Regina Braga brilha mais uma vez no monólogo Um Porto para Elizabeth Bishop

De em junho 11, 2011

Regina Braga num dos grandes papéis de sua carreira

Porto, na concepção literal, é local onde alguém pode descansar e se sentir seguro; ter refúgio, guarida, proteção. Foi tudo isso que Elizabeth Bishop encontrou no Brasil, quando chegou em Santos no início dos anos 50 e por aqui permaneceu durante 15 anos. Para se livrar da depressão e se curar do alcoolismo, a poeta norte-americana viaja pela América do Sul e a convite de Lota Macedo Soares é sua hóspede no Rio. O que seria uma breve passagem pelo Brasil torna-se o período mais importante de sua vida: aqui sua produção literária foi intensa, foi quando recebeu o Prêmio o Pulitzer, e pessoalmente viveu um grande amor, ao lado de Lota, uma das mais importantes paisagistas brasileiras, que se notabilizou por fazer parte da equipe que construiu o Aterro do Flamengo.
Marta Góes no monólogo Um Porto para Elizabeth Bishop (em cartaz no Teatro Eva Herz até o final desse mês) mais do que retratar a carreira e a vida da escritora, traça um paralelo entre essa uma mulher e o Brasil. Com um olhar de estrangeira e querendo entender o modo de vida do brasileiro, Elizabeth faz críticas ao caos reinante no país, ao mesmo tempo em que se encanta pela nossa beleza natural e pela emoção e o carinho acolhedor do povo. “Como o brasileiro sabe cuidar de uma pessoa doente”, é uma das falas da poeta quando relata uma de suas crises vividas aqui.
Se Bishop de 1951 a 1966 em que esteve entre nós viveu um grande amor, reconstruiu sua carreira literária e se sentiu segura para voltar aos Estados Unidos, o Brasil passou também por grandes mudanças. Do apogeu nos anos JK, com destaques na música, cinema, teatro, arquitetura, o país sofreu com o golpe militar e o obscurantismo que se seguiu nos anos de chumbo. Com leves pinceladas, Marta nos oferece esse retrato do Brasil sob o olhar e o perfil da escritora norte-americana.
Esse retrato só se torna vívido graças ao talento de uma grande atriz e as mãos hábeis de um diretor tarimbado. Após 10 anos e para comemorar o centenário de nascimento da poeta, Regina Braga retoma a parceria com José Possi nesse trabalho que rendeu diversos prêmios na época. Encantada pelo tema da peça Regina confessa:
“Sempre soube que voltaria a fazer Bishop. Em 2001 tinha um olhar mais jovem para a personagem. Ter a oportunidade de fazê-la uma década mais tarde me instiga a buscar uma interpretação mais madura”.
Impossível não fazer comparações entre as duas montagens. Além do amadurecimento de todos — mais velho, pude entender melhor a visão da perda e a luta interior para vencer os próprios fantasmas que a escritora relata —, há mudanças físicas de teatro que modificaram a relação palco plateia. Se o cenário de Jean-Pierrre Tortil no Sesc Consolação ganhava dimensões grandiosas (o público percebia o navio chegar no porto de Santos), dessa vez tudo é reduzido, mas não por isso menos intenso. Perde-se espaço, mas ganha-se em intimidade e cumplicidade. Com uma luz delicada de Wagner Freire, Regina de move com leveza e seu tom de voz, principalmente ao final, é quase aos sussurros, podendo ouvir o soluço da plateia. O meu, se não foi ouvido é por que consegui conter!
Fotografia: João Caldas


8 Comentários

Carla Albuquerque

janeiro 12, 2012 @ 17:25

Resposta

Olá, tudo bem?
Não tenho certeza se terás resposta para minha pergunta, mais provável que não, mas decidi tentar assim mesmo. Sabes se a peça volta a cartaz em 2012? E se há alguma previsão de viajar por outras capitais (sou de Porto Alegre)? Ou onde eu poderia encontrar essas informações? Desde já, te agradeço. Um abraço, Carla

Maurício Mellone

janeiro 13, 2012 @ 14:55

Resposta

Carla:
Infelizmente não tenho como te responder; aos poucos as produções teatrais estão
voltando a ser encenadas aqui em Sampa, depois do período das festas de fim de ano.
Porém, se irá a Porto Alegre, não sei mesmo dizer; uma dica, pesquise na net (pelo nome da
peça ou do grupo), site das produções geralmente indicam a turnê do espetáculo.
Boa sorte e obrigado pela visita. Volte sempre,
bjs

marta goes

outubro 12, 2011 @ 12:01

Resposta

Maurício,
Obrigada pelo lindo comentário sobre Um porto para Elizabeth Bishop.
Desculpe a demora em me manifestar. Como deve ter notadp, sou uma
frequentadora tào esporádica do facebook que nem psso me considerar frequentadora.
Beijo,
Marta

Maurício Mellone

outubro 13, 2011 @ 15:11

Resposta

Marta:
Eu que agradeço pela sua atenção! A peça é linda, emocionante!
Já que vc entrou aqui no blog, visite-me outras vezes, terei o maior prazer!
Fiz uma resenha sobre o livro da Laïs de Castro, que vc fez a apresentação.
bjs e sucesso!

Zedu Lima

junho 13, 2011 @ 14:15

Resposta

Maurício:
Impressionante como, entre as pessoas, os sentimentos, as visões e a compreensão sobre uma mesma coisa, são, felizmente, diferentes e até opostas. Fui assistir a esta segunda montagem de “Um Porto para Elizabeth Bishop” no fim de semana da estreia e, ao contrário de você, não saí em estado de graça, como aconteceu na primeira vez que vi.
Dois motivos básicos relativizaram minha emoção. A primeira foi a cenografia. No seu blog, você aponta: ‘se o cenário de Jean-Pierrre Tortil no Sesc Consolação ganhava dimensões grandiosas (o público percebia o navio chegar no porto de Santos), dessa vez tudo é reduzido, mas não por isso menos intenso. Perde-se espaço, mas ganha-se em intimidade e cumplicidade’. Eu não senti essa intimidade nem me envolvi nessa cumplicidade. Tenho absoluta certeza que, se tivesse visto pela primeira vez esta atual versão, me envolveria sem cobrança. Mas não me sai da cabeça aquele cenário da primeira, que me transportava literalmente para a casa da Lota e para a floresta de Petrópolis; aquela bacia de água no palco que, na versão atual, está escondida por um recurso técnico-cenográfico. Naquele momento em que ela chega e tira o casaco e não sabe onde colocar e joga ao chão, me incomocou muito. Custava colocar um valete no cenário?!.
Foi o mesmo desconforto que senti em “Espectros” (direção aquém do texto e mais um vez a Clara Carvalho prova que não tem força para interpretar grandes heroínas), quando as louças são retiradas da mesa e colocadas no chão! Esse tipo de improviso não aceito numa montagem grandiosa como aquela, onde um grande portal se movimenta para nada (não reflete mudança de espaço nem de tempo).
Mas voltando ao Porto Seguro, outra fator que me deixou menos satisfeito foi a Regina Braga, que, na noite em que assisti, estava nervosa, insegura, se perdendo no texto. Depois, ao ver sua entrevista no Vitrine da TV Cultura, até entendi. Humildemente ela confessou ao Cunha Jr. que, na estréia, ela se desconcentrou com um fotógrafo que não parava de fotografar as cenas, e pulou uma cena inteira. Quando percebeu, disse ela na entrevista, teve vontade de desmaiar. Como isso não aconteceu, pediu para parar, pediu ajuda ao Possi, que estava na platéia, e recomeçou de onde tinha errado.

Em compensação sai emocionado até as lágrimas, gratificado por ter tido o privilégio de assistir e esperançoso por saber que tudo aquilo que vi foi obra de um jovem de 28 anos. Estou falando de “O jardim”, no Sesc Belenzinho. IMPERDÍVEL. Ele também fala de memória, de perdas materiais e emocionais, mas tão brilhantemente que não dá para esquecer. Vá assistir.
Beijos,Zedu

Maurício Mellone

junho 13, 2011 @ 14:24

Resposta

Zedu:
Concordo com vc e há o ditado famoso sobre a unanimidade, que é burra.
Bom termos opiniões diversas. Mas vou tentar contestar alguma coisa: vc não teve
sorte ao assistir a estreia de ‘Porto’ justamente no dia em que a Regina Braga estava nervosa
e apreensiva com o fotógrafo q a incomodava. Na sexta, quando assisti, uma pessoa da produção pediu para não
só desligassem os celulares como guardassem sacolas de plástico debaixo das cadeiras para não incomodar a
concentração da atriz (talvez por isso da falha na estreia).
Sobre Espectros, também discordo de vc, pois o portal móvel do cenário provoca mudança de espaço sim: estando na frente é o fundo da casa
e quando movimentado para atrás do palco a casa é vista pela frente.
Fiquei com muita vontade de conferir O Jardim. Ótima dica e muito obrigado por sua participação constante aqui!
Bjs

Imad

junho 11, 2011 @ 17:19

Resposta

Depois dessa resenha, nada mais há a ser lido sobre a peça. A única opção que temos é de ir direto ao teatro e curtir esse trabalho cujos temas certamente dão muito que pensar. E verificar que também ela, grande escritora, se rendeu às graças do Rio de Janeiro, que tem inegavelmente um apelo muito especial, seja pela paisagem exuberante, seja por seu povo bastante acolhedor.

Maurício Mellone

junho 13, 2011 @ 14:30

Resposta

Imad:
Obrigado pelos elogios, fiquei mesmo encantado com o trabalho da Regina Braga, merecíamos rever um texto tão sensível
e envolvente como esse da Marta Góes. Cumpra sua promessa e vá assistir!
bjs

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