De Maurício Mellone em julho 16, 2025
Atualmente é raro assistir a um espetáculo teatral com elenco numeroso. No entanto, a peça A Médica, do dramaturgo britânico Robert Icke, com direção de Nelson Baskerville, em cartaz no Auditório do MASP, é composta de 11 atores, liderados por Clara Carvalho. Isto só foi possível graças à parceria entre a pesquisadora e produtora Rosalie Rahal Haddad, a companhia Círculo de Atores e a produtora Selene Marinho.
O texto é uma releitura da peça Professor Bernhardi/1912, do dramaturgo vienense Arthur Schnitzler, em que Robert Icke introduz temas atuais e polêmicos, como fake news, racismo, antissemitismo, homofobia, além de viralização na internet e ação de haters.
“O trabalho de Icke se baseia em realizar uma adaptação mais contemporânea de textos clássicos. Ele mantém a espinha dorsal do autor original, porém adiciona elementos mais atuais. Nesta montagem, ele faz uma exigência de que alguns personagens tenham algo dissonante de gênero, raça ou idade do que estamos vendo no palco, uma característica que o público vai percebendo ao longo do espetáculo”, esclarece Nelson Baskerville.
No cenário criativo de Marisa Bentivegna — em que tapadeiras móveis de acrílico servem para compor os vários ambientes da trama —, a Drª Ruth Wolff, vivida por Clara Carvalho, inicia a trama falando do instituto especializado em pesquisa sobre o Alzheimer que ela dirige e que naquele dia havia autorizada a entrada de uma jovem que havia passado por um aborto mal realizado e estava à beira da morte. O problema é que a médica entrou em atrito com o padre católico, papel de Kiko Marques, que desejava ministrar a extrema-unção à jovem, mas fora impedido. Toda a discussão foi gravada e divulgada na internet, ganhando forte repercussão, com a Drª Ruth sendo pressionada interna e externamente.
“A Drª Ruth é uma médica renomada, criadora do instituto de pesquisa de alta tecnologia para a cura do Alzheimer. Ela tem um gesto maternal ao levar a adolescente ao hospital após o aborto, mas, ao proibir a entrada do padre, desencadeia uma série de discussões que envolvem a trama: fake news, racismo, antissemitismo, a questão de gênero, viralização nas redes sociais e haters. O texto passa por várias ramificações de assuntos que estão altamente em evidência hoje em dia”, explica Clara Carvalho.
As diferenças de opinião entre a médica (judia e agnóstica) e o padre poderiam ter sido sanadas se a discussão não tivesse chegado à internet ou a Drª Ruth tivesse aberto diálogo. No entanto, ela estava convicta de que a presença do religioso causaria maiores impactos aos últimos momentos de vida da garota. A determinação da médica provocou uma ruptura entre os profissionais do instituto e até a perda de apoio da ministra, já que os patrocinadores passaram a ameaçar a retirada de financiamento às pesquisas médicas. A repercussão negativa do caso provocou inclusive abalo emocional na vida íntima de Ruth.
Com um enredo suscitando polêmicas e profundas reflexões e uma direção sensível e focada na interpretação, A Médica se destaca por uma produção dinâmica, com entrosamento na condução narrativa entre trilha sonora (executada ao vivo), iluminação e cenário, com destaque para os telões de vídeo que transmitem informações médicas durante a peça.
Entretanto o ápice do espetáculo fica para atuação dos 11 atores, que tanto nas cenas de ação e atrito entre personagens quanto nos momentos íntimos e conciliadores demonstram todo o talento; ressalto o trabalho de Kiko Marques, Sergio Mastropasqua, Chris Couto e Isabella Lemos.
Mas Clara Carvalho é responsável pelos instantes mais emocionantes da peça: impossível não sair tocado com sua composição visceral para aquela médica, tão humana, complexa e sensível. Destaco as cenas finais com Kiko Marques e o encontro mágico de sua personagem com a companheira, vivida por Chris Couto. Imperdível!
Roteiro:
A Médica: Idealização e produção geral: Rosalie Rahal Haddad. Texto: Robert Icke. Tradução: Diego Teza. Direção: Nelson Baskerville. Elenco: Clara Carvalho, Adriana Lessa, Anderson Müller, Cella Azevedo, César Mello, Chris Couto, Isabella Lemos, Kiko Marques, Luisa Silva, Sergio Mastropasqua e Thalles Cabral. Música original: Gregory Slivar. Música ao vivo: Edézio Aragão. Cenário: Marisa Bentivegna. Figurino: Marichilene Artisevskis. Iluminação: Wagner Freire. Direção de imagem: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo). Fotografia: Ronaldo Gutierrez. Designer gráfico: Rafael Oliveira. Produção: SM Arte Cultura. Direção de produção: Selene Marinho. Produção executiva: André Roman /Teatro de Jardim. Realização: Círculo de Atores.
Serviço:
Masp/ Auditório (344 lugares), Av. Paulista, 1578, tel 11 3149-5959. Horários: sexta e sábado às 20h, domingo às 18h. Ingressos: sexta: R$80 e R$40; sábado e domingo: R$100 e R$50. Duração: 105 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 24 de agosto.
2 Comentários
Adriana Bifulco
julho 17, 2025 @ 11:41
O espetáculo, com certeza é, além de muito atual, muito educativo. E além de tudo, com tantos atores em cena e música ao vivo, pouco comuns ultimamente.
Que delícia de resenha, Ma!
Maurício Mellone
julho 17, 2025 @ 14:38
Adriana, querida:
Fico feliz q vc tenha gostado do q escrevi sobre a peça.
Adorei, um texto profundo e com atuações emocionantes; a
Clara Carvalho com certeza será reconhecida pela crítica e
levará alguns prêmios. Minha profecia e minha torcida!
Beijos e obrigado pela visita e opinião!