Peça: Anatomia Woyzeck, foto 1

Marcio Aurelio e Razões Inversas fecham trilogia com Anatomia Woyzeck

De em maio 16, 2013

Peça: Anatomia Woyzeck, foto 1

Clóvis Gonçalves, Washington Luiz e Paulo Marcello se revezam e vivem todos os personagens da peça

Depois da grande repercussão junto ao público e crítica de Agreste e Anatomia Frozen, o diretor Marcio Aurelio e a sua Cia Razões Inversas resolveram encerrar a trilogia Anatomia Comparada — que discute a natureza da mente humana e a violência social —, justamente com um texto escrito no século XIX e que mostra o processo mental e as circunstâncias em que o soldado Woyzeck assassina sua mulher.
Anatomia Woyzeck, que acaba de estrear no CCSP, sala Jardel Filho,  é composta de fragmentos da peça inacabada Woyzeck, de Georg Büchner, que faleceu aos 24 anos, em 1837, quando escrevia este texto. Em cena os três atores, Paulo Marcello, Washington Luiz e Clóvis Gonçalves, se dividem em diversos papéis, alternando-se nos personagens da trama.

Peça: Anatomia Woyzeck, foto 2

Os atores da Cia Razões Inversas são dirigidos por Marcio Aurelio

Como a peça original ficou sem o desfecho, o diretor e os atores resolveram montar o espetáculo como um grande quebra-cabeça, com as cenas sendo apresentadas em ordem aleatória, sem seguir uma cronologia. Assim, o público é obrigado a construir a trama na medida em que os fatos são narrados, não necessariamente seguindo a linha do tempo. Neste formato e com os atores se revezando em todos os papéis, o espectador precisa ficar atento aos mínimos detalhes, o que intensifica a interação entre o que está sendo narrado e sua recepção.
A história é baseada em fatos reais de um assassinato passional ocorrido na Alemanha. No entanto, o que mais importa na montagem da Cia Razões Inversas não é o fato em si, mas o que se passa na mente daquele soldado até cometer o crime, o que o levou ao ato criminoso. Aí entra uma gama de sentimentos, como ciúme, inseguranças, raiva, destempero emocional e limitações psíquicas.

Peça: Anatomia Woyzeck, foto 3

Paulo Marcello é um dos fundadores da Cia Razões Inversas

O destaque de Anatomia Woyzeck é exatamente o que define o trabalho de Marcio Aurelio e a Cia Razões Inversas: a sintonia perfeita entre encenador — que também assina iluminação, cenografia e figurino — e os atores. É uma delícia constatar como cada ator compõe o mesmo personagem; por exemplo, a garota sensual que é assassinada pelo soldado ganha colorido, características e trejeitos bem peculiares quando é interpretada por Paulo Marcello. O mesmo ocorre quando Clóvis Gonçalves e Washington Luiz dão vida a esta mulher. O espectador percebe as nuances de composição dos atores para cada personagem e, assim como a trama, ele vai construindo os personagens como um quebra-cabeça.
A peça está fazendo sua estreia nacional em São Paulo e permanece em cartaz até 30 de junho. Não deixe de conferir.

Fotografia: João Caldas


4 Comentários

Wilfredo Miles

junho 7, 2013 @ 05:31

Resposta

Psicótico ou não, responsável ou não, a dramatização do caso Woyzeck levanta questões profundas sobre a violência como produto de si mesma, indo além do universo da loucura. Menos do que o quadro clínico, é a perturbação que fica em primeiro plano, representada pela narrativa fragmentada da peça, pela sucessão de cenas em ordem não cronológica e pelo revezamento que os atores fazem em cena. O desconforto que se cria no espectador consegue dar uma ideia de quão perturbado estava Woyzeck, levando a pensar quem, sendo ou não louco, não ficaria violento naquela situação.

Maurício Mellone

junho 7, 2013 @ 14:06

Resposta

Wilfredo,
gostei muito da sua análise sobre a peça ‘Woyzeck’, de salientar o estado de
perturbação do soldado para cometer o crime.
Obrigado pela visita e terei o maior prazer em recebê-lo
aqui no Favo outras vezes.
abr

Mauro Harrington

maio 24, 2013 @ 16:47

Resposta

Versão da obra clássica de Georg Büchner (1813-1837), Woyzeck entra no repertório do grupo como parte final de uma “trilogia da violência”: percurso iniciado com Agreste (2004) e Anatomia Frozen (2009). Em ambos eram recorrentes os casos de crueldade, barbárie e intolerância. Só que se estava lidando com dois textos contemporâneos. Woyzeck, ao contrário, flagra uma outra época. Foi levado ao palco pela primeira vez há exatamente um século, em 1913. “São obras de tempos muito diferentes, mas que mostram, ao longo da história, como se mantém a ignorância, a intolerância, o extermínio. Em tantos anos não se alteraram muito os costumes do cidadão, a nossa maneira de lidar com as coisas”, argumenta Marcio Aurélio.

Maurício Mellone

maio 24, 2013 @ 17:41

Resposta

Mauro:
o que mais me chamou a atenção neste espetáculo é a forma encontrada pelo diretor e pela Cia
em contar a história de violência do soldado que mata a mulher. Instigante!
Obrigado pela visita, volte outras vezes.
abr

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