Peça: Três dias de chuva, foto 1

Três Dias de Chuva: Jô Soares dirige peça com histórias de 2 gerações

De em julho 29, 2013

Peça: Três dias de chuva, foto 1

Otávio Martins, Carolina Ferraz e Petrônio Gontijo vivem dois personagens cada um na peça de Richard Greenberg

Num grande telão onde é projetado um vídeo da cidade de Nova York com cenas das posses dos presidentes norte-americanos — (década de 60- Kennedy, década de 70- Nixon, década de 80- Reagan e década de 90- Bill Clinton) — a peça de Richard Greenberg, Três Dias de Chuva, em cartaz no Teatro Raul Cortez começa exatamente em 1995.
Num loft antigo, os irmãos Walker e Anna, interpretados por Otávio Martins e Carolina Ferraz, que não se viam há um ano depois da morte do pai, se reencontram para irem à partilha dos bens da família. Eles encontram um velho diário do pai e, entre lê-lo ou não, decidem ir ao encontro de Pit, vivido por Petrônio Gontijo, filho do sócio do pai que também foi chamado para a abertura do testamento.
Com este mote, a peça, escrita em 1997 e só agora encenada no Brasil, é um grande quebra-cabeça, pois no segundo ato há um recuo de mais de 30 anos, em que os pais destes personagens é que estavam no início da carreira e todo o conflito da trama é engendrado.

Peça: Três dias de chuva, foto 2

Petrônio, Carolina e Otávio são dirigidos por Jô Soares, que também adaptou e traduziu o texto

Mesmo a trama tendo dois momentos históricos distintos, o cenário é o mesmo e um grande atrativo da montagem: Marco Lima criou um ambiente em que há três dimensões, o interior do loft, o fundo externo e a frente do prédio. No início, o local está meio abandonado, mas é lá que Walker se identifica e encontra o diário do pai (escrito em forma de códigos), que vai ajudar a decifrar história de duas gerações, a sua e a de seus pais.

 

“Falamos de família, de relação entre gerações. O que está em jogo é a palavra amor, em todos os sentidos”, conta Otávio Martins, que vive Walker e o pai dele, Ned.

 

Dentro desta concepção, Petrônio, que interpreta o ator de TV Pit e seu pai, Theo, arquiteto e sócio de Ned, tem uma definição peculiar sobre a trama:

“Penso que é extremamente difícil uma geração passar à outra o cerne do que realmente aconteceu. Esta peça fala sobre isto, ousando romper o tratado entre o tempo e o espaço”, diz o ator.

 

Carolina também interpreta duas personagens: vive a irmã de Walker e Nina, namorada de Theo. Além da diferença de temperamento e visão de mundo entre os dois arquitetos, Nina vai alterar profundamente a relação entre eles.

 

“Temos um grande texto nas mãos, cheio de sutileza e curvas suaves, com descobertas muitas vezes desconcertantes. Vejo neste trabalho uma grande oportunidade como atriz de me superar, me reinventar”, confessa Carolina.

 

Peça: Três dias de chuva, foto 3

A peça foi escrita em 1997 e só agora é encenada no Brasil

Na direção, Jô Soares, que também assina a tradução e adaptação da peça, foi hábil em pontuar os conflitos e as nuances de cada personagem. Na volta para o segundo ato, novamente o vídeo é projetado, só que desta vez retrocedendo no tempo, o que facilita na compreensão da narrativa.
Fiquei muito impressionado com o rigor e a riqueza de detalhes com que os atores delinearam seus personagens. De um ato para outro, o público sente o árduo trabalho de composição dos atores. Talvez por ter assistido na estreia para convidados, senti que falta ritmo ao espetáculo. Mas como a temporada é longa (em cartaz até o fim do ano), Três Dias de Chuva tem tudo para agradar o grande público, pois fala da relação amorosa que une a todos nós. Destaque ainda para a iluminação de Maneco Quinderé e os figurinos de Fabio Namatame.

Fotos: Priscila Prade


6 Comentários

Walkiria

julho 31, 2013 @ 11:07

Resposta

Mau, é uma delícia ler suas resenhas.
Você descreveu com tantas minúcias que me vi no teatro novamente vendo a peça. Adorei. Bjs

Maurício Mellone

agosto 1, 2013 @ 14:40

Resposta

Walkíria:
Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
Fico muito feliz com este tipo de retorno, pois
sinto q estou no caminho certo, o de tentar fazer com que o
leitor se interesse pela peça, filme, disco/show ou exposição
e vá conferir.
Bjs e até a próxima estreia!

Ed Paiva

julho 29, 2013 @ 17:10

Resposta

Maurício,
Ao ler sua resenha relembrei-me da trama, que confronta duas gerações e que nos deixa com uma suave e amarga melancolia. Observarmos que muito do que pensamos e agimos torna-se indecifrável mistério para os que nos sucedem. Assim, uma sucinta frase que poderia ser sentida como poesia, torna-se aos olhos futuros vazia de conteúdo. E o que nos motiva à vida, as emoções, o amor, os lampejos de genialidade, se desbota.
O cenário realmente é fabuloso: milimétrico, realista ao extremo. A iluminação ressalta essas características e dá um show nos momentos de chuva. Os atores estão ótimos, mas Otávio Martins constrói dois personagens tão distintos que parecem interpretados por pessoas diversas. Sua caracterização para o ‘pré-nerd’ Ned foge da caricatura fácil e o torna palpável, crível. Uma aula de interpretação.
Abraço!

Maurício Mellone

julho 30, 2013 @ 14:10

Resposta

Ed:
Muito obrigado por sua valiosa contribuição, seu comentário
aguça ainda mais a vontade do leitor de assistir ao espetáculo.
Concordo com vc em tudo; o Gontijo tb deixa bem distinto o Pit de
seu pai Theo. Já a Carolina tb traz nuances diversos para Anna e Nina.
O Otávio é impressionante mesmo na pele do Ned. Ótimo trabalho de composição
dos atores!
Volte sempre, nós todos adoramos sua participação aqui!
bjs

Fábio Mráz

julho 29, 2013 @ 15:29

Resposta

Perfeita a tua colocação sobre o trabalho dos atores. Realmente é notável a preparação e a entrega, pois em um intervalo de 15 minutos apenas, surgem transformados em novos personagens. Os três estão perfeitos mas saliento a trasnformação do Otavio de ‘Walker’ para ‘Ned’. Trabalho primoroso do ator.
😉

Maurício Mellone

julho 29, 2013 @ 15:49

Resposta

Fábio:
Concordo com vc sobre a composição de cada personagem pelos atores.
Obrigado pela visita e o apoio.
bjs

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