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Novelo, uma radiografia sobre o homem contemporâneo


Flavio Baiocchi, Fábio Cadôr, Herbert Bianchi, Alexandre Freitas e Flavio Barollo são os cinco irmãos da peça

Em sua quarta temporada (a estreia foi no ano passado), Novelo, em cartaz no Viga Espaço Cênico, surpreende de imediato. O público entra na sala de exibição e os cinco atores já estão em cena; detalhe: todos com agulhas e linha tricotando (literalmente) cachecol, echarpe e blusa. E melhor ainda, com desenvoltura e firmeza!
Só depois de todos se acomodarem e apagadas as luzes da plateia é que a peça de Nanna de Castro tem prosseguimento. São cinco irmãos que aprenderam a tricotar com a mãe e estão no saguão de um hospital público depois de serem chamados porque um homem foi espancado e levado à UTI; esse homem, que tinha no bolso da calça os telefones dos rapazes, pode ser o pai que os abandonou há mais de 20 anos.
Com este mote, a autora põe a nu o homem contemporâneo, discutindo questões e conflitos do universo masculino, por meio da relação entre os cinco irmãos. Sem linearidade, a trama alterna momentos daquela família, desde o nascimento do caçula quando o pai resolve deixá-los, o crescimento dos meninos em diversas fases da vida, a ligação deles com a mãe, até a maturidade e o momento em que eles se reencontram no hospital para reconhecerem o moribundo.

Maurício, João, Cláudio, Zeca e Mauro: irmãos com personalidades bem distintas

O público com o desenrolar das cenas vai reconhecendo a personalidade de cada garoto e como eles se tornaram adultos: Mauro (Flavio Baiocchi) o mais velho que aos 12 anos foi obrigado a se tornar o homem da casa, com todas as responsabilidades depois da morte precoce da mãe; Maurício-Cicinho (Alexandre Freitas), perturbado com o abandono, vira um homem inseguro e viciado; João (Herbert Bianchi), gay que procura superar os traumas com estudo e sucesso profissional; Zeca (Fábio Cadôr) moleque arruaceiro que vira o machão e empresário bem-sucedido e por último Cláudio-Cacau (Flavio Barollo), sensível e único que não conheceu o pai, torna-se ator.
Para melhor desenvolver a trama, o diretor Zé Henrique de Paula também criou o cenário; quatro cadeiras e apenas placas transparentes que servem tanto para situarem o ambiente hospitalar como para delimitarem o espaço cênico. Cenas de infância e adolescência dos personagens acontecem só com a mudança da disposição das cadeiras.
Nanna de Castro desfia um Novelo emocional daqueles cinco irmãos. A cena final é catártica, com cada um deles colocando para fora seus fantasmas e traumas guardados até então. Foi difícil conter as lágrimas, já que me identifiquei muito com história retratada no palco (somos cinco irmãos e uma irmã e meu pai faleceu com todos nós ainda crianças). Vivenciar aquele Novelo emocional-familiar sendo desenrolado, desfiado, desfeito contribuiu para que o meu novelo (como de muitos espectadores) também o fosse!

Fotos: Ronaldo Gutierrez

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8 Comentários para “Novelo, uma radiografia sobre o homem contemporâneo”

  1. Luiz Carlos Líbano Says:

    Oi, Maurício, fui desvendar alguns ‘nós’ , pois amo teatro. A sua sugestão desse ‘novelo’ com um olhar tão amplo sobre o universo masculino (o qual vem de uma artista sensível e antenada) me deslumbrou, emocionou, tocou-me profundamente.
    Obrigado pela maravilhosa dica!

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  2. Luiz Carlos Líbano Says:

    Nossa, Maurício, que belo espetáculo esse que você teve o privilégio de ver, hein?
    Já está na minha (longa) lista de peças a serem vistas. Sua resenha me inspirou, incitou-me.
    Até!
    Luiz.

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  3. Nanna Says:

    Maurício, que generosidade a sua e que bom que você conseguiu ler o que estava explícito e tudo que vai no fundo da correnteza. Muito obrigada!

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  4. Carlos F.Gomes Says:

    Um dos melhores espetaculos que assisti em 2010.Feliz que voltaram,irei imediatamente assisti-los de novo.Parabéns.

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