Livro: Perifobia de Lilia Guerra, foto 1

Perifobia: contos de lirismo e contundência de Lilia Guerra

De em abril 16, 2018

Livro: Perifobia de Lilia Guerra, foto 1

Lilia Guerra lançou pela Editora Patuá o livro de contos ‘Perifobia’

Para minha satisfação e honra, abro o espaço do Favo do Mellone para a escritora, jornalista e, principalmente, minha amiga Nanete Neves falar de literatura. Autora dos livros De âmbar e trigo (Alink/16), O poeta e a foca (Pasavento/15) e Lavoura dourada (Évora/10), Nanete na primeira incursão aqui no blog falou da estreia na literatura do cantor e compositor Chico César; desta vez traz a escritora Lilia Guerra, que acaba de lançar pela Editora Patuá o livro de contos Perifobia. Boa leitura a todos, primeiramente da resenha e depois do livro.

Livro: Perifobia de Lilia Guerra, foto 2

Nanete Neves apresenta a nova escritora


Desponta uma nova escritora na cena literária: Lilia Guerra. Depois de participar de diversas antologias, ela acaba de lançar seu segundo livro solo, Perifobia, que a coloca no patamar de contistas brasileiros bastante aplaudidos. Com esse lançamento, Eduardo Lacerda, da Editora Patuá, comprova mais uma vez seu faro para novos talentos.
As cidades crescem e vão jogando para cada vez mais longe o que elas não querem ver, e aumenta o volume de pessoas que “fincam estacas na lonjura”, nas palavras da autora. Mas há poesia nas favelas e comunidades, há amor e até bom-humor nos puxadinhos e ladeiras dos morros. De uma forma ou de outra, contornando todo tipo de dificuldade, esses personagens vivem, amam, procriam, sempre sonhando com uma vida melhor.
Lilia Guerra conduz seus contos com a mão segura de quem conhece profundamente o universo do qual está falando, constrói personagens robustos, e com eles compõe um painel do que é a vida sofrida na periferia. Com muita propriedade, Lilia nos conta histórias da empregada doméstica explorada pela patroa e que um dia dá seu troco, dos garotos aviõezinhos do tráfico, dos malandros que buscam se dar bem na vida, ou se redimir, por meio de uma mulher, e até dos que espancam companheira e filhos. Em alguns deles, Lilia passeia com seu lirismo, já outros são um murro no estômago do leitor que reconhece a legitimidade do narrador, também ele personagem daquele cenário.
Comecei a ler o livro como se fosse de contos, mas aos poucos fui compreendendo que todo esse mosaico praticamente se constitui num romance — e fui me encantando com isso—, pois todos esses personagens acabam, de um jeito ou de outro, se relacionando. E é como se já os conhecêssemos todos. A vó judiada que desce o morro levando o netinho para a escola. O garoto faz-tudo que oferece para trabalhos miúdos para ajudar a alimentar os irmãos. Isabel, tentando entender Tiago, diz:


“Me deixa fazer parte da sua paz, vai? Deve haver uma linha pra mim no seu resumo”
. Rosalina “ajeitou os cobertores. Cheiravam a bolor e porcaria. Aconchegou-se ao lado deles. Era cedo. Estudou a imensidão do barraco, arquitetou melhorias. Abraçada aos filhos, pranteou mares, cautelosa por não assustá-los. Ligados por seus desamparos, sobreviveriam.”

 

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Lilia Guerra

 

Lilia Guerra é bem a prova da eficiência das boas oficinas de escrita que a cidade de São Paulo oferecia há até bem pouco tempo. E foi na Casa Mário de Andrade, incentivada por mestres diversos, que ela foi lapidando o talento para escrever suas emoções sempre à beira da pele. Infelizmente, hoje os governos (federal, estadual e municipal) não estão mais investindo em cultura, e os cursos de escrita oferecidos gratuitamente à população praticamente acabaram. Ainda bem que deu tempo de Lilia forjar seu estilo doce-contundente e provar, com esta obra, que tem muito a dizer e não apenas sobre o universo da periferia — no qual tem todas as chances de se tornar um expoente — como de outros temas. Sensibilidade e talento ela provou que não lhe faltam. A nós cabe esperar por mais.

Nanete Neves

 

 

 

 

 

Livro: Perifobia de Lilia Guerra, foto 4

 

 

Ficha técnica:                                                         
Título: Perifobia, contos
Autor: Lilia Guerra
Editora: Patuá, 312 pgs
Preço:
R$ 42

 

 

 

 

 

Fotos: divulgação


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