RSS FACEBOOK TWITTER

Visitando o Sr. Grenn: nova montagem é dirigida por Cassio Scapin


Peça: Visitando o Sr. Green, foto 1

Ricardo Gelli vive o executivo Ross Gardner e Sergio Mamberti o ranzinza Sr. Green

Já encenada em 45 países, a premiada peça do dramaturgo norte-americano Jeff Baron, Visitando o Sr. Green — em cartaz no Teatro Jaraguá —, ganha nova montagem brasileira e deve repetir o sucesso de 15 anos atrás, quando foi interpretada pelo grande e saudoso Paulo Autran e Cassio Scapin, com direção de Elias Andreato. Desta vez Scapin muda de lado e dirige a volta de Sergio Mamberti aos palcos depois de um afastamento de 12 anos; a seu lado agora Ricardo Gelli.
Com delicadeza e ao mesmo tempo uma acirrada defesa de opiniões antagônicas, a trama revela a difícil construção de uma amizade entre o judeu ortodoxo e ranzinza Sr. Green (Mamberti) e o executivo Ross Gardner (Gelli), que provocou um pequeno acidente nas ruas de Nova York, machucando o idoso. Como pena, o rapaz é obrigado a cumprir um serviço comunitário de visitar a vítima uma vez por semana, durante seis meses, mesmo a contragosto de Sr. Green. O embate inicial desencadeia uma aproximação entre eles.

Peça: Visitando o Sr. Green, foto 2

Mamberti volta aos palcos depois de 12 anos afastado

O grande trunfo do texto de Baron é que o autor sabe dosar muito bem humor e dramaticidade: de forma sutil e com tiradas engraçadas, o espectador se vê diante graves traumas interiores dos dois personagens. A princípio, Sr Green é arredio à presença de Ross, mas passa a aceitá-lo quando sabe que ele também é judeu; eles começam a se entender até quando o rapaz confessa ser gay. Green reage de maneira irracional e despeja todo seu preconceito e intolerância com a condição de vida do rapaz. Por sua vez, Ross descobre que o velho judeu esconde segredos terríveis: ele nunca aceitou que a filha tenha se casado com um não judeu e simplesmente ignora a vida dela.
Deste encontro (a princípio forçado), ambos se modificam. Pressionado pelo novo amigo, Sr Green é obrigado a rever conceitos e enxergar a vida com outros olhos, mesmo com seus 86 anos. E Ross, ao se mostrar inteiro ao velho senhor e defender a diversidade, melhora a autoestima e, principalmente, consegue lidar com a figura masculina mais velha, ao contrário da relação com seu pai, com quem vive em conflito permanente.

Infelizmente a intolerância e o preconceito (de ordem religiosa, étnica, sexual) ainda perduram pelo mundo, vide as guerras recentes e a discriminação reinante até hoje. A contribuição de Visitando o Sr. Green é exatamente esta: mostrar a irracionalidade destes preceitos:

“A força dessa comédia dramática é a de suscitar uma discussão sobre o caminho da aceitação do ser humano na sua pluralidade e respeito às diferenças”, argumenta Cassio Scapin no programa da peça.

 

Peça: Visitando o Sr. Green, foto 3

Gelli e Mamberti ao lado do diretor Cassio Scapin

Com um texto contundente e a direção que consegue evidenciar as sutilezas da trama, esta nova montagem se engrandece graças à sintonia da interpretação dos atores. Como é enriquecedor ver o embate de dois personagens que se opõem defendidos por grandes e talentosos atores, de gerações distintas. Tive o privilégio de assistir ao espetáculo na pré-estreia e pude constatar a emoção de Sergio Mamberti ao final, quando dedicou o trabalho a Paulo Autran e confessou sua alegria por voltar aos palcos, sua verdadeira vida.

A temporada está prevista até julho, mas com certeza Visitando o Sr. Green terá novamente uma trajetória longa. Imperdível!


 

Fotos: Ale Catan

, , , ,

Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


Ver todos os posts de Maurício Mellone »

Nenhum comentário ainda.

Deixe uma resposta