As conversas que não tivemos: romance não ficção de Janeth de Oliveira

De em agosto 11, 2026

 

 

Segundo livro de não ficção da escritora de Tocantins Janeth de Oliveira

 

 

 

Não há na obra de Janeth de Oliveira, As conversas que não tivemos, qualquer tipo de spoiler. No romance de não ficção, lançado pela Folhas de Relva, a escritora, nascida em Tocantins, revela já nas primeiras linhas que está escrevendo para o irmão caçula que faleceu em virtude de um câncer avassalador. A autora confessa que irá contar ao irmão tudo o que ficou silenciado entre eles durante toda a vida. Desta forma, ela transforma o luto e a dor em linguagem, em arte. Com uma escrita direta e num tom informal, Janeth fala com o irmão, de peito aberto, como se realmente estivesse enviando uma carta para ele:

 

 

Querido irmão,
Conversar com os mortos ou escrever para eles pode parecer insanidade. Para mim também parecia, até me ver diante da necessidade premente de materializar as palavras que ficaram entaladas na garganta. Você não poderá me responder ou contestar, mesmo assim escreverei sobre nós, na tentativa de trazer à luz tudo o que eu não te disse e quem sabe, depois desse exercício, eu possa seguir em frente mais consciente e mais leve.

 

 

 

 

Farmacêutica e professora aposentada da UnB: paixão pelos livros

 

 

 

 

Mãe de três filhos e amante da leitura desde a infância, Janeth de Oliveira é natural da cidade de Pedro Afonso/TO, passou grande parte da vida em Goiânia/GO e hoje vive em Brasília depois de se aposentar como professora da UnB. Farmacêutica e doutora em Ciências da Saúde, Janeth durante a pandemia voltou-se para a literatura e já participou de dez antologias de contos e crônicas, além de ter lançado em 2023 seu primeiro romance, Saudade da chuva. Sua produção literária é marcada pela prosa intimista, voltada para temas como memória, relações familiares, envelhecimento, afetos e perdas, o que fica evidente neste seu segundo romance de não ficção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 158 páginas, o livro é dividido em 29 capítulos curtos. Logo no início a autora confessa que, ao escrever sobre a perda do irmão, descobriu que seus sentimentos se tornaram compreensíveis e “vão tomando forma enquanto me expresso e isto tem sido terapêutico”. Ela diz ainda que não é a primeira e nem será a última a relatar em livros a própria experiência do luto, citando algumas obras que a inspiraram, como Paula de Isabel Allende e As pequenas chances, de Natalia Timerman .

 

 

 

Sempre de forma simples e coloquial, a autora relata todo o processo da doença pelo qual o irmão caçula passou, desde a comunicação da notícia, as primeiras consultas com os especialistas, o tratamento oncológico com quimioterapia em que ela o acompanhava, as lembranças da infância, a relação com os demais irmãos (são quatro, o mais velho, a irmã e ela), a evolução da doença, a recuperação e a fatídica queda com a contaminação pelo vírus da Covid-19.
 Mais do que o detalhamento sobre todas as etapas do final de vida do irmão, Janeth faz um retrospecto da vida familiar, enfatizando a importância da força das mulheres na educação que tiveram:

 

 

Nos anos 60, ser viúva com filhos era bem diferente de hoje. Esperava-se circunspecção e austeridade no comportamento, isso era tacitamente determinado e nossa mãe cumpria ao pé da letra as exigências da época.”

A retidão de caráter da nossa mãe, ao mesmo tempo em que era um exemplo que nos dava segurança, representava um peso sobre o nosso comportamento e nossas escolhas.”

Não sei por que não conversamos sobre o privilégio que tivemos de crescer entre mulheres tão inspiradoras, como nossa mãe e nossas duas avós.”

 

 

 

 

 

A arte como expressão dos sentimentos humanos transformados em linguagem (música, literatura, teatro, audiovisual) tem o poder de, além de provocar emoção e reflexão, incitar a identificação do público com a criação. O livro de Janeth exerce este poder: mais do que retratar a relação amorosa entre os irmãos, provoca uma identificação direta com o leitor — quem nunca refletiu sobre a perda de entes queridos? Particularmente fiquei muito emocionado, pois minha história de vida apresenta vários pontos em comum com a da autora (minha mãe ficou viúva, com seis filhos pequenos, com a mesma idade da mãe de Janeth).
E o que mais me chamou a atenção na obra é que, mesmo falando de perda e morte, o tom final é de esperança:

 

 

 

 

 

Recordar me trouxe perguntas, mas também algumas certezas. Nem a morte conseguirá apagar o que vivemos, e agora, ainda mais, porque algumas das nossas histórias estão escritas e sobreviverão a você e a mim.
A vida continua para mim, como continuará depois que eu também me for, seguindo o seu fluxo interminável e, quase sempre, incompreensível.
Espero que haja um reencontro do outro lado da vida — ou da morte — e conto com isso para poder continuar as conversas que não tivemos.

 

 

 

 

 

Ficha técnica:
Título: As conversas que não tivemos
Autora: Janeth de Oliveira
Editora: Folhas de Relva, 158 pgs
Preço : R$ 20,35

6 Comentários

Dinah Sales de Oliveira

agosto 12, 2026 @ 20:55

Resposta

Maurício,
Não conheço a autora, mas me pareceu muito interessante o livro dela, pela sua resenha.
Vi que a Eni citou no grupo (logo após seu post) o livro da Rosa Montero – também sobre o luto -, que li e achei muito bom.
Podemos trocar ‘exemplares’ um dia desses.

Beijos

Maurício Mellone

agosto 13, 2026 @ 16:17

Resposta

Dinah, querida:
Vamos sim trocar exemplares, vou adorar!
No livro a Janeth cita a Rosa, a Isabel Allende e a Natalia Timerman.
Esta última fiz resenha da obra dela.
VC vai gostar do livro da Janeth, fiquei emocionado várias vezes!
Beijão, obrigado pela visita!

Marina

agosto 12, 2026 @ 16:32

Resposta

Fiquei muito interessada pela obra,.
Ótima apresentação

Maurício Mellone

agosto 13, 2026 @ 16:19

Resposta

Marina, mana querida:
Acho q vc vai gostar e tb se emocionar com o relato da Janeth.
Temos na nossa históira de família muitas semelhanças com a vida
da família da autora.
Muito obrigado pela visita, volte sempre
Beijão

Adriana Bifulco

agosto 12, 2026 @ 15:36

Resposta

Que história comovente, querido. Imagino a força que a autora precisou ter para reviver essa fase tão marcante da vida dela. E você também, por ter notado, no decorrer da leitura, pontos da vida em comum com Janete. Com certeza, foi um desafio.

Maurício Mellone

agosto 13, 2026 @ 16:22

Resposta

Adriana:
A autora me respondeu e confessou q pensou muito em publicar, achava a obra
muito íntima e confessional. Que bom q foi convencida a publicar: os leitores
se identificam com o relato dela (inclusive eu!)
Se puder, leia, vc vai gostar.
Beijão

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