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Renato Borghi está à frente da nova montagem de Os Sete Gatinhos


Renato Borghi é Noronha, um austero e moralista pai de família

O lendário Teatro de Arena Eugênio Kusnet abriga a mostra “Quem Ainda tem Medo de Nelson Rodrigues?”, com montagens das principais peças do dramaturgo que completaria 100 anos se estivesse entre nós. No último final de semana, o diretor Nelson Baskerville estreou nova montagem de Os Sete Gatinhos, peça de 1958, que traz no elenco Renato Borghi, Élcio Nogueira, Roberto Arduin, Roberto Borenstein, Willians Mezzacapa, Michel Waisman, Gabriela Fontana, Caroline Carreiro, Greta Antoine, Debora Veneziane e Adriana Guerra.
O polêmico e revolucionário teatro de Nelson Rodrigues é conhecido por sua crítica voraz aos costumes da classe média carioca, mais precisamente do subúrbio do Rio de Janeiro dos anos 40 e 50. Em Os Sete Gatinhos, o dramaturgo utiliza um artifício já criado em A Falecida, peça de 1953: o protagonista da trama, Noronha vivido por Borghi, é líder da igreja Teofilista, em que o luxo é pecado e há um moralismo exagerado, além de seus devotos receberem mensagens dos mortos.

Noronha (Borghi) e Aracy (Élcio Nogueira) educam as filhas com mão de ferro

 

 

Na montagem atual, o público entra na sala de espetáculo com todo o elenco em cena, num misto de ritual religioso e/ou festa pagã: todos dançam ao som de atabaques e o protagonista serve cafezinho ao público. Já no clima, a plateia é envolvida nas regras moralistas e tirânicas que Noronha mantém a família: contínuo da Assembleia Legislativa, ele em casa leva todos com pulso firme e obriga as quatro filhas mais velhas se prostituírem para que a cerimônia de casamento da caçula, a virgem Silene interna do colégio, seja inesquecível e de pompa.
No entanto, tudo começa a desmoronar com a visita do diretor do colégio. Ele tem dois comunicados a fazer: o primeiro que Silene matou uma gata, grávida de sete gatinhos, na frente de todos no colégio; o segundo, mas destruidor ainda, que a garota está grávida e acaba de ser expulsa da instituição. Pronto, é o que bastava para as máscaras daquela família ruírem. Abuso sexual do próprio pai a todas as filhas, a mãe, Aracy/Gorda interpretada por Élcio Nogueira, rejeitada pelo marido tem como único prazer escrever pornografia no banheiro e a devassidão de todas as filhas vem à tona.
Para o diretor, a montagem dá ênfase tanto à discussão religiosa como para o humor do texto:


“Estamos passando por um retorno de padrões morais e religiosos rígidos, em que a liberdade fica ameaçada por câmeras, igrejas a cada esquina e sacerdotes cada vez mais ensandecidos.  Nelson Rodrigues diz que
a liberdade é mais importante que o pão. Sabemos que a religião, levada às últimas consequências,  emburrece o homem e tira dele o que melhor existe na vida, seu livre arbítrio”, afirma Baskerville.

 

Só se pode enaltecer a iniciativa da mostra comemorativa a Nelson Rodrigues: as novas plateias precisam ter acesso ao teatro e às idéias rodrigueanas. No entanto, alguns temas desenvolvidos pelo dramaturgo, acredito, tenham ficado datados e muito presos ao seu tempo. A valorização da virgindade, por exemplo, mesmo sendo tratado com viés crítico, é um tanto ultrapassado em pleno século XXI , num momento em que as relações afetivas estão num outro patamar de discussão.

Fotos: Bob Sousa

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