passo do surto. Tão poucas pessoas seguindo o caixão, a cidade em delírio esportivo, o samba correndo solto pelos bares e de repente a Ondina Raquel em transe, como se à Graça e ao Bento já não fosse suficientemente duro levar o corpo morto do filho para a cova.
Que Deus o quê! Não há Deus, vociferou a irmã dez anos mais velha depois do grito lancinante de revolta e inconformidade com a zorra. Esse carnaval indecente é uma afronta! Essa alegria é imoral! Deus nenhum sobre nós! Deus nenhum!
A Graça, mesmo tão alquebrada, gritou para que a Ondina Raquel saísse do surto em que entrava. O barulho humilhante de festa era horrível, machucava demais, mas blasfemar era o cúmulo, pecado mortal gravíssimo ao lado do tio padre presente, um dos nove que foram.
Surto nenhum dela antes daquele, garantem. Uma moça que já tinha pintado o cabelo de azul e roxo, sim, e posto piercing na língua, mas cada um pode pintar o cabelo da cor que quiser e colocar piercing até nas partes mais íntimas e isso não faz da pessoa um ser necessariamente propenso à blasfêmia na hora em que o irmão vai ser enterrado.
Nem o Bento tentando abraçar a filha conseguiu impedir a continuidade do surto histérico e o constrangimento de quem era não só obrigado a ouvir o som misturado de sertanejo e pagode no enterro como presenciar a cena da Ondina Raquel duvidando de Deus, da onipresença do Pai, da pureza carnal da Virgem.
O doutor Procópio não devia ter dito aquilo, não foi prudente. Se quase ninguém deu as caras na hora, ele poderia ter sido mais um dos ausentes. Não era nada oportuno pôr-se a falar e dizer o que disse. Que chegara à mesmíssima conclusão da jovem incrédula muitos anos antes, em circunstância não tão dramática quanto aquela, mas igualmente dolorosa e que Deus não há, isso é lenda, nunca houve, não, gente!
O corpo do Oswaldinho sendo encaminhado e o doutor Procópio, o ateu, soltando sua língua agnóstica num momento horrível em que a Ondina Raquel subiu enlouquecida num túmulo, dando-se então início ao surto.
Depois disso aqui, mais nada, é inútil, vida nenhuma, prosseguiu o doutor Procópio com a coisa acintosa ali junto da cova no seu habitual tom calmo, comedido e cortês. Mas o tema era impróprio para a hora! O silêncio de Deus não só hoje, Ondina Raquel, não só hoje, a carnificina de sempre, os déspotas vis no comando, papa nenhum, que se saiba, contra a excrescência dos brancos martirizando os escravos, os nazistas matando judeus, judeus dando fim nos muçulmanos e muçulmanos mirando na cara dos judeus. O que já houve de podre! O que há por aí de abominável!, doutor Procópio mandando ver, inconveniente e totalmente inadequado para a ocasião fúnebre, num momento delicadíssimo e nervoso em que do que se precisava com urgência era de muita calma e paciência, o surto da Ondina Raquel vindo com fúria e sem rédea no meio da farra, a Graça e o Bento dando o último adeus ao filho tão novo.

Conto de Mario Garrone, foto 4

Um dia de lágrimas e de angústia, uma sensação de que, em meio a toda escandalosa algazarra nas ruas, a solidão do cemitério sem gente era tudo o que a família (agora de três) tinha. Uma gritaria vinda de todos os lados, tanta variedade irritante de som e a Ondina Raquel de repente trepadinha num túmulo e olhando com desafio insolente para o céu e sem freio nenhum na boca: Tem um menino morto aqui! Tem gente morta, cambada que samba! Meu irmão se matou, deu um fim na vida, não quis mais, está entendendo?, se cansou, resolveu desistir, achou que isso aqui não valia, era um barco furado que não vai a lugar nenhum, viver não compensava o tanto de azucrinação na orelha, o tanto de ignorância, a bazófia, a aporrinhação, a quantidade de coisa ruim sobre os ombros, esse carnaval  aí dos infernos, essa malta gritando e soltando rojão e esse alto-falante espalhando pelo ar esse som sertanejo de merda que todo mundo é obrigado a ouvir. O Oswaldinho se enforcou na garagem de casa (o rosto transtornado da Ondina Raquel ainda olhando para o céu) porque o mundo é medonho, horrível, e Deus não fez nada. Eu não fiz nada por ele, não fiz, eu sei que não fiz coisa nenhuma, não mexi uma palha, não movi um mosquito, eu tinha mais o que fazer, sempre tive. Ninguém fez e ele colocou na cabeça que era hora, não podia mais esperar, tinha que agir o mais rapidamente possível com a corda, antes que alguém aparecesse, impedisse e dissesse que não, que viver é tão bom, Oswaldinho, pense nas coisas bonitas que há, que só Deus, ninguém mais, ninguém mais!, pode resolver que morrer é só para mais tarde ou para agora.

 Mario Garrone 

 

Fotos- divulgação

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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10 Comentários para “Mais um conto inédito de Mario Garrone: Oswaldinho morto”

  1. Marina Bueno Cardoso Says:

    Olá Maurício!
    Que ótimo conto do nosso querido Mario Garrone! Muito bom mesmo. Tks por compartilhar com exclusividade este texto do Mario.
    bjuss
    Marina Cardoso

    responder

    • Maurício Mellone Says:

      Marina:
      Que bom q vc gostou do conto do Garrone;
      ele tem me dado a honra de publicar em primeira mão seus
      contos!
      Vou contar a ele dos elogios dos amigos (ele não faz parte do Face…)
      bjs e obrigado pela visita!

      responder

  2. Marcelo Brettas Says:

    Caramba, o Garrone sempre me surpreende… Um conto poético, moderno, com as palavras fluindo com delicadeza e unidade. Um rio que vai escorrendo e ganhando volume a cada nova linha. Adorei, vou compartilhar e recomendar. Maravilha!

    responder

    • Maurício Mellone Says:

      Marcelo:
      Fico muito feliz por vc tb ter se emocionado com a criatividade
      e sensibilidade do Garrone!
      Como ele não está no Face, vou avisá-lo dos elogios dos amigos!
      bjs e obrigado pela visita, volte sempre!

      responder

  3. Dinah Sales de Olive Says:

    Maurício,
    Como sempre,o texto do Mario é surpreendentemente bem escrito e alinhavado.
    Esse ritmo que ele imprime à narração é ótimo, além da história em si, cheia de personagens complexos e bem desenhados!
    Que bom que ele pode estrear aqui e ir ganhando leitores!

    beijo.

    responder

    • Maurício Mellone Says:

      Dinah, querida:
      tb o que mais me chama as atenção no estilo do Garrone
      é a bela construção de personagens e a vivacidade com que
      ele cria as situações e artimanhas de suas curtas (e densas) histórias.
      bjs e muito obrigado pela constante e fraterna frequência aqui no Favo!

      responder

  4. Demétrio Says:

    É isso aí. E que venham outros e outros contos inéditos de tantos e tantos autores!!
    Viva!! MUITA MERDA!!
    Bj!

    responder

  5. Demétrio Says:

    Querido amigo e competentíssimo profissional Maurício Mellone: Esse novo conto do Garrone tinha mais é que ser lançado aqui mesmo, em seu blog. Vc merece a exclusividade. Parabéns pelo seu trabalho, parabéns pela dedicação, parabéns pelo seu talento…parabéns pela teimosia!!! Aliás isso vc sempre foi, desde criancinha! Um bj, sucesso!!!

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