Conto: O Ator de Mario Garrone, foto 1

O escritor Mario Garrone lança mais um conto inédito, O Ator

De em maio 30, 2014

Minha campanha para que Mario Garrone publique seu próximo livro só de contos já foi deflagrada: aqui no Favo ele já nos brindou com 11 deles. O Ator é o mais recente, que ele acaba de me enviar. Com uma linguagem direta, mas recheada de mistérios, a trama envolve o leitor desde a primeira linha: quem é aquele ator que chega de óculos escuros, provocando frisson em todos os presentes? Qual será a reação das pessoas diante da atitude dele? Ficou curioso? Então devore mais esta história instigante até a última linha, pois as respostas a todas as indagações serão dadas ao final. Algumas delas ficam a seu critério, pois o autor deixa nas entrelinhas ou provoca o leitor a imaginar.
Mario, mais uma vez obrigado pela confiança. A todos, boa leitura e se puderem, deixem comentários sobre mais esta história adorável do Garrone.

 

Conto: O Ator de Mario Garrone, foto 1

O Ator
Foi um frisson entre as mulheres e um frisson igualmente descabido entre os homens, que olharam para o ator da novela como se ele fosse feito de uma matéria e de uma substância únicas, um ser especialíssimo merecedor de toda a atenção, um espécime incomum e raro.

Os óculos escuros não deixavam os olhos serem vistos, mas qualquer um perceberia que, não obstante os óculos, não obstante os olhos verdes estarem escondidos atrás das lentes pretas, era ele sim, o ator da novela, embora ninguém entendesse por que ele tinha vindo.
Naturalíssimo seria ver senadores, ministros andando aos pares, autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Esperavam-se políticos, é claro. Quem mais senão eles? Mas podia acontecer (isso, infelizmente, acontece) de um deputado, por exemplo, estar presente e ninguém se dar conta do fato. Mesmo ministros, por serem eles tantos e anônimos, corriam o risco de comparecer e não serem de forma alguma identificados. Não se pôde ter convicção sobre nada.

Conto: Mario Garrone, foto 2

O escritor e jornalista Mario Garrone

Isso caso tenha havido realmente algum vereador, um deputado, um ministro, entende? Porque pode não ter havido mesmo político nenhum ali, ausência total, debandada geral, área.

Há hora de estar junto e hora de estar longe. Político pondera e, conforme for, é capaz de dizer que o amigo deputado em desgraça da vez nunca foi um amigo assim tão dileto, sempre foi tratado à distância, convívio superficial, proximidade mínima.

O escândalo das hortas falsas da ONG contribuiu certamente. Não se falou de mais nada por semanas senão nos desvios, nos roubos. Horta em lugar nenhum onde deveria haver horta para alimentar os meninos, onde se dizia que havia horta e não se via porra de horta nenhuma. Tirar comida da boca de criancinha é o tal do negócio que incomoda, indigna, deixa a pessoa puta, o telespectador do jornal se revolta, xinga.

Se o deputado está envolvido com a ONG que surrupiou a verba que deveria ser direcionada para as hortas, aí é bem possível que não apareça absolutamente senador nem ministro, todos se afastando, evitando comprometimento, conexão, cumplicidade, vínculo.

Que se identificasse facilmente, que se olhasse e visse na lata que era deputado federal, isso não. Identificável a esse ponto só o ator da novela. Foi ele chegar e todo mundo saber que era ele, todo aquele frisson que não seria admissível nem mesmo se a presidente da República adentrasse, caso ela fosse, decidisse, ponderasse e não visse nenhum prejuízo, nenhum tiro no pé em deixar-se mostrar altaneira. A presidente, se tivesse achado recomendável e prudente participar, seria imediatamente reconhecida, e de igual modo seria totalmente impróprio qualquer zum-zum-zum semelhante ao que houve assim que o ator pôs os pés lá.

Que houvesse políticos, não mais do que praxe. O previsível seria vê-los, olhar e reconhecer, associar a pessoa ao cargo, não restar dúvida nenhuma. Eram esperadas autoridades do Senado e da Câmara e se alguma delas passou por lá um minuto que fosse escapou totalmente ao nosso controle.

A mulher do deputado se sentou entre a mãe divorciada e a sogra viúva e assim ficou até o momento vertiginoso em que, horas depois, se levantou de maneira incisiva, peremptória.

O pai da mulher do deputado ficou poucos minutos e se foi sozinho como veio. Deu-se ao trabalho de ir, embora, como a ex-mulher, não tivesse boa relação com o genro novo-rico e fizesse sérias restrições ao caráter duvidoso do marido deputado da filha, a quem o deputado em questão, diga-se, proporcionava vida de excessos, toda semana ela lá nos shoppings mais frescos atrás de roupas que causassem inveja às amigas, às primas, que evidenciassem seu elevadíssimo padrão econômico.

Não mais do que dez minutos depois de ter chegado, o pai divorciado se mandou de fininho. Mas, ainda que tenha estado tão pouco, não foi pouco o bastante para que não desse tempo a ele de também ver o ator da novela num lugar em que ele, pai da mulher do deputado, não esperava, como de resto todos nós, encontrar ator de novela nenhum.

Conto: Mario Garrone, foto 3

A mãe do deputado reparou (não só ela, mas quase todos) que o ator bebia e fez questão de demonstrar por olhares e meneios de cabeça que aquilo não era apropriado. Ela viu com desagrado e impaciência que o ator da novela estava meio bêbado, já tinha chegado bebum, isso sim, nem tão ereto em pé, um pouco bambo, o equilíbrio corporal deixando a desejar.

Primeiro foi o alvoroço de ver o ator da novela em pessoa, os celulares de alguns em ação para documentar o momento (se não se conseguia identificar um político que fosse, havia pelo menos o artista onde não se imaginaria que houvesse). Depois, não só a mãe do deputado se deu conta. Praticamente todos que o olhavam com curiosidade sentiram que o ator exalava álcool, se mantinha em pé a custo, tanto que logo se encostou na parede e lá ficou sozinho, ninguém com quem falar, os óculos escuros permanentemente sobre o nariz (o que os olhos do ator olhavam ninguém tinha como saber. Se os olhos focavam alguém, as lentes escuras impediam que se soubesse).

Mais uma vez a mãe do deputado se mexeu na cadeira com impaciência grave ao ver o ator se sentar no chão e abrir outra lata de cerveja. Um tempo pequeno em pé, um tempo muito maior sentado (o único a sentar no chão e a se comportar como se estivéssemos em um piquenique!).

Conto: Mario Garrone, foto 4

Ninguém tomou a iniciativa de se aproximar do ator da novela e dizer da inadequação completa de abrir sucessivas latinhas que ele trazia guardadas numa mochila, mas a todos, num momento ou noutro, pareceu abusiva, inconveniente e acintosa a ingestão da bebida (o que o fazia permanecer, insistir, não se dar conta do erro e sair para encher a cara lá fora no bar?).

Sim, em pé, quando chegou e todos o viram com surpresa e admiração excessiva. Logo mais, sentado, a bunda no chão e as costas e a cabeça apoiadas na parede. Por fim em pé outra vez, com esforço, cambaleante, em movimento lento, lentíssimo, um início de choro baixo, quase imperceptível, mudo.

A expectativa era encontrar políticos, autoridades, correligionários, esses homens que aparecem nos noticiários e negam participação nos desmandos, nas negociatas, nas fraudes, nos infindáveis conchavos espúrios, no envio criminoso de fortunas roubadas ao exterior.

Rente ao caixão pessoa nenhuma no momento em que o ator da novela decidiu que era a hora de voltar a se por em pé. Ergueu-se com dificuldade se apoiando na parede e todos acompanharam seu trajeto curto e trôpego como se assistissem a uma cena de teatro tomando forma ali diante dos nossos olhos (a mãe do deputado, a mulher do deputado e a mãe da mulher do deputado — a mulher do deputado um pouquinho mais —  se mexeram nas cadeiras com grande desconforto e irritação como se pressentissem o perigo iminente de um desastre, como se o que víamos fosse apenas o prólogo de todo o horror para o qual nenhum de nós haveria de estar preparado).

Uma vez em pé em movimento desalinhado, a mochila deixada lá no canto no chão, toda a atenção dos presentes ficou concentrada em seu andar claudicante em direção ao corpo do deputado.  Frente a frente com ele, permaneceu poucos minutos estático, os óculos escuros finalmente retirados do rosto. Em seguida, começou a acariciar vagarosa e minuciosamente as mãos, o rosto e os cabelos ralos do deputado.

A primeira reação veio da mãe do deputado (levantou-se e se dirigiu ao ator, que continuava a alisar com carinho e vagar o rosto do morto).

A mulher do deputado se levantaria minutinhos depois, sem dizer uma palavra, cabeça erguida, intrépida, e sairia altiva do local onde se velava o morto, sem olhar para ninguém, passos firmes e pesados de seus saltos altos a ecoar um som nervoso e retumbante (sua mãe tentou acompanhá-la, mas ela recusou qualquer contato das mãos no seu ombro e no braço, desviando o corpo com rapidez).

A mãe do deputado achou um absurdo, uma indecência, um acinte. Que liberdade era aquela do ator, aquela sem cerimônia de carinho dos dedos no rosto? Quase chegando ao caixão para dar um basta naquilo, foi surpreendida pelo beijo na boca. O ator, mais do que afagos e carícias, quis o beijo molhado.

Respeite a viúva! Há uma viúva, há os filhos! Há a família! Há a moral! Desencoste imediatamente essa boca!, disse a mãe quase ao ouvido do ator, de maneira dura e em tom baixo, mas não tão baixo que não nos tenha sido possível ouvir tudo.

Conto: Mario Garrone, foto 5

Os dois filhos sarados do deputado num primeiro momento ficaram paralisados (talvez pelo choque, pela incredulidade, pelo embaraço de ver o pai morto sendo beijado na boca por um homem).

Isso é torpe, imundo e vil! É um esculacho tremendo, um tapa na cara da mãe, da decência, da honra! Quem é você para vir aqui trazendo a imundície, o esgoto, a peste?!, continuou a dizer a mãe do deputado, a voz tentando ainda soar baixa, mas então muito mais audível e clara do que antes.

Arranquem esse homem daqui! Arranquem o pederasta!, disse em tom elevado, exaltadíssima, e olhando incisivamente para os dois netos musculosos prestes a dar um fim abrupto ao beijo (que se mantinha intacto, as duas bocas ainda coladinhas, juntas), a jogar o ator no chão com socos e a chutar-lhe preferencialmente   a cabeça com a cumplicidade de todos. Sejam dos que, em apoio irrestrito, entraram na luta com seus pés, seja dos que nada fizeram, além de gritar, e só chamaram a polícia e a ambulância quando quase nada mais poderia vir a ser feito.

 Mario Garrone

                    

Fotos: imagens Google

 


4 Comentários

Dinah Sales de Oliveira

maio 30, 2014 @ 18:15

Resposta

Maurício,
Muito bom o texto do Mario, como sempre!
Desde já, entro na sua campanha pela publicação de um livro de contos.
Ele deve ter outros belos textos na gaveta (ou no computador), né?

Vou propor um slogan pra campanha: Conta mais, Mario!

beijo
Dinah

Maurício Mellone

junho 2, 2014 @ 11:29

Resposta

Dinah:
o Mario me respondeu por e-mail
dizendo q o fato de ver publicado seus contos
já o incentivou a escrever mais outros para
uma futura edição.
Nossa campanha já começou e seu slogan será adotado!
rsrsr
bjs e obrigado pela visita, sempre constante e fraterna!

Marcelo Brettas

maio 30, 2014 @ 14:33

Resposta

Cativante mais esse conto do Mario. Leitor de todos os aqui publicados engrosso a campanha pelo livro de contos. O texto do Mario está se desenrolando cada vez mais fácil e fluido. Uma deliciosa leitura.

Maurício Mellone

junho 2, 2014 @ 11:31

Resposta

Marcelo,
fiquei muito contente ao saber
pelo próprio Mario q o Favo tem lhe ajudado
a escrever.
E concordo com vc: o texto dele vem ‘desenrolando’ com fluidez
com o passar dos ‘contos’.
Que venha o livro: nossa campanha já tem até slocan lançado pela
Dinah!!!
bjs

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