De Maurício Mellone em abril 21, 2026
Desde a chegada para assistir ao espetáculo Hamlet, sonhos que virão, o público se surpreende: o antigo e desativado cinema está em obras e até por isto que ele foi a opção da direção e da produção para a realização da montagem:
“Hamlet fala de um mundo que ruiu, de estruturas que já não se sustentam. Encenar a peça em um edifício em ruínas não é um efeito estético, é uma tomada de posição. A ruína é o próprio estado do drama”, afirma Rafael Gomes, que além da direção assina a adaptação em parceria com Bernardo Marinho.
O clássico de William Shakespeare é encenado por 13 atores, tendo Gabriel Leone como Hamlet, o príncipe do reino da Dinamarca. A tradução da peça é de Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harrington, que traz o texto para uma cena mais contemporânea e uma linguagem direta. O espetáculo está no final da temporada, sessões só até o próximo dia 03 maio, no Nu Cine Copan. Imperdível!
Shakespeare é encenado e revisitado até hoje por sempre discutir temas universais, que retratam a alma humana, como poder, ganância, ambição, traição, amor, ciúme e loucura. E em Hamlet — escrita entre 1599 e 1601 e considerada uma das mais emblemáticas de suas tragédias — este universo é fielmente retratado.
O príncipe, após a morte do pai e de ser surpreendido com o precoce casamento da mãe com seu tio, passa a desconfiar do novo casal real e deseja saber a verdade. Para tanto, finge-se de louco para poder investigar e assim testar os limites do poder, das paixões humanas e de sua própria existência.
Se não bastasse o vigor da dramaturgia, a montagem é grandiosa por ser concebida num espaço inusitado. Desde o saguão que já evidencia o estado de ruína e o processo de reforma do local, o espectador é conduzido para o grande salão e se acomoda onde antigamente ficavam a tela e o palco do cinema. A trama se desenrola onde antes era a plateia, com piso inferior e o piso superior. Há uma única cadeira próxima ao público onde Hamlet senta-se algumas vezes e é de lá que, voltado aos espectadores, fala seus monólogos de maior impacto, como o famoso ‘ser ou não ser’, em que reflete sobre a existência humana, confessa sua angústia de existir e suas dúvidas sobre o amor, a vida e a morte
“Me interessa o Hamlet humano, no sentido da complexidade, e isso engloba todas as suas possibilidades, é obrigatório surfar entre elas. Interpretá-lo é colocar um espelho na frente da plateia, Hamlet é essa espécie de homem espelho. Ele se questiona o tempo todo, se sente deslocado, incapaz de se encaixar. É um personagem muito ligado ao nosso tempo, à ansiedade, à sensação de não pertencimento”, argumenta Gabriel Leone.
A montagem de Gomes é contemporânea e se vale de todos os recursos para enredar o público; a iluminação assinada por Wagner Antonio é impactante (as cenas com o fantasma do rei são eletrizantes). O cenário de André Cortez, com poucos elementos e muita movimentação, contribui para a dinâmica narrativa. Destaque ainda para os belos figurinos de Alexandre Herchcovitch, o visagismo de Pamela Franco e a trilha sonora original de Barulhista e Antonio Pinto, que enfatiza o clima de instabilidade e atrito entre Hamlet e o casal real, usurpador do trono de seu pai.
De um elenco de 13 artistas, a sintonia na interpretação merece ser ressaltada, com destaque para a atuação de Samya Pascotto, na pele de Ofélia, Fafá Renó, que dá vida a Polônio, Felipe Frazão como Horácio, e o casal real interpretado por Eucir de Souza e Susana Ribeiro. Gabriel Leone, como o protagonista, vive um momento especial da carreira: além de papéis marcantes no audiovisual ultimamente, ele está se lançando como cantor. E na pele de Hamlet, ele mostra as várias facetas do personagem, indo do romântico, ao revoltado, além do satírico e mordaz até o reflexivo e intimista. Sem dúvida, um marco na carreira do jovem ator.
A temporada se encerra no próximo dia 03 de maio. Para mais informações, acesse a página do espetáculo no Instagram:
Roteiro:
Hamlet – sonhos que virão. Texto: William Shakespeare. Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington. Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes. Direção: Rafael Gomes. Diretor assistente: Victor Mendes. Elenco: Gabriel Leone, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora. Cenografia: André Cortez. Iluminação: Wagner Antônio. Figurino: Alexandre Herchcovitch. Visagismo: Pamela Franco. Trilha sonora: Barulhista e Antonio Pinto. Design de som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada. Fotografia: Bob Wolfenson e Micaela Wernicke. Direção de movimento e coreografia: Fabrício Licursi. Direção de produção: Rafael Rosi. Produtor executivo: Diogo Pasquim. Realização: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil.
Serviço:
Nu Cine Copan (345 lugares ), Av. Ipiranga, 200, entrada pela Galeria do Copan. Horários: quarta às 20h, quinta às 17h e 20h30, sexta às 20h, sábado às 16h e 20h e domingos às 17h. Ingressos: de R$25,00 a R$250,00. Vendas: nucinecopan.byinti.com. Duração: 2h15 minutos (sem intervalo). Classificação: 14 anos. Temporada: até 03 de maio.
2 Comentários
Adriana Bifulco
abril 22, 2026 @ 13:12
Fiquei encantada com o espetáculo só de ler a resenha. Além da trama forte, o cenário inusitado mas condizente com o enredo, a peça conta com grandes nomes desde a tradução, passando pelo figurino e o multifacetado e talentoso Gabriel Leone. Que maravilha, querido!! Preciso me organizar para ir assistir. Beijo grande!!
Maurício Mellone
abril 22, 2026 @ 15:16
Adriana:
Sem dúvida, ‘Hamlet, sonhos que virão’ é um espetáculo
grandioso, uma produção muito bem cuidada, num local inusitado,
com um elenco em sintonia. O Gabriel vive um momento
especial na carreira: interpretar um personagem ícone da
dramaturgia mundial com brilhantismo só o engrandece como
artista!
Beijos e obrigado por suas palavras amigas e sua presença
constante aqui no FAVO.