De Maurício Mellone em abril 28, 2026
Peça do dramaturgo russo Ivan Viripaev, A linha solar, escrita em 2018, encenada em vários países europeus, além de versões nos EUA e na Coreia do Sul, recebe a primeira montagem no Brasil. Com direção de Marcelo Lazzaratto, o espetáculo acaba de estrear no CCBB/SP e traz no elenco Carol Gonzalez e Chico Carvalho.
A trama tem como foco central a discussão do casal Barbara e Werner, que vivem juntos há 7 anos e estão em crise. O inexplicável é que eles não querem permanecer casados, mas ao mesmo tempo não encaram a possiblidade da separação. Num misto de drama e comédia, o texto no fundo discute a dificuldade de comunicação das pessoas na sociedade contemporânea.
“Fiquei encantado com o fato de Viripaev traduzir tão bem, em palavras, situações tão comuns para os casais. Observamos as pessoas se digladiando nesses momentos, experimentando um sofrimento absoluto enquanto estão no meio da tempestade. O autor faz um verdadeiro mergulho na complexidade humana”, afirma o diretor Marcelo Lazzaratto.
Num palco vazio, delimitado como se fosse um tabuleiro de jogos, e apenas duas cadeiras giratórias, Barbara e Werner estão há horas discutindo a relação; eles evidentemente estão passando por uma crise conjugal aguda. Estão num cômodo da casa e de forma insistente eles dizem que são 5 horas da madrugada. A discussão continua acalorada, mas o relógio marca sempre a mesma hora.
“O espetáculo parece apostar em uma estética e em uma linguagem realista. No entanto, quanto mais a peça progride, percebemos que Viripaev flerta com o teatro do absurdo e o surrealismo. Durante a conversa, o casal explicita tanto a violência quanto a irracionalidade cotidiana. Enquanto isso, o relógio de cena marca sempre o mesmo horário”, explica Carol Gonzalez, que além de dividir o palco com Chico Carvalho, é a idealizadora do projeto e diretora de produção.
A discussão entre Barbara e Werner não tem fim e o autor faz questão de que os diálogos sejam recheados de questionamentos sobre a vida a dois, ao mesmo tempo que o humor esteja sempre presente. Alguns espectadores riem, mas parece aqueles risos nervosos, talvez por terem se identificado com o drama do casal da trama.
Um aspecto que chama a atenção na montagem é o efeito da iluminação: além de pontuar as brigas, há momentos que aparece uma linha solar (em referência ao título da peça), que evidencia a distância entre Barbara e Werner.
No entanto, o que sobressai do texto de Viripaev é a incompreensão: primeiro entre o casal e, com o desenrolar da trama, a falta de compreensão se estende para a realidade, para o universo e para a existência humana. A incompreensão e dificuldade de se comunicar são traços da sociedade contemporânea, vide as guerras e atritos mundo afora.
O dinâmico jogo cênico e a sintonia entre Carol Gonzalez e Chico Carvalho são os grandes destaques da montagem. E o desfecho proposto pela direção incita ainda mais a reflexão do espectador, tanto para o drama do casal como para o nosso cotidiano. O espetáculo permanece em cartaz até 17/05; para mais informações, siga a página da peça no Instagram:
Roteiro:
A linha solar. Texto: Ivan Viripaev. Tradução: Elena Vássina e Aimar Labaki. Direção geral: Marcelo Lazzaratto. Assistência de direção: Marina Vieira. Elenco: Carol Gonzalez e Chico Carvalho. Iluminação: Marcelo Lazzaratto. Direção de arte: Simone Mina. Trilha sonora original: Eddu Ferreira. Fotografia: Bob Sousa. Equipe de produção: Laís Machado e Pedro de Freitas. Idealização e direção de produção: Carol Gonzalez. Realização: Sangiorgi e Gonzalez Produções.
Serviço:
Centro Cultural Banco do Brasil/SP (120 lugares), Rua Álvares Penteado, 112, tel. 11 4297-0600. Horários: quinta, sexta e segunda, às 19h; sábado, domingo e feriado às 18h. Ingressos: R$30 e R$15. Duração: 70 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 17/05/2026.
2 Comentários
Adriana Bifulco
maio 4, 2026 @ 14:21
Querido, esse espetáculo não poderia ser mais atual, abordando temas como incompreensão e a dificuldade de comunicação, presentes em todos os aspectos da vida. Deve ter sido muito curioso notar algumas pessoas rindo de nervoso enquanto os personagens falavam sobre as dificuldades do relacionamento. Todos param para pensar no seu próprio, incrível! Mais uma resenha deliciosa, obrigada!! Beijo grande
Maurício Mellone
maio 4, 2026 @ 14:51
Adriana, querida:
Sem dúvida, a peça provoca reflexões sobre temas muiito atuais.
Numa entrevista, o autor disse q algo estará errado se não
houver risos da plateia. Aqui isto não ocorre, há risos (nervosos).
Obrigado pela visita, volte sempre
Beijos