De Maurício Mellone em junho 26, 2026
Depois de temporada carioca de sucesso de público e crítica, com indicações a prêmios, acaba de estrear em São Paulo, no Teatro FAAP, o espetáculo EDDY – violência & metamorfose, que tem como base três livros do aclamado escritor francês Édouard Louis, O fim de Eddy, História da violência e Mudar: método.
Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky, a montagem — uma produção da Polifônica, núcleo carioca de pesquisa e de criação artística criado em 2015 — trata de temas contemporâneos e contundentes, como violência (sexual, de classe e de gênero), além de homofobia explícita, xenofobia e machismo. O elenco é formado por João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro.
“Édouard Louis reflete e escreve sobre violência social, política, econômica, cultural, racial, sexual e de gênero. Ele descreve com precisão os efeitos devastadores das forças de opressão e de destruição que constituem a nós e nossas sociedades contemporâneas”, argumenta o diretor Luiz Felipe Reis.
Enquanto o público entra na sala, os atores já estão em cena, ajeitando figurino e elementos cênicos. Aliando linguagem teatral e a do audiovisual (um telão ao fundo exibe imagens correlatas à trama e outras captadas ao vivo), a peça começa com o relato de Eddy (Côrtes) sobre o episódio real que Édouard sofreu em dezembro de 2012: depois de uma reunião entre amigos em Paris, o rapaz volta pra casa sozinho e é abordado por Redá (Cordeiro), um jovem de origem argelina. Eles se sentem atraídos e passam uma noite de amor no apartamento do escritor. No entanto, ao amanhecer há uma discussão e Eddy é violentamente estuprado pelo argelino, que foge.
Corte e um ano depois Eddy, após passar por longo tratamento e ter de lidar com processos jurídicos e policiais, resolve enfrentar seus fantasmas interiores e volta para sua cidade natal; só então conta tudo para sua irmã Clara (Julia). A partir deste momento o espetáculo ganha uma dinâmica própria: a conversa entre os irmãos é entrecortada com a reconstituição histórica de tudo o que ocorreu naquela fatídica noite, além da memória do rapaz sobre sua passagem pelo hospital e de seus depoimentos para a polícia.
O cineasta e codiretor da peça vê na adaptação para o palco da obra do escritor francês uma oportunidade valiosa para se discutir dilemas e vivências da comunidade LGBTQIAP+ no Brasil:
“Édouard elabora de uma forma instigante seu olhar sobre a violência, encarando sua complexidade e questionando sua origem. Consegue transformar suas próprias experiências, por mais duras que possam ser, em literatura e em arte, e assim alcançar e sensibilizar as pessoas”, analisa Marcelo Grabowsky.
Tive a chance de assistir à estreia da peça em São Paulo, cuja emoção da equipe contagiou a plateia, inclusive porque aquela noite também fora a estreia de ator Erom Cordeiro (seu papel no Rio foi vivido por Igor Fortunato). Além da força dramática do texto, o que me chamou muito a atenção no espetáculo foi como a direção conduziu a trama; por mais que a narrativa seja entrecortada — com um vai e vem no tempo —, o ritmo implementado não é alucinante, pelo contrário, tudo é narrado de forma gradual, lenta, até para que o espectador tenha ciência das atrocidades cometidas contra aquele jovem e assim possa compreender e ter a dimensão exata de tamanha violência. Destaque também pela forma bela como foi conduzida a cena de amor e sexo entre os rapazes, que culmina com a atitude de homofobia explícita do argelino, que ao agredir Eddy quer na realidade exterminar a própria homossexualidade.
Com o uso criterioso dos demais elementos cênicos (iluminação, trilha sonora, cenografia e vídeos), a montagem se enriquece graças à sintonia em cena entre os três atores, com destaque para a emocionante atuação de João Côrtes. A temporada se estende até a primeira semana de agosto: programe-se e vá conferir este que sem dúvida é um dos grandes espetáculos do semestre. Mais informações na página da peça no Instagram:
Roteiro:
Eddy- violência & metamorfose. Idealização, produção e realização: Polifônica/Luiz Felipe Reis e Julia Lund. Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky a partir da obra de Édouard Louis. Elenco: João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. Direção de movimento: Lavínia Bizzotto. Preparação corporal: Alexandre Maia. Cenografia: André Sanches. Iluminação: Julio Parente. Figurino: Antônio Guedes. Trilha sonora: Luiz Felipe Reis. Direção musical: Carol Mathias. Fotografia: Renato Pagliacci. Direção de produção: Luiz Felipe Reis e Julia Lund. Produção executiva: Roberta Dias.
Serviço:
Teatro FAAP (477 lugares), Rua Alagoas, 903, tel. 11 3662-7208. Horários: de terça a quinta às 20h. Ingressos: R$ 130 e R$ 65. Duração: 110 min. Classificação: 18 anos. Temporada: até 6 de agosto de 2026.
2 Comentários
Adriana Bifulco
julho 1, 2026 @ 17:22
Incrível como uma experiência tão dolorosa do autor tenha resultado em um espetáculo tão sensível e emocionante, tanto para o elenco como para a plateia. Edourd Louis é um autor incrível. Preciso conhecer melhor sua obra. Obrigada por mais esta resenha tão completa e sutil.
Maurício Mellone
julho 2, 2026 @ 14:41
Adriana:
Concordo com vc: E. Louis transforma dor em arte. E tb preciso ler mais livros
deste escritor francês.
Beijos e obrigado por sua presença constante por aqui