De Maurício Mellone em setembro 10, 2026
Para comemorar os 20 anos do Núcleo Experimental de Teatro, o grupo remontou um grande sucesso encenado em 2009, As Troianas. A montagem atual é baseada na tragédia clássica de Eurípedes e inspirada no livro A Torre: O cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura de Luiza Villaméa.
O espetáculo faz um paralelo entre a tragédia de Eurípedes — em que as mulheres, depois da destruição da cidade de Tróia, enfrentam a perda, a escravidão e o luto — e as prisioneiras políticas mantidas pela ditadura militar na década de 1970 no Presídio Tiradentes, em São Paulo.
Com direção Zé Henrique de Paula e direção musical de Fernanda Maia, a peça traz no elenco 14 atrizes e atores: Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards. Apresentações terças e quartas até o início de outubro.
Ao entrar na sala de espetáculo, o público fica diante de beliches e algumas camas dispostas no espaço cênico. Em seguida as atrizes entram e começam a arrumar as camas e limpar o local: logo todos percebem que se trata de um presídio e aquelas mulheres são presas políticas mantidas pelo regime autoritário instalado no Brasil a partir de 1964. A trama se passa em 1972, após a decretação do AI-5, em que o país vivia o período mais cruel e violento da ditadura militar. As personagens vivem as prisioneiras da Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes, localizado na Avenida Tiradentes, na capital paulista.
A montagem faz referência ao clássico de Eurípedes, em que as mulheres de Troia, privadas de suas famílias, resistiam pela força da palavra e da dor compartilhada. Já as presas políticas no Brasil, também apartadas de seus lares e dos entes queridos, sofriam violência sexual e tortura nos porões da ditadura. Os diretores da peça lançam mão da música como um recurso de resistência e preservação da vida:
“O coro feminino, elemento fundamental da tragédia de Eurípides, é reinterpretado como uma comunidade de mulheres privadas de liberdade, que encontra na voz coletiva uma forma de preservar sua humanidade. Na montagem, ao cantar as mulheres encarceradas compartilham medos, lembranças, revoltas e esperanças. As canções oscilam entre a delicadeza e a indignação, entre a memória do mundo perdido e a determinação de seguir vivendo”, explica Fernanda Maia, que assina a direção musical, além das composições e dos arranjos.
O que chama a atenção da montagem é como os espectadores ficam envolvidos pelas histórias das prisioneiras: ao final da trama, há os aplausos, mas o silêncio entre a plateia é marcante, justamente pelo terror reproduzido em cena com aqueles relatos tão sofridos. Há desde a mãe que fora presa com a filha e a nora grávida, a estudante universitária perseguida, a operária e a militante política até a esposa de um general que se nega deixar a prisão quando o marido tenta libertá-la. Entre os relatos das presas, o coro assume as ações, entoando canções que complementam a narrativa. O desfecho do espetáculo também é emocionante, com a transferência das detentas para que o antigo presídio seja demolido. Hoje o local abriga a estação Tiradentes do metrô.
Mais do que marcar os 20 anos do Núcleo Experimental de Teatro, a encenação de As Troianas ganha um significado especial. Estamos em pleno período de eleições gerais e enfatizar o horror que regimes autoritários e de extrema direita provocam na vida das populações é de fundamental importância.
Além da força dramatúrgica, o espetáculo se destaca pela sintonia em cena e pela interpretação visceral das atrizes. Destaques ainda para a trilha sonora de grande teor dramático e para a criatividade de cenário, figurino e iluminação. A temporada se estende até 7 de outubro, confira.
Roteiro:
As Troianas. Baseada na obra de Eurípedes e inspirada no livro A Torre: O cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura, de Luiza Villaméa. Adaptação e direção: Zé Henrique de Paula. Direção musical, composição e arranjos: Fernanda Maia. Elenco: Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards. Direção de movimento: Gabriel Malo. Cenografia e figurinos: Zé Henrique de Paula. Desenho de luz: Fran Barros. Desenho de som: João Baracho. Preparação vocal: Rafa Miranda. Produção: Rebeca Reis Design gráfico: Laerte Késsimos. Fotografia: Edgar Machado e Anne Beatriz. Realização: Núcleo Experimental.
Serviço:
Teatro do Núcleo Experimental (65 lugares), Rua Barra Funda, 637,tel. 11 3259-0898. Horários: terça e quarta às 20h. Ingressos: R$40 e R$20. Vendas: Sympla. Duração: 90 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 7 de outubro de 2026.
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