De Maurício Mellone em janeiro 22, 2026
O cineasta Elder Fraga, detentor de uma infinidade de prêmios concedidos aos seus curtas e longas-metragens, foi convidado a dirigir na Alemanha um documentário sobre a ópera Orpheus und Eurydike. Criativo e curioso, durante este período o diretor brasileiro conheceu Ali Napoé, natural de Togo, na África, e que vive na Alemanha desde a adolescência. Ambos decidiram realizar o curta-metragem Eu só queria comer, um registro emocionante sobre o racismo que o ator sofreu recentemente num restaurante alemão.
Numa entrevista exclusiva ao Favo do Mellone, Elder Fraga fala sobre sua experiência na Europa — além da Alemanha, visitou 9 países e dezessete cidades —, dos projetos que vem desenvolvendo e principalmente sobre seu contato com este ator africano. A identificação entre eles foi imediata e eles resolveram discutir o racismo a partir da experiência vivida por Ali na Alemanha, mas traçando um paralelo com a sociedade brasileira, em que o racismo estrutural ainda é uma realidade.
Natural de Ituporanga/SC, criado no Rio de Janeiro, mas residente em São Paulo desde 1997, Elder Fraga começou sua carreira artística como ator: atuou tanto no teatro como no cinema. Prestes a completar 51 anos, Elder começou a filmar em 2010, com o curta-metragem O Último Dia. Hoje à frente da produtora Fraga Films, Elder já dirigiu dezenas de curtas, incluindo o premiado Fã número 1/2023 , e quatro longas-metragens — SP- crônicas de uma cidade real/2018, O artista e a força do pensamento/2021 , Linha de frente/2021 e Ninguém é campeão sozinho/2024.
Acompanhe a seguir a entrevista exclusiva com o diretor:
Favo do Mellone– Primeiramente, quero saber um pouco sobre sua estada na Alemanha: você foi para estudar ou trabalhar?
Elder Fraga- Foi um período muito especial da minha trajetória. Não foi uma decisão fácil, porque naquele momento estava com vários projetos em andamento no Brasil. A ida para a Alemanha aconteceu a partir de um convite específico e potente: dirigir um documentário sobre a ópera Orpheus und Eurydike. Foi dentro desse teatro, durante o trabalho, que conheci o artista Ali Napoé. Esse encontro acabou sendo determinante, não só para o curta Eu só queria comer, mas para uma série de reflexões artísticas e humanas que venho desenvolvendo desde então.
Favo – Quanto tempo você ficou na Alemanha e quais projetos realizou por lá?
EF- Fiquei cerca de um ano na Alemanha. Além do documentário sobre a ópera, recebi convites para dirigir outros projetos pela Europa. Foi uma experiência intensa e rica do ponto de vista artístico. Trabalhei com artistas de diferentes países e culturas, e muitos desses projetos ainda estão em fase de montagem ou desenvolvimento. Esse período abriu portas importantes e consolidou diálogos internacionais que seguem ativos até hoje.
Favo – Você está de volta ao Brasil desde quando?
EF- Fui para a Alemanha em maio de 2024 e retornei ao Brasil em abril de 2025. Nesse intervalo, passei por nove países e dezessete cidades na Europa. Foi um trabalho intenso, produtivo e transformador para a minha carreira. Hoje mantenho convites abertos para retornar à Europa, além de conversas em andamento envolvendo projetos na América, Ásia e África. Tenho a sensação de que esse movimento internacional é apenas o começo de uma nova fase.
Favo – O curta Eu só queria comer foi realizado na Alemanha? Em qual cidade?
EF- O filme foi rodado em Darmstadt, uma cidade que fica a cerca de 20 minutos de Frankfurt, principal centro econômico da Alemanha. Também realizei outros trabalhos audiovisuais por lá, mas o curta nasceu especificamente desse contexto urbano e social de Darmstadt.
Favo – A montagem e a finalização foram feitas no Brasil?
EF- Sim. Toda a pós-produção foi realizada no Brasil, com parceiros de extrema confiança. Foi importante finalizar o filme aqui, trazendo esse olhar brasileiro para uma história que dialoga com diferentes realidades do mundo.
Favo – Como você conheceu o ator Ali Napoé?
EF- O Ali trabalhava no mesmo teatro onde eu estava contratado. Tivemos vários encontros informais na cantina, onde os artistas se reuniam diariamente. Ele sempre chamou minha atenção — pela presença, pelo olhar e pela postura. Em um desses momentos, fomos apresentados. A conexão foi imediata. A partir daí, começamos a conversar com frequência sobre arte, vida, deslocamento, identidade e pertencimento. Dessas conversas nasceu a ideia do filme.
Favo – O Ali vive na Alemanha desde quando?
EF – Ele chegou à Alemanha com aproximadamente 12 anos, depois de sair de Togo, na África, junto com sua família. A trajetória dele é profundamente marcada por deslocamento, adaptação e resistência. Ele também participa de um documentário que estou desenvolvendo há alguns anos, chamado Em busca da Pátria amada, no qual ele conta sua história de forma emocionante.
Favo – Como surgiu a ideia do roteiro do curta-metragem?
EF- Em uma de nossas conversas, comentei que o Brasil é um país estruturalmente racista. Ele respondeu dizendo que havia vivido situações de racismo na Alemanha. Foi nesse ponto de encontro entre experiências reais que surgiu a ideia do filme. Queríamos falar de algo concreto, vivido, sem filtros ou metáforas. Apenas expor uma situação cotidiana que, infelizmente, se repete em diferentes partes do mundo.
Favo – O depoimento apresentado no filme é baseado na experiência pessoal do Ali ou é ficcional?
EF- O filme é totalmente baseado em fatos reais. Desde o início, nosso desejo era construir uma obra verdadeira, na qual o Ali se sentisse plenamente representado. Conversamos muito, trocamos experiências e percepções. A partir disso, escrevi o roteiro e apresentei a ele. Lapidamos juntos para que tudo estivesse alinhado com a realidade vivida por ele. Do Brasil, contamos com a colaboração da Luquinha Figueiredo, que realizou uma pesquisa sobre o contexto brasileiro. A presença dela foi importante para dar consistência e profundidade ao projeto.
Favo- O Ali conhece a realidade brasileira? Ele tem informações sobre o racismo estrutural vivido no Brasil?
EF- Conversamos sobre a realidade brasileira, sobre nossas contradições e violências históricas. O filme nasce justamente do encontro entre três culturas muito distintas: a brasileira, a alemã e a togolesa. A relação do racismo na Alemanha e no Brasil é extremamente complexa. Em ambos os países, muitas vezes, ele é camuflado, silenciado. Quando alguém denuncia, ainda escuta que é exagero, vitimismo ou o famoso “mimimi”. O filme busca expor essa simbiose de forma direta e honesta.
Favo- Quando o curta-metragem será lançado?
EF- O filme acabou de ser finalizado e estamos trabalhando sua circulação em festivais brasileiros e internacionais. Em breve anunciaremos sessões de lançamento por aqui. É um filme pequeno em duração, mas grande em urgência e impacto. Nosso desejo é que ele circule, provoque reflexão e gere conversa.
Assista agora, em primeira mão, o trailer do curta-metragem Eu só queria comer, com o ator Ali Napoé:
Elder também realizou uma entrevista com Ali Napoé, em que o ator fala de sua trajetória até chegar à Alemanha, de seus trabalhos na Europa e como conheceu o cineasta brasileiro. Fala de sua alegria e satisfação em participar dos projetos da Fraga Films e da expectativa em visitar o Brasil para divulgar o curta-metragem. Acompanhe:
2 Comentários
Elder Fraga
janeiro 22, 2026 @ 14:40
Mais uma vez, muito obrigado, Mellone, por acolher esse filme e permitir que o Favo do Mellone seja também um lugar de escuta, reflexão e responsabilidade social.
Seguimos juntos, usando o cinema como ferramenta de diálogo e transformação.
Maurício Mellone
janeiro 22, 2026 @ 15:40
Elder,
agradeço mais uma vez pela confiança.
Seu curta-metragem é essencial para os
dias de hoje. O racismo precisa ser denunciado a todo
o instante. Não podemos conviver com este crime escandaloso!
Parabéns pelo seu trabalho e do Ali Naponé.
E o FAVO está sempre aberto para divulgar seus trabalhos,
conte comigo sempre
Abração