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O Testamento de Maria: peça retrata o lado humano da mãe de Jesus

De em janeiro 12, 2016

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Em espetáculo solo, a atriz Denise Weinberg interpreta Maria mãe de Cristo

O pontapé inicial da temporada teatral de 2016 não poderia ter sido melhor. Com o vigor e a intensidade que são característicos de sua atuação nos palcos, Denise Weinberg acaba de estrear no SESC Pinheiros O Testamento de Maria, peça inédita no Brasil do dramaturgo e jornalista irlandês Colm Tóibín, sob direção de Ron Daniels, que permanece com o projeto Repertório Shakespeare em cartaz na cidade.
Contando apenas com o músico Gregory Slivar a seu lado no palco, Denise dá vida a Maria: antes do mito e da figura ícone religiosa, o autor mostra o lado humano da mãe de Jesus, que no exílio questiona a crueldade dos romanos e dos anciãos judaicos com a crucificação de seu filho, bem como as atitudes dos discípulos d’Ele.

 

“Maria é uma mulher perseguida, pobre, quase uma prisioneira. Seu filho, ao se tornar uma espécie de líder revolucionário, sacrifica a sua vida por uma causa que Maria não entende e cuja morte lhe é insuportável, de tão horrível e absurda”, esclarece o diretor Ron Daniels, responsável pela adaptação e concepção do espetáculo.

Peça: O Testamento de Maria, foto 2

Denise conta com o músico Gregory Slivar, que executa a trilha ao vivo

Para um texto contundente e uma proposição inusitada — a de retratar Maria como mulher, viúva e mãe, ao contrário da imagem imaculada da progenitora de Jesus —, o diretor, que assina a tradução da peça em parceria com Marcos Daud, optou por uma montagem enxuta, com apenas uma cadeira como elemento cênico, enfatizando o conteúdo das palavras questionadoras da personagem, que desde o início da trama deixa claro que só fala a verdade.

Partindo deste pressuposto da verdade é que Maria — que se encontra exilada e confinada para ajudar os discípulos a escreverem os evangelhos —  ao relatar toda a trajetória de Jesus (ela confessa que não consegue chamar o filho pelo nome, somente por Ele) apresenta sua indignação, revolta e inconformismo com o rumo da história de vida da sua família. Além de denunciar a crueldade dos romanos e anciãos judaicos, Maria não sabe como venerar um ato tão violento cometido contra seu filho, a crucificação. Após a morte de Jesus, o questionamento dela é inclusive com relação ao comportamento dos discípulos, que pode beirar ao fanatismo.  Aqui o autor, mesmo que de forma involuntária, propõe uma reflexão sobre as atitudes dos fundamentalistas religiosos dos nossos dias.
Ron Daniels — que nasceu no Estado do Rio e começou sua carreira como ator e só depois se transferiu para Londres/Inglaterra, onde se tornou um diretor especialista em Shakespeare — afirma que baseou seu trabalho numa declaração do dramaturgo, em que pretendia dar voz a Maria sem reduzir sua estatura: “Eu me pus a imaginar como, em uma época turbulenta revolucionária, teria sido a vida de uma mulher que sofrera tanto e que fora tão frágil, antes de se tornar um mito”, argumenta Colm Tóibín.
Além da força do texto e da impactante concepção cênica, outro destaque da montagem é a participação do músico Gregory Slivar, que executa no palco sua trilha original, pontuando toda a narrativa. No entanto, O Testamento de Maria só ganha tamanha magnitude graças ao desempenho e a interpretação visceral desta grande atriz, que fala da satisfação com este trabalho:

 

“Numa época de desencanto, desânimo e descrença, esse texto veio me fortalecer, me impulsionar e confirmar minha crença na simplicidade, na dignidade do nosso ofício tão banalizado atualmente. E ainda esta peça me proporcionou esse maravilhoso encontro com Ron Daniels, um homem de teatro e apaixonado pelo oficio do ator. Só tenho a agradecer”, confessa Denise Weinberg.

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A atriz é dirigida por Ron Daniels

O espetáculo está em curta temporada (só até 13 de fevereiro) e numa sala de 98 lugares: procure organizar sua agenda e não deixe de assistir. O Testamento de Maria não só abre a temporada 2016 como será, sem dúvida, um marco da produção teatral brasileira deste ano.

 

 

 


Fotos: João Caldas Fº


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