Anos de Chumbo e outros contos: cativantes histórias de Chico Buarque

De em janeiro 23, 2022

 

Primeiro livro de contos de Chico Buarque editado pela Companhia das Letras

 

 

Vivo um momento de intensas mudanças, tanto físicas como interiores. Deixei minha terra natal (a são São Paulo, Sampa e terra da garoa) para começar novo ciclo de vida no Nordeste do país. Depois de Itacaré/BA e João Pessoa/PB, devo me estabelecer em Recife/PE em fevereiro, para contribuir na realização da 4ª edição do Festival de Cinema de Carpina/PE.

Nesta fase de ressignificação interior, a leitura tem sido a grande aliada. Autores que há tempos precisava me aprofundar, caso de Conceição Evaristo, além de revisitar clássicos como Virginia Woolf, Rubem Fonseca, Gabriel Garcia Marquez, e autores contemporâneos como Itamar Vieira Junior, Ricardo Lísias, Babi Borghese e Sidney Rocha, passaram a receber maior atenção, já que deixei de frequentar teatros, cinemas e exposições que recheavam as resenhas do Favo.

E nada melhor do que iniciar o ano com a resenha sobre o mais novo livro de Chico Buarque, Anos de Chumbo e outros contos, um lançamento da Companhia das Letras, que traz oito histórias, com enredos bem distintos e com personagens e situações tão reais que o público leitor identifica como sendo um retrato do universo carioca. No entanto, na página descritiva do livro, os editores ressaltam que os “personagens são reais apenas no universo da ficção”.

 

 

Chico Buarque recebeu em 2019 o Prêmio Camões pelo conjunto da obra

 

Chico Buarque é mais conhecido como compositor e cantor (é considerado um dos maiores nomes da música brasileira, com álbuns gravados desde a década de 1960); entretanto sua carreira literária também é vasta, com reconhecimento e prêmios no Brasil e no exterior. Como dramaturgo, escreveu várias peças, inclusive para o público infantil, e é autor de seis romances. O maior reconhecimento foi em 2019 com o Prêmio Camões pelo conjunto da obra.


Anos de Chumbo
é seu primeiro livro de contos. Com uma linguagem direta e frases curtas, os personagens das oito histórias, além de muito reais, constituem um retrato do universo carioca contemporâneo:

 

 

 

“Pensei que fôssemos ficar com o sítio por quatro ou cinco semanas no máximo, pois tudo indicava que a peste estaria sob controle ainda naquele outono.” (O sítio)

 

 

Outra marca do contista que chama a atenção é a passagem de tempo das tramas: de uma frase para outra, do final do parágrafo para o seguinte o enredo dá um salto e o leitor facilmente percebe a sequência lógica da trama. Esta técnica narrativa está presente em Para Clarice Lispector, com candura, em Os primos de Campos e Cida por exemplo.

 

 

Temas contemporâneos que merecem uma reflexão mais profunda, como violência urbana e doméstica, gravidez na adolescência, bullying, miséria, machismo e novas formas de relações afetivas, são tratados nas histórias criadas por Chico Buarque.
Características do realismo fantástico (gênero em que elementos da realidade, da fantasia e do sonho se misturam, gerando um todo harmônico) também podem ser detectadas em algumas das histórias. Em Cida, a personagem central, uma moradora de rua, confessa que tem relação com um extraterrestre:

 

“… mas segundo ela o Ló vinha realmente de outra constelação, de um tal planeta chamado Labosta. Outro dia ele lhe trouxe do planeta um anel de compromisso, para que ela não botasse chifre nele durante suas ausências.”

 

 

Em Copacabana sobressaem a fantasia e a magia, com o personagem central, um jovem de 16 anos, se relacionando e sonhando com artistas como Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Ava Gardner, John Huston ou Richard Burton. E o interessante é que o próprio narrador desfaz a fantasia e mostra a perda da inocência:

 

 

“Infelizmente, nunca estive com Neruda nem jamais falei com Borges. …
Infelizmente, não tive o prazer de conhecer John Huston nem Richard Burton.”

 

Algumas histórias chegam ao final e fica a vontade de que elas continuem. Impossível o leitor não ficar curioso com o futuro daquele garoto/narrador, que termina o conto Os primos de Campos a bordo de um ônibus rumo a Barranquilla. O mesmo acontece em O sítio: o solteirão convicto que se apaixona e é abandonado pela artista deixa o lugar onde viviam e sai pela estrada.

 

 

O último conto e título da obra, sem dúvida, chama mais atenção e requer uma análise mais apurada, graças ao jogo proposto pelo autor. Anos de chumbo, época da história do Brasil associada à repressão e à ditadura militar, no início da história se refere ao brinquedo de bonecos do garoto com deficiência física: os soldadinhos de chumbo que estão sempre em guerra. No entanto, com o desenrolar da trama, a relação das duas famílias, a do garoto e a do chefe militar de seu pai, reflete a situação do Brasil na época do autoritarismo, com repressão, traição, submissão, extorsão, violência e tortura exacerbadas. Um retrato de país que precisa ficar no passado, fazer parte apenas da história brasileira e que NUNCA MAIS volte a se repetir!

 

Várias composições de Chico Buarque podem ilustrar as histórias de seu novo livro de contos (Vai passar, por exemplo). Mas a canção As Caravanas do último álbum sintetiza as histórias do livro:

 

 

 

 

 

Ficha técnica:
Titulo: Anos de Chumbo e outros contos
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras, 168 pág
Preço: R$ 47,90

 

 


8 Comentários

Adriana

janeiro 26, 2022 @ 18:35

Resposta

Quantas tramas interessantes, meu querido!! Anos de Chumbo vai para a minha lista de próximas leituras, com certeza!
Que a nova fase seja feliz, próspera e muito abençoada. Sabe que torço muito por isso. Beijo grande

Maurício Mellone

janeiro 27, 2022 @ 09:17

Resposta

Adriana, querida:
tenho certeza q vc vai curtir as histórias do Chico Buarque.
Ontem comecei a ler ‘O arroz de Palma”, do Francisco Azevedo, e já
estou preso à trama!!!!!!
Obrigado pela dica e GRATIDÃO pela torcida e incentivo!
Beijos

Nanete Neves

janeiro 24, 2022 @ 11:45

Resposta

Que bela resenha. Me faz correr atrás desse livro

Maurício Mellone

janeiro 24, 2022 @ 12:01

Resposta

Nanete, querida:
Obrigado, vc sabe bem que a intenção é esta quando escrevemos sobre literatura:
chamar a atenção para a obra e incentivar outros leitores a conhecê-la!
Beijos, saudades

Célia Gambini

janeiro 24, 2022 @ 04:02

Resposta

Fiquei com vontade de ler.
Ótima resenha vinda daí do NE!
Que seja solar, muito produtiva e feliz a mudança de capital!
Abraços,
Célia

Maurício Mellone

janeiro 24, 2022 @ 09:50

Resposta

Célia, querida:
acho q vc vai gostar do livro do Chico, histórias bem interessantes.
Obrigado pela força e incentivo
Beijos

Dinah

janeiro 23, 2022 @ 16:28

Resposta

Maurício,
Como vc está em nova fase da vida, a resenha também mostra uma cara nova e muito boa, gostei!
Pena que agora não posso pedir o teu livro emprestado… rsrsrs.
Vida longa ao Favo e bons e prósperos ares na sua vida!
Beijos

Maurício Mellone

janeiro 24, 2022 @ 09:52

Resposta

Dinah, minha querida:
que bom q vc achou a resenha fruto da nova fase da minha vida!
Ia adorar emprestar o livro: aí claro q pegaria um seu tb para ler… rsrsr
Obrigado pela constante torcida
Beijos

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