Marianna Leporace e Filipe Catto: dois grandes talentos da música brasileira contemporânea

De em março 6, 2012

Marianna Leporace lança seu 10º CD de forma independente

Samba, pop, tango, jazz, blues, rock, baião, samba-rock, forró, seja qual for o gênero, a música brasileira continua rica e não se cansa de revelar grandes talentos. As dificuldades não estão ligadas à criação e ao talento dos compositores e intérpretes; os problemas encontram-se na distribuição e no acesso do grande público ao que está sendo produzido. Principalmente a produção de boa qualidade.

Filipe Catto estreia com CD lançado pela Universal Music

Marianna Leporace e Filipe Catto são exemplos desta realidade. Ambos lançaram no ano passado seus novos trabalhos, Interior e Fôlego, respectivamente: com produção muito bem cuidada, acompanhados de grandes músicos e com canções inéditas, além de regravações com arranjos e leituras muito peculiares. No entanto, o que falta é o acesso do público a estes dois CDs de altíssima qualidade.
Artista independente, Marianna Leporace já está na estrada há anos e Interior é seu 10º trabalho. Projeto de sua autoria, Marianna convidou os músicos Paulo Brandão e Emerson Mardhine, que assinam a direção e a produção musical, além da maioria dos arranjos. Como ela mesma diz no encarte, “Interior sou eu por inteira. Interior é família, amigos, viagens, mar, rio e floresta. Interior é tudo que aprendi, vi e sorvi por este país; é a mistura de sons e ritmos traduzidos por mim e pelos que me acompanham”.

Interior tem produção musical de Paulo Brandão e Emerson Mardhine

Quem abre e dá nome ao disco é a canção de Rodrigo Maranhão e Beto Valente, verdadeira síntese deste trabalho:

 

 “…E a coisa mais bela desse interior/
É a moça na estrada princípio de amor.”

 

Além desta, outras inéditas, como Ar e Vendaval (Yuri Popoff/Alexandre Lemos), Tivéssemos Tempo (Emerson Mardhine/ Marcelo Sandmann), Fazer a Mala (Ferrnando Leporace/ Dilma Lóes) e O Velho e o Rio (Ricardo Mansur/ Pedro Matta), de uma poesia belíssima:

 

“…E com o tempo o vento amansa/
Abre caminho de se achar/
E o homem velho virou menino/
Que virou mar.”

 

Outros destaques do CD de Marianna são as regravações. Ela selecionou duas músicas de Lenine e Dudu Falcão e as gravou na sequência, numa deliciosa ‘conversa’ entre Gandaia das Ondas e Pedra e Areia:

 

“..Ó! Quem não viu, vá ver/
A onda do mar crescer.”

“…Das ondas do mar/
Não vá, oh! Morena/
Morena lá, que no mar tem areia.”

 

Interior traz ainda a participação de João Bosco no vocal de sua composição Água, Mãe Água e fecha com a regravação de Vento Bravo (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro), em que a letra pode muito bem ser uma alusão à intérprete:

“…Como um sangue novo/
como um grito no ar/
correnteza de rio/
que não vai se acalmar”

 

Marianna Leporace é o grito, é o sangue novo que não vai se acalmar!

Fôlego tem conceito gráfico do próprio Filipe, formado em design

O gaúcho de 24 anos Filipe Catto chega com seu primeiro CD, Fôlego, lançado pela Universal Music, mostrando versatilidade e um potencial vocal único: além de afinadíssimo, seu timbre é raro, contratenor. Designer formado, Catto criou todo o conceito do álbum, que traz 15 canções, sendo 8 de sua autoria, incluindo regravações que ficaram com a sua marca, como Garçom, de Reginaldo Rossi. Os famosos versos lacrimosos ganharam uma versão intimista, sofrida e dramática:

“…Saiba que o meu grande amor/
Hoje vai se casar/
E mandou uma carta pra me avisar/
Deixou em pedaços o meu coração…”

 

Adoração, que abre o CD, já revela o potencial de compositor do rapaz: sua poesia casa-se com seu tom raríssimo de voz.

 

“…Meu corpo seja palco/
Vertido e tomado em pelo à tua poesia/
Eu adoraria, eu adoraria/
Saber o percurso da tua boca à minha/
Eu adoraria, eu adoraria/
Ter de noite e de dia”

 

Como o mestre Chico Buarque, Filipe Catto também compõe do ponto de vista feminino, como em Juro por Deus, um samba de humor negro e uma fina ironia:

“…E então decidi/
Vestir o decote mais abusado que existir/
E eu vou abrir a fenda até o meu umbigo/
E eu vou dormir com/
Aquele teu melhor amigo”

 

Acompanhado de Thiago Rabelo (bateria), Adriano Grineberg (piano), Fabá Giminez (guitarra), Gui Held (guitarra), Deco Telles (baixo) e Paul Ralphes (percussão), Catto deixou sua personalidade em canções de outros compositores, como 2 Perdidos de Dadi e Arnaldo Antunes e Ave de Prata de Zé Ramalho. Destaque também para o tango de sua autoria, Saga, que fez parte da trilha sonora da novela global Cordel Encantado.
Além de compositor e intérprete de grande talento, Filipe Catto chamou minha atenção pela versatilidade — compõe samba, tango, rock, tanto em português como em inglês— e, principalmente, por compor tanto do ponto de vista masculino, como feminino. Faz juras de amor à amada, mas também ao amado:

 

“…Se eu fosse um rei, eu te daria/
Abrigo em meu país/
Mas eu não sou, por isso segues/
Como exilado, sem saber de mim”

 

Que o Fôlego gaúcho de Filipe Catto seja sempre vigoroso, criativo e envolvente como deste primeiro trabalho.

 

Fotos: divulgação

 

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http://virginiagaia.com.br/

10 Comentários

Luiz Carlos Líbano

março 15, 2012 @ 18:23

Resposta

Olá, Maurício, já estava interessado em comprar esse CD, pois já tinha ouvido falar do contratenor e já o tinha no programa ‘Ensaio’; após ler a sua bela resenha, fecho com a compra do trabalho fonográfico do rapaz.
Lu.

Maurício Mellone

março 16, 2012 @ 14:35

Resposta

Luiz:
Vc, tb cantor, vai gostar do trabalho do Catto: é surpreeendente mesmo!
Depois me conte o q achou.
bjs

Cynthia Lopes

março 7, 2012 @ 10:26

Resposta

Ô coisa boa, Marianna já conhecia, fui colaboradora do projeto INTERIOR no Catarse, mas o Filipe, estou conhecendo! Gosto muito de blogs que divulgam o que há de bom no cenário deste país. Muito legal, bjs

Maurício Mellone

março 7, 2012 @ 11:53

Resposta

Cynthia:
Obrigado pelos elogios ao blog!
Conheci os dois, Marianna e o Catto, recentemente e fiquei
encantado com os novos trabalhos deles. Merecem mais
espaço para que o grande público tenha acesso (isto que
procurei fazer aqui no Favo).
Um abraço e venha sempre me visitar, prometo dicas ‘quentinhas’ da
produção cultural contemporânea.
até

Lúcia menezes

março 6, 2012 @ 19:17

Resposta

Adorei, a Marianna Leporace é uma ESTRELA, o disco é lindo! E o Felipe Catto vou procurar para ouvir. parabéns a todos. Lindo texto
Lúcia Menezes

Maurício Mellone

março 7, 2012 @ 11:55

Resposta

Lúcia:
Obrigado pelos elogios! Como disse
pra Cynthia aí em cima, ambos são talentosos e criativos,
merecem estar nas rádios e demais veículos de comunicação.
bjs

Quim Cordeiro

março 6, 2012 @ 14:51

Resposta

Maurício, seu trabalho também “é o grito, é o sangue novo que não vai” e nem deve “se acalmar!”.

Parabéns e obrigado pela atenção e o carinho que você vem dedicando às produções artísticas de qualidade incontestável, para as quais todo testemunho e todos os espaços, falados ou escritos, contribuem para ampliar ainda mais os horizontes e os encontros de tantos talentos com o público que também que qeur e gosta de conhecer e apreciar o que é bom.

Maurício Mellone

março 7, 2012 @ 12:02

Resposta

Quim:
Obrigado pelos elogios! Uau, fiquei muito contente com seu comentário!
Como disse na resenha, os talentos (no caso da Marianna e do Filipe)
da música brasileira produzida atualmente, por não terem ainda grandes plateias,
precisam ser divulgados. Sem grandes críticas, mas o que chega aos ouvidos
das pessoas atualmente tem pouco a acrescentar; hits passageiros ou canções
sem o rigor poético, melódico e criativo que encontramos em Interior e Fôlego
são divulgados e os bons (e criativos) não chegam nem às programações das emissoras de rádio.
Uma pena. O Favo também tem essa função, o de divulgar trabalhos que merecem chegar ao grande público.
bjs e envie sempre sugestões ao blog.

Marcus Vinicius Spinieli

março 6, 2012 @ 13:40

Resposta

Mau, Marianna Leporace eu conheço. Tenho alguns cd’s dela. Mas os que tenho são de clássicos, regravações muito bem gravadas. Com uma voz calma, suave, que nos dá uma paz interior. Em clássicos já conhecidos e com uma roupagem suave.!

Maurício Mellone

março 7, 2012 @ 12:04

Resposta

Vinícius,
que bom q vc já conhecia a Marianna. Este novo CD é tb muito bom e envolvente.
Não deixe de ouvir Fôlego, do gaúcho Catto: excelente revelação de cantor e compositor.
bjs e volte sempre visitar-me por aqui!

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