De Maurício Mellone em maio 26, 2026
Numa sociedade polarizada, com discursos políticos extremados, o filme do ator e diretor Caco Ciocler, Eu não te ouço, discute exatamente esta dificuldade de comunicação atualmente no Brasil. A trama parte de um meme da internet em que um manifestante da extrema direita, após a divulgação dos resultados das eleições presidenciais de 2022, tenta impedir que um caminhão trafegue nas estradas; ele sobre no para-choque de um caminhão, mas o motorista não interrompe seu percurso. Eles falam e discorrem sobre suas ideologias, mas um não ouve o outro, pois têm um para-brisa entre eles.
Misturando humor e tensão, o roteiro retrata uma sociedade em que há a ausência de diálogo entre as pessoas com posições políticas opostas e a impossibilidade de escuta. O inusitado do filme é que os dois personagens (o motorista e o manifestante patriota) são vividos pelo ator Márcio Vito, que responde às perguntas em off do diretor Caco Ciocler. Vito foi escolhido melhor ator no Festival do Rio/2025,seção Première Brasil- Novos Rumos.

Márcio Vito foi premiado no Festival do Rio/2025
O filme poderia ser definido como um incomum road movie, já que os personagens não contracenam durante todo o percurso que fazem: há uma separação entre eles, o para-brisa! Tudo começa com o motorista aceitando participar de uma gravação durante a viagem. Ele começa a responder as perguntas do diretor — que nunca aparece —, mas é interrompido pelo manifestante, que grudado no para-brisa começa a gesticular e gritar. O motorista se irrita, xinga o intruso e comenta com o diretor sobre o absurdo daquela situação; ao mesmo tempo o patriota, do lado de fora do caminhão, também está irritado, reclama que o motorista é um fura greve, que eles vão conseguir parar o país e que ele não vai descer dali.
Durante todo o trajeto, tanto o motorista como o patriota, discorrem sobre suas visões de mundo, suas ideologias e como cada um vê o país em que vive. O espectador tem a impressão que eles vivem em mundos completamente diferentes. O diretor interfere, conversa com ambos e tenta, em vão, mediar um diálogo. O engraçado é que o motorista, ao ser questionado sobre sua posição política, diz que não é de esquerda, nem de direita; é da estrada.
O clima do filme tem variações, de um tom leve e de humor — há momentos emotivos quando eles falam de suas famílias — até de tensão devido ao atrito entre os personagens. O roteiro, assinado pelo diretor em parceria com Isabel Teixeira e Márcio Vito, deixa claro que a sociedade vive um período em que as pessoas não estão dispostas a se ouvir, não estão abertas ao diálogo. Tive a nítida impressão de que tanto o motorista como o patriota são muito parecidos, ambos defendem suas posições de forma extrema e são radicalmente conservadores. Defendem posições opostas, mas agem do mesmo modo.
Num momento em que novamente teremos eleições gerais, Eu não te ouço pode ajudar as pessoas a refletirem sobre a importância do diálogo e do debate sério sobre diferentes propostas políticas para a melhoria de vida da população.
Fotos: divulgação
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