Filme: O Beijo no Asfalto, foto 1

O Beijo no Asfalto: direção ousada de Murilo Benício em longa-metragem

De em dezembro 12, 2018

Filme: O Beijo no Asfalto, foto 1

Lázaro Ramos vive o protagonista do filme baseado na peça de Nelson Rodrigues

O ator Murilo Benício não só se lança como diretor de cinema como estreia com ousadia. Em O Beijo no Asfalto, Benício responde também pelo roteiro, que é baseado na peça clássica de Nelson Rodrigues.

Rodado em preto e branco e mantido o período definido pelo dramaturgo — Rio de Janeiro, década de 1950, o filme mescla cinema e teatro para contar o drama de Arandir, vivido por Lázaro Ramos, que ao cruzar a movimentada Avenida Presidente Vargas se depara com o atropelamento de um rapaz, que agonizante lhe pede um último desejo: um beijo na boca. Arandir satisfaz o moribundo e seu ato é flagrado tanto por seu sogro Aprígio, interpretado por Stenio Garcia, como pelo repórter policial sensacionalista Amado Ribeiro, papel de Otávio Müller. A partir daí a vida de Arandir vira um colapso, com o repórter insuflando o delegado Cunha (Augusto Madeira) a explorar uma suposta relação afetiva entre aqueles dois homens, o que afeta o casamento de Arandir e Selminha, interpretada por Débora Falabella.

 

Filme: O Beijo no Asfalto, foto 2

O ator Murilo Benício estreia na direção

O inusitado do filme é exatamente o formato proposto pela direção. As cenas iniciais são com o elenco reunido em torno de uma mesa com o diretor Amir Haddad discorrendo sobre a peça de Nelson Rodrigues, o momento histórico da trama e os temas centrais levantados pelo texto. Tudo como se fosse a preparação inicial da montagem da peça, inclusive com a leitura de cada cena. Corte e no instante seguinte a cena ensaiada é filmada, fundindo desta forma teatro e cinema. Aos poucos o espectador percebe que as sequências do filme são produzidas dentro do próprio teatro em que diretor e elenco da peça estão ensaiando; com as tomadas do alto, a câmera mostra tanto a preparação e os ensaios como as filmagens finais das cenas.

 

Filme: O Beijo no Asfalto, foto 3

Débora Falabella, Fernanda Montenegro e Luiza Tiso: discussão da peça com todo o elenco

Outro fato incomum do filme é como a discussão, tão datada na obra de Nelson, se mostra atual: se nos anos 1950, período pré-informática, a vida de Selminha e Arandir se transformou num inferno, com trotes e telefonemas violentos e preconceituosos, além da campanha vil e moralista desencadeada pelo jornal, tudo nos remete aos dias atuais, com as fake news, o julgamento sórdido das redes sociais e as mensagens violentas e discriminatórias disseminadas pelos celulares. A homofobia era tão presente na sociedade brasileira de décadas passadas como é hoje em dia. Infelizmente!

 

 

 

Filme: O Beijo no Asfalto, foto 4

Fernanda interpreta a fofoqueira Dona Matilde

 

 

Mais um destaque da produção de Benício: além da discussão da peça promovida por Haddad ao lado do elenco, Fernanda Montenegro, que interpretou Selminha na estreia da peça em 1961, traz informações preciosas que enriquecem a produção do filme e servem também como bálsamo ao público. Ela fala com propriedade sobre Nelson Rodrigues (tanto da obra dele como de sua personalidade), dá dicas específicas de como interpretar os personagens da peça, conta sobre o momento histórico em que a peça foi encenada (período próximo ao golpe militar) e diz ainda sobre a presença de um repórter policial da época durante os ensaios. Verdadeiro testemunho ocular da história.

 

 

 

 

 

Filme: O Beijo no Asfalto, foto 5

Stenio Garcia é o enigmático Aprígio

Além da ousadia na produção e a bela fotografia de Walter Carvalho, O Beijo no Asfalto se destaca pela excelência na interpretação. Otávio Müller e Augusto Madeira vivem seus inescrupulosos papéis com brilhantismo; Stenio Garcia, Débora Falabella e Luiza Tiso (que vive Dália, outra filha de Aprígio) mostram as várias facetas de seus personagens. E Lázaro Ramos emociona com a dimensão que transmite ao injustiçado Arandir.

Não perca, o filme estreou sem grandes alardes, mas é impecável. Aproveite este período de final de ano para conferir. O filme termina com a canção ‘A vida é ruim’, de Caetano Veloso, na voz de Ney Matogrosso. Fique com a versão de Zélia Duncan:

 

 

 

 

Fotos: divulgação

26º Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade
Site Aplauso Brasil, especializado em Teatro
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2 Comentários

Antoune Nakkhle

dezembro 12, 2018 @ 19:13

Resposta

Deu vontade. Vou assistir neste final de semana!

Maurício Mellone

dezembro 13, 2018 @ 09:12

Resposta

Antoune,
Acredito q vc vá curtir muito o filme de estreia
do Murilo Benício.
Volte aqui deixando sua opinião sobre o filme.
Obrigado pela visita
bjs

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