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Preto no Branco: comédia ácida inglesa escancara racismo e preconceito


Peça: Preto no Branco, foto 1

Marco Antônio Pâmio e Clara Carvalho interpretam o casal Jones da peça do britânico Nick Gill

Depois da temporada no Sesc Bom Retiro, o Núcleo Experimental reestreou o espetáculo Preto no Branco, do britânico Nick Gill, que fica em cartaz até o próximo domingo e retorna em janeiro para mais um mês de apresentações.
Com direção de Zé Henrique de Paula, a peça põe a nu posturas preconceituosas de  uma tradicional família inglesa  — branca cristã e de classe média —, quando a filha caçula (Bruna Thedy) leva o namorado negro de origem muçulmana para conhecer os pais e o irmão (Thiago Carreira). Ao ficar frente a frente com Kwesi (Sidney Santiago), os Jones escancaram o racismo, o preconceito e a intolerância, mas tudo com um tom natural e espontâneo, o que choca ainda mais o espectador.

Peça: Preto no Branco, foto 2

Bruna Thedy e Sidney Santiago vivem os namorados que alteram a relação familiar

A reação da plateia inicialmente é de riso, muito em função da caricatura do tradicional casal inglês, interpretado por Clara Carvalho e Marco Antônio Pâmio, e das situações patéticas daquela família. Aos poucos, no entanto, o espectador vai tendo noção do grau de intolerância e segregação exercida pelos Jones. O jovem dramaturgo confessa, no programa da peça, o misto de sensações que sua obra provoca:

 

 

“Com a montagem do Núcleo Experimental, me flagro com sentimentos contraditórios: sinto-me lisonjeado com a versão brasileira, mas fico triste ao ver que os aspectos culturais terríveis que me moveram a escrever são mais universais do que imaginava. É recompensador ver que a peça encontrou um público, mas esse prazer é temperado pelo reconhecimento de que a peça tem mais ressonância do que teria se o mundo fosse mais justo”, dispara Nick Gill.

 

 

Além do preconceito racial, Preto no Branco toca em outra ferida social. O Sr. Jones é um comerciante de armas e para expandir seus negócios muda-se com a família para o Oriente Médio e o futuro genro passa a ser seu assistente. Questões que envolvam ética (fomento à guerra e ao genocídio) passam a léguas de distância daquele núcleo familiar.

 

 

“O texto me interessou pela maneira como explora o racismo, com humor e ironia. A peça nos coloca frente a frente com nossos preconceitos e com uma estrutura social de classes em que há opressão do capital, colonialismo e segregação, elementos que, apesar de retratar uma realidade inglesa, são infelizmente universais e ecoam as manchetes dos jornais no Brasil de hoje”, argumenta o diretor Zé Henrique de Paula.

 
Se no início há risadas, da metade para o fim da peça o que prevalece é um silêncio constrangedor, pois as atitudes dos personagens ficam cada vez mais absurdas, violentas e irracionais, culminando com um final estarrecedor. Impossível sair da sala de espetáculos sem uma reflexão profunda sobre as atitudes das pessoas hoje. Além do texto corrosivo de Gill, o espetáculo se destaca por uma direção que sabe conduzir uma trama recheada de armadilhas e dissonâncias e pela sintonia do elenco.

Com duas indicações ao prêmio APCA/14 (direção para Zé Henrique de Paula e atriz para Clara Carvalho), Preto no Branco retorna aos palcos em janeiro e com uma substituição: Chris Couto assume o papel da matriarca Jones.

Fotos: Ronaldo Gutierrez

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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