O fado gaiato de António Zambujo

De em setembro 9, 2011

Tadeu Nogueira, jornalista e um profundo conhecedor de música

Como venho fazendo nos últimos meses, solicitei ao jornalista Tadeu Nogueira, profundo conhecedor de música, que viesse dar sua valiosa contribuição ao blog. Ele aceitou e acaba de me enviar esta resenha sobre o trabalho do cantor português António Zambujo, que se apresentou semana passada em São Paulo. Tadeu, muito obrigado por esse texto delicioso de se ler!

Já pensou um fadista tocando uma Bossa Nova à la portuguesa ou cantando um clássico brasileiro dos anos 30, a valsa A deusa da minha rua (…Tem os olhos onde a lua / Costuma se embriagar… )? Pois este é António Zambujo. Um fadista português de 36 anos, contemporâneo, que não se limita ao fado. Ao contrário, vai além e até ao além-mar. Essas são apenas algumas pistas para se tentar entender o som do cantor alentejano. Lançando seu segundo CD em turnê pelo Brasil (outros dois, anteriores, ainda não saíram por aqui) passou por São Paulo para três concertos nos dias 3, 4 e 5 de setembro, no palco do Sesc Vila Mariana. Em cada noite ele contou com convidados de peso: Ney Matogrosso, Zé Renato e o saxofonista Zé Nogueira, respectivamente. Capa do CD Guia, de António Zambujo

António Zambujo repetiu em cena quase a mesma proposta minimalista dos discos: um violão discreto, uma guitarra portuguesa e um baixo acústico. Provando que menos é mais, brilha com a classuda arquitetura sonora dos arranjos, em que cada instrumento tem seu lugar preciso. Sem deixar de ser fadista competente (e com apreço pela tradição), Zambujo nunca se sentiu amarrado à fórmula consagrada e partiu para outros voos. Estes o levaram a descobrir pérolas do cancioneiro brasileiro, quase esquecidas por aqui. Assim é com o Poema dos Olhos da Amada, de Vinícius de Moraes, acompanhado somente por uma guitarra portuguesa, e a valsa já citada acima, sucesso no tempo de nossos avós, na voz de Silvio Caldas.
Zambujo ainda subverte com roupa de fado e dá novo frescor à triste Apelo do poetinha Vinícius: “Ah, meu amor não vás embora, vê a vida como chora…”

No disco anterior, de 2007, ele já dava mostras do repertório inesperado: gravou em ritmo de fado Quando tu passas por mim de Vinícius e Antônio Maria e Lábios que beijei, sucesso de Orlando Silva, também dos anos 30…

Navegando por mares mais atuais, ele também contempla a música de autores “de hoje”. Alguns achados se casam à perfeição com sua voz rara, como a canção Guia, que dá nome ao novo CD. O franco-brasileiro Pierre Aderne e Márcio Faraco compuseram esta pequena jóia de versos simples mas saborosos:

…Venci colinas de lágrimas
Desertos de água fria
Tempestades de lembranças.
Mas tu já não me querias mais…

Há qualquer coisa de João Gilberto em António Zambujo, talvez na presença carismática, porém discreta, em cena ou no cantar baixinho. Mas não é só pela proximidade com a música brasileira que gostamos dele. É também pelo talento com que trata sua matéria prima, sem medo de ousar em terreno tão tradicional. A canção Barroco Tropical, por exemplo, tem inequívoca levada de morna (ritmo caboverdeano). Talvez a letra do escritor angolano José Eduardo Agualusa tenha inspirado o baixista português Ricardo Cruz a compor uma melodia banhada na melancolia caboverdeana. Três países unidos pela língua comum.
Zambujo mostra ainda senso de humor inesperado para um fadista, ao cantar uma canção como Zorro ou o fado gaiato Readers Digest, pequenas crônicas engraçadas do dia-a-dia às voltas com as conquistas amorosas ou a vida pacata do cidadão comum. Mas ainda tem fados e canções escolhidas a dedo para seu fino trato.
Se não fosse nossa inexplicável surdez (ou soberba?) contra tudo que não seja nacional ou anglo-saxão não deixaríamos passar em branco jóias raras como essa.
Para ouvir na íntegra os discos de António Zambujo:
http://www.antoniozambujo.com/home.asp?zona=3&template=3&precedencia=0&idioma=1

Tadeu Nogueira


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