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O Casamento, romance proibido de Nelson Rodrigues, chega aos palcos


Peça: O Casamento, foto 1

Maurício de Barros, Renato Borghi, Diana Bouth, Regina França, Vera Bonilha, Elcio Nogueira Seixas e Daniel Alvim interpretam 15 personagens

Em 1966, em plena ditadura militar, o dramaturgo Nelson Rodrigues lançou com estrondoso sucesso o romance O Casamento. A corrida às livrarias pelo público foi avassaladora, mas após duas semanas o livro foi proibido e tirado de circulação. A diretora Johana Albuquerque adaptou O Casamento para o teatro e acaba de estrear na cidade. Com temporada prevista até o final de junho, o espetáculo está em cartaz no Teatro Tuca e traz de volta todo o universo de perversão sexual, tão marcante na dramaturgia de Nelson Rodrigues.
A trama se passa exatamente nas 48 horas que antecedem o matrimônio de Glorinha, interpretada por Diana Bouth, filha de Sabino Uchôa Maranhão, vivido por Renato Borghi, que recebe a informação pelo médico da família que o noivo da garota foi flagrado beijando outro homem.

Para Borghi, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, esta peça sintetiza a obra do dramaturgo:

 

“Este texto contém os fetiches e desejos distribuídos ao logo das 17 peças de Nelson. É a súmula do pensamento rodrigueano”, afirma Renato Borghi.

Peça: O Casamento, foto 2

Diana vive Glorinha, a noiva que se envolve com o galã Antônio Carlos, interpretado por Daniel

Com um elenco de 7 atores que interpretam 15 personagens, a montagem tem início com o pai e a noiva entrando na igreja para o início da cerimônia. Um corte e a trama volta para dois dias antes quando Sabino recebe a visita em seu escritório do Dr. Camarinha (Elcio Nogueira Seixas), que indignado conta que flagrou  Teófilo (Daniel Alvim), o noivo, beijando seu assistente na boca. A partir deste mote, a trama ambientada no Rio de Janeiro dos anos 60 disseca todos os tipos característicos da obra de Nelson Rodrigues, desde a mãe conservadora e puritana, o patriarca obcecado pelas aparências sociais e que não consegue esconder o desejo sexual pela filha, a garota que se passa por ingênua e casta, mas na verdade é pervertida sexualmente, os jovens inconsequentes, o médico ginecologista pornográfico, o padre com a libido à flor da pele, a secretária virgem que se entrega tanto para um homem casado como para o patrão até o gay que, reprimido pelo pai, se vinga promovendo orgias sexuais na frente dele.

 

“Ao adaptar o romance, editei suas melhores passagens com o intuito de chegar a uma versão cênica de espetáculo. Busquei manter o pensamento dos personagens em cena — que no romance se colocam na voz do autor—, mas no palco ganham múltiplas vozes, trazendo uma nova abordagem cênica à prosa rodrigueana”, explica Johana Albuquerque.

 

O cenário, assinado por André Cortez, é móvel, com poucos elementos e constituído principalmente por cortinas que separam os ambientes: além de ajudar na dinâmica do espetáculo, o espectador passa a ser um voyeur, com as cenas acontecendo por trás de véus, num jogo de esconde e esconde, o que potencializa o caráter de fetiche e desejos ocultos e inconfessáveis.
O grande destaque de O Casamento é a performance dos atores que se desdobram em vários papéis, principalmente Renato Borghi, Daniel Alvim, Elcio Nogueira Seixas, Maurício de Barros e Regina França.

O único senão é para a duração do espetáculo: a diretora, que também assina a adaptação, poderia ter enxugado mais o texto. Diversas passagens poderiam ter sido eliminadas ou reduzidas.
Fotos: Alexandre Catan

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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