De Maurício Mellone em setembro 22, 2026
Sucesso de crítica e de público, o espetáculo Eu sou minha própria mulher, estrelado por Edwin Luisi, com direção de Herson Capri, cumpre temporada no Teatro FAAP até final de novembro. Na peça, o ator interpreta 20 personagens para contar a trajetória de vida da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf, sobrevivente da opressão do nazismo e do comunismo, que nasceu em 1928 e faleceu aos 74 anos, em 2002.
Com texto do dramaturgo norte-americano Doug Wright, o espetáculo, montado em 2007, rendeu diversos prêmios a Edwin Luisi e percorreu vários estados brasileiros, mas não chegou a São Paulo. O ator e o diretor resolveram então remontá-lo, principalmente para resgatar a memória de Charlotte von Mahlsdorf, uma personalidade símbolo de liberdade e resistência:
“É necessário dizer que essa é uma releitura, o texto foi atualizado, já que o mundo passou por grandes mudanças. Vejo o texto hoje muito mais atual do que na época da primeira montagem, porque se fala de identidade, de resistência e de liberdade de ser o que se é, temas de extrema importância. E meu maior sonho é apresentar esta peça aqui”, confessa o ator Edwin Luisi, natural de São Paulo e formado pela EAD da USP
Com um cenário de poucos elementos, o ator entra em cena na pele do dramaturgo Doug Wright para explicar como resolveu escrever a peça: depois de assistir uma palestra de Charlotte, ele se encantou por ela e escreveu- lhe pedindo para contar sua história. Depois de receber a autorização, ele viaja para a Alemanha e inicia uma série de entrevistas com a célebre travesti, reconhecida como pioneira na luta pelos direitos das pessoas trans e toda a comunidade LGBTQIAPN+.
Sem troca de figurino — todo em preto com sobreposição que o ator altera durante as falas — e somente com o colar de pérolas de Charlotte, Edwin inicia o relato da saga da personagem, dando voz a 20 personagens, como a própria Charlotte, o dramaturgo, o pai, a mãe e a tia dela, os militares nazistas, o grande amor de sua vida, dentre outros.
A trama tem idas e vindas no tempo, narrando desde a infância da personagem, ainda como o garoto Lothar Berfelde, sua experiência ao lado da tia que a incentivou a usar roupas femininas, sua adolescência em que viveu em choque com o pai autoritário/nazista, sua prisão até a queda do regime de Hitler. Finalmente, em liberdade, Charlotte pôde assumir sua identidade feminina e criou um museu em que vendia objetos e móveis antigos, relógios e aparelhos de som. No porão do museu, Charlotte mantinha ainda um clube LGBT, que além de festas abrigava encontros (clandestinos) de homossexuais na Alemanha Oriental, de regime totalitário e comunista.
Além da fascinante história de vida de Charlotte, o público se envolve na trama graças ao virtuosismo de Edwin Luisi. O ator mantém um rigor técnico na composição dos inúmeros personagens: voz, postura, trejeitos dão a dimensão exata para cada uma das pessoas que interpreta. Fiquei impressionado como Edwin, com um pequeno gesto de ombro, corporifica a doce, encantadora e ao mesmo tempo vigorosa Charlotte. Destaque ainda para a fina sintonia entre ator e diretor (Edwin está pleno em cena graças à condução de Capri). Criativos cenário e figurino, além de uma trilha sonora envolvente e uma sensível iluminação complementam esta produção cuidadosa e emocionante. Não perca, o espetáculo permanece em cartaz até final de novembro. Mais informações, acesse as páginas no Instagram:
Roteiro:
Eu sou minha própria mulher. Texto: Doug Wright. Direção: Herson Capri. Elenco: Edwin Luisi. Assistente de direção: Cláudio Andrade. Cenário e figurino: Marcelo Marques. Iluminação: Aurélio de Simoni.Trilha sonora: Paulo Arruzzo. Fotografia: Lívio Campos. Programação visual: Júlia Barros. Produção: Edwin Luisi Produções Artísticas. Produtor: Cláudio Andrade. Produção/SP: Gerardo Franco.
Serviço:
Teatro FAAP (477 lugares), Rua Alagoas, 903, tel. 11 3662-7208. Horários: sexta e sábado às 20h e domingo às 17h. Ingressos: de R$ 160 e R$ 80. Duração: 70 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 29 de novembro.
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