Cartas para minha avó: obra delicada, confessional de Djamila Ribeiro

De em março 21, 2022

Livro da professora e filósofa Djamila Ribeiro, editado pela Companhia das Letras

 

 

Hoje, 21 de março, Dia Internacional contra a Discriminação Racial — data instituída pela ONU em memória ao massacre aos negros que lutavam contra leis racistas na África do Sul, nos anos 1960 — nada melhor do que abrir este espaço para falar do novo livro da professora e filósofa Djamila Ribeiro.

 

Em Cartas para minha avó, editado pela Companhia das Letras, Djamila, hoje uma das vozes mais significativas contra o preconceito racial, abre o coração e envia para sua saudosa avó Antônia cartas em que relata fatos marcantes de sua infância e adolescência em que sofreu com atitudes racistas e machistas, mesmo antes de ter noção do significado aviltante destes comportamentos. No entanto, os relatos da autora não se restringem apenas aos fatos particulares de sua vida, mas extrapolam e atingem toda a sociedade, que precisa enxergar o alcance de falas e atitudes que humilham e tentam tolher as pessoas negras. Com seu exemplo de vida, Djamila reafirma a importância da luta e das conquistas dos negros numa sociedade em que o racismo estrutural ainda perdura.

 

 

 

Aos 42 anos, Djamila é formada pela Unifesp

 

Antes o início das cartas, o livro traz uma fotografia de Antônia, de olhar altivo e com trajes elegantes de sua religião, o candomblé. No decorrer da obra, Djamila vai se referir tanto aos ensinamentos religiosos recebidos, como da importância do olhar da avó e de sua mãe Erani em sua formação. No texto de apresentação, a também professora e escritora Conceição Evaristo ressalta que o livro retrata o tempo histórico e ancestral de uma família:

 

 

 

 

“E como imagens em caleidoscópio a vida da avó, da mãe, da neta e da bisneta ora se alternam, ora se confundem. São existências tão aneladas, que há algo crucial a intervir na história de todas. São mulheres negras enfrentando questões que perduram no tempo — o machismo e o racismo —, presentes na sociedade brasileira e que incidem dolorosamente sobre suas vidas,” argumenta Conceição Evaristo.

 

 

Djamila nasceu em Santos/SP, em 1980. Mais do que um dado da biografia da autora, o que assusta mais é que seus relatos não são de uma época remota, mas o que ocorre hoje: a autora cita fatos ocorridos nas escolas que freqüentou (década de 1990!), nas brincadeiras do prédio de sua família (únicos negros que moravam num bairro de classe média, em Santos), na empresa em que trabalhou quando passou no vestibular da Unifesp, no curso de Filosofia, até quando viajou para Buenos Aires, já formada.
O caso da empresa é emblemático: ela morava em Santos e passou na faculdade de Guarulhos. Pediu ao gerente que a demitisse para receber o seguro desemprego e ele respondeu assim:

 

“Mas por que Filosofia?  É um sonho sem sentido, vai passar fome e ter de vender brincos na praia pra sobreviver”.

 

 

Confesso que em várias das cartas fiquei muito emocionado, em razão da violência provocada pelo racismo. Como homem gay branco, sei do privilégio que desfruto na sociedade e procuro a todo momento me reconstruir e ter empatia. O racismo estrutural precisa ser combatido ferozMENTE. Com uma linguagem direta, sem rodeios ou teorias acadêmicas, Djamila em seu livro mostra como supera a cada dia os entraves que a sociedade lhe impõe:

 

 

“Venho de uma dinastia de empregadas domésticas, lavadeiras, quituteiras, mestras nas sabedorias de multiplicar, que sempre lutaram para que a gente também pudesse ser ‘doutora’. Eu não me afundo na amargura, pois tive uma avó que ensinou que chá de boldo também cura.”

 

A escritora Conceição Evaristo ao final de seu texto arremata que a obra de Djamila Ribeiro comprova que “a ternura, o afeto e a cumplicidade podem e devem ser construídos como táticas de enfrentamento ao mundo hostil que nos cerca”.

 


 

Ficha técnica:
Titulo: Cartas para minha avó
Autora: Djamila Ribeiro
Editora: Companhia das Letras, 200 pág
Preço: R$ 34,90

 

 

 

 

 

Fotos: divulgação


2 Comentários

Ademar Amâncio

julho 19, 2022 @ 16:14

Resposta

Eu também sou ”gay branco”,mas preferia,mil vezes,ter nascido mulher e negra,sofre bem menos,muito menos – Intestino produz fezes e não orgasmo.

Maurício Mellone

julho 19, 2022 @ 16:36

Resposta

Ademar:
o livro da Djamila é emocionante: ao ler as situações em que
sofreu racismo, fiquei muito tocado….
Sobre quem sofre mais ou menos, não sei dizer.
Sei que racismo, homofobia e INTOLERÂNCIA são
inadmissíveis no século XXI;
um abraço grande, adorei q vc curtiu alguns dos meus posts
Volte sempre

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