RSS FACEBOOK TWITTER

Salamaleque: resgate da saga de uma família de imigrantes sírios


Peça: Salamaleque, foto 1

Na peça, idealizada pela atriz, Valéria Arbex vive uma descendente de imigrantes árabes

Salamaleque, espetáculo solo idealizado e interpretado por Valéria Arbex em cartaz no Instituto Cultural Capobianco, desperta a curiosidade do público exatamente por ser inusitado: a plateia, constituída por apenas 40 pessoas, é convidada a participar da celebração de Elizete (vivida por Valéria). Tendo como cenário uma cozinha de um galpão abandonado da Rua Florêncio de Abreu, a personagem chega da rua e, ao perceber que os convidados já chegaram, desculpa-se pelo atraso e entra.
De maneira informal como se os espectadores estivessem com ela na cozinha que pertenceu a sua avó, Elizete começa a contar a saga da família, imigrantes sírios — e não turcos, ressalta — que começaram a chegar ao Brasil no período compreendido entre as duas guerras mundiais. O interessante é que enquanto conta a história familiar por meio das cartas de amor trocadas entre os avós, durante o noivado, ela prepara algumas comidinhas da culinária árabe, que ao final da história são degustados pelos presentes.

Peça: Salamaleque, foto 2

O texto é uma mistura de fatos reais da família da atriz com ficção

Os espectadores ficam presos à trama tanto pela linda história do casal como pelos aromas dos pratos e bebidas, preparados na hora. O texto, com dramaturgia de Alejandra Sampaio e Kiko Marques, tem como base as cartas que Valéria ganhou de sua mãe após a morte da avó; essas cartas revelam o romance entre Nadine e Nicolau, seus avós. Segundo ela, o espetáculo une as histórias familiares com uma vasta pesquisa realizada com descendentes de imigrantes sírios, libaneses e palestinos:

“A peça é uma colcha de retalhos de histórias que ouvi, da memória de minha família, da pesquisa gastronômica e histórica que fiz. No final, este trabalho é uma reverência aos imigrantes, é um caminho de volta à minha origem, um reencontro”, conta Valéria Arbex.

O que também me chamou a atenção no espetáculo é a correlação da experiência de vida da personagem com a de seus avós: se antigamente as cartas eram os meios de comunicação utilizados, hoje sãos os e-mails e mensagens eletrônicas, que Elizete troca com o cônsul que a ajuda traduzir as cartas. E o sentimento amoroso também nasce desta troca de correspondência contemporânea e tecnológica!

 

Peça: Salamaleque, foto 3

Valéria é dirigida pelos atores Denise Weinberg e Kiko Marques

A plateia paulistana geralmente é contida e reservada. Nesta peça isto fica evidente, pelo menos no dia em que assisti: como ao final a personagem convida a todos para experimentarem os pratos e diz que volta em seguida, os espectadores ficaram sentados, sem saber ao certo o que fazer. Foi preciso outra pessoa da produção entrar e reafirmar o convite para que todos fossem à mesa!
Além do horário diferenciado (sábados e domingos, às 16h) e o aspecto inusitado da montagem, Salamaleque se destaca pelo cenário envolvente de Chris Aizner, pela bela iluminação de Guilherme Bonfanti e pela direção sensível de Denise Weinberg e Kiko Marques, que por serem atores souberam deixar Valéria de maneira solta e espontânea em cena. A mistura de fatos reais e pessoais da atriz com ficção requer técnica e muita sensibilidade e Valéria desempenha este papel com maestria.
Uma dica final: como são apenas 40 lugares e os ingressos são gratuitos, reserve sua entrada antes de ir ao teatro: tel. 11 97499 4243 / email ciateatraldamasco@gmail.com.

 

Fotos: Lenise Pinheiro

, , , ,

Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


Ver todos os posts de Maurício Mellone »

Nenhum comentário ainda.

Deixe uma resposta