De Maurício Mellone em fevereiro 12, 2026
Espetáculo que acaba de estrear no Núcleo Experimental, Asas de pano, marca os 40 anos de carreia da atriz Eliete Cigaarini. Para dirigir seu primeiro texto teatral, a atriz convidou o ator Otávio Martins, que assina também a supervisão dramatúrgica, e, a seu lado no palco, estão a filha Gabriela (em sua primeira peça profissional) e a amiga Anette Naiman.
O que desencadeia toda a narrativa é o anúncio que a filha faz para a mãe: ela irá sair de casa e dividir um apartamento com uma amiga. A partir daí elas travam um forte embate, que fará com que segredos de família, guardados a sete chaves, venham à tona. Um inusitado telefonema contribui ainda mais para que a verdade se estabeleça: a avó da garota (Anette), falecida há 20 anos, aconselha a filha a desvendar os mistérios familiares.
Sentada numa velha poltrona, no centro de um apartamento envolto em malas, baús e caixas, a contadora aposentada, especialista em acertar a vida econômica dos clientes, não consegue administrar a própria vida. Prevendo a solidão do ninho vazio — sensação psicológica que pais sentem quando os filhos saem de casa pela primeira vez —, ela usa de chantagem e até esconde documentos que a filha precisa para se mudar.
]
“Minha peça é um olhar voltado às raízes femininas e propõe um diálogo entre mundos, permitindo que a comunicação se restabeleça, que palavras nunca ditas encontrem seu destino. Asas de pano também dá voz ao que ficou retido no silêncio, a última chance de dizer o indizível, de concluir o que ficou suspenso e celebrar o amor que não conhece fim”, explica Eliete Cigaarini.
Em meio ao atrito entre mãe e filha é que surgem os telefonemas do além, que provocam um turbilhão de sentimentos naquele círculo familiar constituído só de mulheres. A avó traz à tona situações vivenciadas em momentos distintos da vida da contadora: a infância dolorida, a dificuldade de se relacionar na juventude, o aborto que foi obrigada a se submeter e a chegada da filha, que transformou totalmente sua existência.
“Esta peça fala sobre o peso do passado versus a leveza necessária para voar. O texto trata ainda da busca pela estabilidade em contraponto ao desapego que é inevitável para seguir em frente. E no fim, fica a pergunta: qual é a verdade que você esconde para proteger quem ama?”, indaga Otávio Martins.
A chegada de nova dramaturga é mais do que louvável. Em sua primeira peça, Eliete procura esmiuçar o universo feminino, em especial o conflito de gerações entre mãe e filha. A condução da trama em tempos distintos, o real em oposição ao imaginário representado pela avó, incita o espectador a refletir. Entretanto, o grande número de temas apresentados — violência doméstica, ausência do convívio materno, aborto, relação homoafetiva e adoção — não aprofunda a discussão. Senti falta ainda de uma definição do tempo real em que a contadora e filha coexistem.
O destaque da montagem, no entanto, fica para a atuação das atrizes: a jovem Gabriela Cigarini mostra grande potencial e Anette Naimann tem uma performance corajosa, emocionante. Já Eliete, cuja personagem transita em diversas fases da vida, tem a chance de revelar todo seu talento e versatilidade.
Roteiro:
Asas de pano. Texto: Eliete Cigaarini.. Supervisão dramatúrgica e direção: Otávio Martins. Assistente de direção: João Pedro Martins. Elenco: Eliete Cigaarini, Anette Naiman e Gabriela Cigarini. Direção de arte: Armando Filho. Figurino: Eliete Cigaarini. Iluminação: Otávio Martins. Cenografia: Marcelo Andrade. Fotografia: Helô Bortz. Produção e realização: Creartes Prod. Artísticas Ltda.
Serviço:
Teatro Núcleo Experimental (60 lugares), Rua Barra Funda, 637, tel 11 3259-0898. Horários: sábado e domingos às 20h. Ingressos: R$ 100 e R$ 50. Vendas: Sympla. Classificação: 12 anos. Duração: 65 min. Temporada: até 29 de março de 2026 (não haverá sessões durante o Carnaval).
2 Comentários
Adriana Bifulco
fevereiro 17, 2026 @ 22:51
Esse espetáculo, com certeza, é uma dupla oportunidade para assistir à estreia de Eliete como autora e da lindíssima Gabriela como atriz.
Além disso, aborda vários temas sobre o universo feminino e a síndrome do ninho vazio, sempre tão atuais. Muito interessante!! Adorei saber!!
Maurício Mellone
fevereiro 19, 2026 @ 14:41
Adriana,
vale a pena conferir a nova dramaturga e
a estreante atriz.
Citei na resenha/crítica e reforço aqui: Anette
tem um desempenho magnífico.
Beijos e volte sempre, querida.