De Maurício Mellone em dezembro 9, 2025
Com uma performance extraordinária, em A Luta, em cartaz no Teatro BDO Jaraguá, o ator Amaury Lorenzo revive no palco as batalhas sangrentas da Guerra de Canudos, ocorridas entre 1896 e 1897, no Arraial de Canudos, no sertão da Bahia, entre os seguidores de Antônio Conselheiro e as tropas militares da recém proclamada República.
Com direção de Rose Abdallah e texto de Ivan Jaf — inspirado na terceira parte do romance clássico de Euclides da Cunha, Os Sertões —, o espetáculo apresenta um breve resumo do momento histórico e social em que o Brasil se encontrava, numa nítida separação entre o país do litoral e o interior/sertão do país, abandonado pelas autoridades, vivendo uma seca extrema.
A ascensão do líder religioso Antônio Conselheiro, que denunciava os abusos dos coronéis e a alta dos impostos, não poderia ser aceita pelos novos governantes e as batalhas foram intensas: três expedições militares foram fracassadas graças à resistência dos jagunços do Conselheiro e somente a quarta expedição destruiu totalmente o arraial. Impressionante é que apenas Amaury Lorenzo está no palco para contar todas as versões destes trágicos episódios da nossa história.
Num palco totalmente vazio, o ator, vestindo uma camiseta regata, calça social e um blazer brancos, tem como elemento cênico somente sua fala (com várias entonações) e seu corpo. É desta maneira que ele, desde a primeira cena, transporta o espectador para o sertão nordestino e revela as versões daquele entrave social.
De um lado o líder religioso conservador e tirano que por meio da fé de seus seguidores enfrentava os inimigos. Do outro lado, as tropas militares do governo central, que não tinham qualquer experiência em lutar na caatinga e no sertão. Daí o fracasso de três tentativas e o extermínio da população e do arraial de Canudos na quarta expedição.
O espetáculo retrata estes confrontos do século XIX, mas procura associar com a atualidade: numa sociedade polarizada politicamente, ainda há uma dualidade entre o moderno e a tradição, o litoral e o sertão, a fé e a razão, a direita e a esquerda. Durante a narrativa das batalhas, o ator introduz uma ou outra referência à realidade atual.
“Na terceira e última parte de Os Sertões, A Luta, há uma guerra arquetípica, mitológica, portanto, será sempre atual para entender a formação do Brasil. A peça é para nos questionar enquanto sociedade. O retumbante fracasso dos dois lados, com a violência sem sentido de ambos, é o resultado da nossa triste ignorância, que infelizmente perdura”, argumenta a diretora Rose Abdallah.
Com uma dramaturgia vigorosa e direção voltada à interpretação, o que mais chama a atenção no espetáculo é para a atuação visceral do ator. Além das várias vozes (do Conselheiro, dos comandantes das tropas, dos jagunços, de mulheres e crianças e até de bichos, pássaros e ruídos do sertão), Amaury Lorenzo tem uma performance corporal incrível. Destaques ainda para a iluminação e trilha sonora que enfatizam a crueza das batalhas e a realidade do sertão brasileiro. A peça já se apresentou no Rio, Belo Horizonte, Brasília e Salvador e permanece em São Paulo somente até o dia 21/12. Imperdível! Acompanhe a página da peça no Instagram:
Roteiro:
A Luta. Dramaturgia: Ivan Jaf (inspirado na terceira parte de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Direção, idealização e direção de arte: Rose Abdallah. Elenco: Amaury Lorenzo. Direção de movimento: Amaury Lorenzo e Johayne Hildefonso. Iluminação: Ricardo Meteoro. Música original: Alexandre Dacosta. Pesquisa sonora e preparação vocal: Amaury Lorenzo. Fotografia: Guga Melgar. Produção executiva: Marcio Netto. Direção de produção: Amaury Lorenzo, Rose Abdallah e Sandro Rabello. Realização: Abdallah Produções, Bambu Produções e Diga Sim Produções.
Serviço:
Teatro BDO Jaraguá (260 lugares), Rua Martins Fontes, 71, tel. 11 2802-7075. Horários: sábado às 21h e domingos às 19h. Ingressos: a partir de R$60. Vendas: Sympla. Duração: 60 min. Classificação: 14 anos. Temporada: Até 21/12.
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