Livro: obras de Gregorio Duvivier e Antonio Prata, foto 1

Os livros de Antonio Prata e Gregorio Duvivier se complementam

De em janeiro 15, 2015

Livro: obras de Gregorio Duvivier e Antonio Prata, foto 1

Obras de Gregorio Duvivier e Antonio Prata editadas pela Companhia das Letras

Nos poucos dias de folga do final de ano, procurei ‘tirar o atraso’ com a literatura brasileira contemporânea. Pude ler alguns livros já lançados e que me aguçavam a curiosidade, como Nu, de Botas, de Antonio Prata e Ligue os pontos poemas de amor e big bang, de Gregorio Duvivier, ambos editados pela Companhia das Letras.
Pensei em fazer duas resenhas, mas lancei um desafio a mim mesmo: unir os dois livros num único texto, mostrando as particularidades e nuances de cada obra, mas também identificar as identidades e como ambos se complementam. Se de um lado Antonio, com 37 anos, é paulistano, filho de escritores (Marta Góes e Mario Prata) e sua obra se passa em São Paulo, de outro Gregorio, com 28 anos, é carioca da gema, filho de músicos (Olívia Byngton e Edgar Duvivier) e tem a Cidade Maravilhosa como um de seus principais temas. Outra característica — o gênero literário escolhido — que aparentemente são opostas, na verdade se unem: Prata optou pela prosa e relata sua infância e Duvivier lança pela primeira vez um livro de poesias, mostrando sua visão adulta sobre sua cidade natal e seus amores. E as duas obras se aproximam justamente pelo tema central: tanto Prata como Duvivier expressam suas experiências de vida.

Livro: Gregorio Duviver e Antonio Prata, foto 2

Gregorio e Prata quando do lançamento de seus livros

Além do talento de ambos já reconhecido tanto pela crítica como pelo público, o humor também aproxima os dois escritores. Cronista de prestígio (já escreveu para o jornal O Estado de S.Paulo e hoje é colunista da Folha de S.Paulo) e autor de dez livros, Prata é roteirista de cinema e TV, tendo participado da equipe de autores da telenovela Avenida Brasil, de grande sucesso, inclusive pelo tom hilário de alguns personagens. Já Duvivier, também colunista do jornal Folha de S.Paulo, é formado em letras e começou sua carreira como ator atuando em TV, cinema e teatro (faturou inclusive o prêmio de melhor ator pela APTR em 2012); no entanto hoje ele é conhecido do grande público como roteirista e ator do maior fenômeno dos últimos tempos, o portal de humor da internet Porta dos Fundos, com uma audiência medida em milhões de acessos!
Nos dois livros destes jovens escritores o humor não poderia faltar, pelo contrário, está presente em diversos momentos. Em Nu, de Botas, além de provocar o riso, o autor, de forma ficcional, fala de sua infância, mas não do ponto de vista do adulto que revê o passado; o narrador tem o ponto de vista da criança, que se espanta com o mundo à sua volta e o traduz de maneira cômica, poética e cheia de mistérios. É assim quando confessa seu horror às cuecas, fala das brincadeiras de rua com seus amiguinhos, dos programas de TV dos anos 1980, da separação dos pais, da mudança de um amigo para outro bairro, das férias no interior na casa dos avós e da primeira paixão. Ao contar sobre o emprego da mãe, tive acesso de riso (me identifiquei muito, pois já fui ‘empregado’ na mesma editora que ela):

Livro: Gregorio e Prata, foto 3

Antonio Prata tem 10 livros publicados

Descobri que minha mãe trabalhava numa revista, para mim, eram as da Turma da Mônica, que eu folheava antes de aprender a ler. … Pedi que trouxesse algumas no dia seguinte. Não dava, ela me explicou. Infelizmente, não era dona da editora, apenas empregada. … Que empresa incrível devia ser aquela, que se dava ao luxo de ter minha mãe como empregada” (numa alusão à empregada que trabalhava na casa dele).

 

Selecionar poemas que revelam humor parece muito mais fácil em se tratando de Duvivier. O que sobressai em sua obra, no entanto, é o rigor e a criatividade de sua métrica, além do lirismo em dose exata.

 

felizes são as pessoas na foto/
de escola da minha avó/
que não sabem ainda/
que vão ser avós

e isso se tudo der certo/
e elas não morrerem antes

 

Livro: Gregorio e Prata, foto 4

Gregorio Duvivier é ator e roteirista do portal de humor Porta dos Fundos

Outro exemplo, agora do lado romântico de Gregorio:

“você é a ultima dos moicanos no pacote/
de jujubas a cereja do bolo no topo/
do milk-shake de creme de la creme

imagine um réveillon fora/
de época é você uma terça-feira de carnaval/
em plena sexta-feira da paixão e minha/
paixão é um sábado que não termina nunca.”

 
Com pleno domínio da linguagem e com o poder de enredar o leitor, Antonio Prata e Gregorio Duvivier me encantaram desde as primeiras linhas e, confesso, retardei o ritmo com que lia para ampliar o prazer da leitura! Se você ainda não leu, fica aqui minha dica de uma leitura leve e bem humorada para este início de ano.

 

Fotos: divulgação


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