De Maurício Mellone em junho 24, 2026
Em algum lugar, em qualquer lugar do mundo. Anywhere!
Com este título que provoca um estranhamento intencional, o solo de Ricardo Corrêa é construído e inspirado em depoimentos reais de refugiados e imigrantes da comunidade LGBTQIAPN+. O espetáculo parte destes relatos dados para uma pesquisa sobre experiências de perseguição, fuga e sobrevivência destas pessoas e centra no caso de um homem gay retido num aeroporto e que está à espera da liberação de um documento que autorize sua entrada, que o permita viver!
Com criação e dramaturgia do ator Ricardo Corrêa e direção de Davi Reis, o espetáculo, de grande impacto, mescla memória, depoimento e ficção e retrata aquele homem preso no aeroporto que, ao lembrar da própria história, revive todas as experiências porque passou. Montagem estreou em curta temporada no Sesc Ipiranga e permanece em cartaz no Espaço Cia da Revista até 12 de julho.
O público ao entrar na sala de espetáculo se depara com projeções que informam a legislação de diversos países sobre o tratamento dado às pessoas da comunidade LGTBT, geralmente leis que violam os direitos humanos. Há ainda informes sobre assassinatos, violência e homofabia.
Já impactados, os espectadores passam a saber sobre a experiência daquele homem retido num aeroporto (pode ser de qualquer parte do mundo) que está com sua senha esperando para ser chamado. Enquanto aguarda, ele lembra e revive toda sua trajetória de vida, desde a infância quando sofria bullying por usar tênis rosa, o encontro com o primeiro e grande amor de sua vida, as perseguições e batidas policiais até o dia em que é obrigado a fugir de seu país.
O diferencial do texto é que o ator sempre fala na terceira pessoa, sobre o que ele passou, numa referência de que este ele pode ser qualquer um dos refugiados que participaram da pesquisa ou qualquer um membro da comunidade LGBTQIAPN+.
“ANYWHERE nasce de encontros, de escutas. Cada relato (na pesquisa) carregava mais do que uma história, carregava uma urgência. Uma vida interrompida. O espetáculo não é só sobre quem atravessa fronteiras geográficas. É sobre o que acontece quando o mundo inteiro se torna um lugar onde você não pode ficar. Sobre existir enquanto alguém decide se você pode existir”, explica Ricardo Corrêa.
]
Num cenário que reproduz um setor de algum aeroporto, a montagem usa de vários recursos, como vídeo com imagens captadas ao vivo, microfones em que o ator narra episódios da vida do personagem e de situações e fatos históricos, além da própria vivência do ator. Segundo o diretor, o desafio da montagem foi traduzir para a cena a complexidade desse material híbrido, que combina depoimentos reais, literatura e invenção:
“Para falar do refúgio, precisávamos reconhecer essas questões em nós mesmos. De alguma forma, todos nós, corpos LGBTs, estamos em fuga, em deslocamento, lutando por liberdade e respeito”, assegura Davi Reis.
O grande destaque do espetáculo é a força e vigor da dramaturgia, que é redimensionada pela atuação visceral de Ricardo Corrêa, além de uma direção ágil, dinâmica. A sensível trilha sonora e a iluminação contribuem para a fluência narrativa. Sem dúvida, um espetáculo que incita o espectador a refletir sobre as injustiças e arbitrariedades cometidas por governos autoritários. Sessões apenas nos finais de semana, até 12/07. Não perca. Mais informações na página da Cia Artera de Teatro, produtora do espetáculo.
Roteiro:
Anywhere. Criação, dramaturgia e interpretação: Ricardo Corrêa. Direção: Davi Reis. Iluminação: Fran Barros. Cenografia: Carlos Tibúrcio. Trilha sonora original: Luis Paulo “Casca” e Rodolfo Bártolo. Figurino: Maitê Chasseraux. Fotografia e vídeo: Renato Grieco. Coprodução: Cícero de Andrade/Mosaico Produções. Realização e produção: Cia Artera de Teatro.
Serviço:
Espaço Cia da Revista (99 lugares), Alameda Nothmann, 1135, tel. 11 3791-5200. Horários: sábado às 20h e domingos às 19h. Ingressos: R$50 e R$25. Vendas: Sympla. Duração: 80 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 12 de julho.
4 Comentários
Adriana Bifulco
junho 25, 2026 @ 18:46
Imagino o impacto desse espetáculo na plateia, por tratar sobre um tema tão sensível e necessário. Por isso que a arte é tão importante e imprescindível!!
Maurício Mellone
junho 26, 2026 @ 16:46
Adriana, querida:
Vc tem toda a razão, a arte nos alimenta, é mesmo imprescindível!
Obrigado por sua visita aqui e pelo seu carinho
Beijos
João Benedito Rubini
junho 24, 2026 @ 23:06
Delícia de saber que ainda tem gente que aborda a questão do “no man’s land”, ou melhor “no man’s planet”. Parece muito bom saber de essa imersão na realidade pelos vídeos e projeções que acolhem o público. A vontade de participar fica ainda mais aguçada. Evoé !
Maurício Mellone
junho 25, 2026 @ 15:07
Beneh, querido:
a peça é produzida pela Cia Artera de Teatro, que realizou a pesquisa
com imigrantes e refugiados da comunidade LGBTQIAPN+. O texto é
inspirado nos relatos dos pesquisados e o foco dramatúrgico é sobre
a experiência de um gay iraniano.
A peça é tocante.
Muito obrigado pela visita, volte outras vezes
Bjs